Maranhão

Foto: Márcio Vasconcelos

Algumas cidades e estados entram no radar dos apaixonados por cultura, aventura e belas paisagens. E do nada: todo mundo parece estar lá. Mas essas ondas não são tão aleatórias e sempre chegam depois que muitos agentes locais trabalham por anos.

Em julho de 2024, o Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses foi declarado Patrimônio Mundial Natural pela UNESCO — título que celebra sua beleza e características geológicas únicas. A expectativa é que o título impulsione o turismo na região de forma sustentável e gere mais empregos, mas o destino já vem sentindo mudanças significativas: entre janeiro e julho de 2025 houve um aumento de quase 40% no número de visitantes em comparação com o mesmo período de 2024. Com a procura, aumentam também as ofertas de hotéis de luxo como La Ferme de George, Casa Oiá e mais recentemente a Pousada Patacas que fica no coração dos lençóis, na frente da lagoa Bicudo Gordo.

Mas o Maranhão vai muito além de Lençóis! Considerada a “Jamaica brasileira” pela forte presença e popularidade do reggae na cidade, São Luís é uma cidade que pulsa arte, arquitetura, música, dança e religiosidade. A maior procura é no ciclo junino, quando turistas interessados pelo Bumba meu boi e Tambor de Crioula podem dançar com a população na rua. Outros atrativos, entretanto, prometem conquistar artistas, colecionadores e arquitetos.

Márcio Vasconcelos

Foto: Márcio Vasconcelos

“A proximidade com a Europa colocou a cidade na rota colonial — especialmente durante o ciclo do algodão, quando o Maranhão foi o maior fornecedor da matéria-prima durante a revolução industrial inglesa. O resultado foi uma cidade com riqueza significativa e um número expressivo de construções dos séculos 18 e 19 ainda preservadas. São Luís tem o maior centro histórico contínuo da América Latina, com cerca de 6 mil imóveis tombados, sendo 85% de casas particulares”, explicou Kátia Bogéa, presidente da Fundação Municipal de Patrimônio Histórico — órgão responsável pela criação do Museu do Azulejo, espaço que abrirá em 2026 depois do restauro e obra assinada pelo Instituto Pedra. A nova instituição terá cerca de 3 mil peças com obras desde o século 9 até contemporâneas assinadas por nomes como Adriana Varejão, Humberto Campana, Silvana Mendes, entre outros. “Como a maioria destes prédios foram construídos na segunda metade do século 18, depois do grande terremoto de Lisboa, são comuns aqui soluções arquitetônicas anti-sísmicas como sistema gaiola pombalina”, completa Kátia.

Maranhão

Praça Benedito Leite em 1908 – Foto: Galdêncio Cunha

“Houve um importante programa de revitalização do centro histórico nos anos 1980 e 1990”, explica Germano Dushá, curador da primeira individual de Thiago Martins de Melo em sua cidade natal. Thiago, Germano, Samantha Moreira, idealizadora do Chão SLZ, e Marco Antônio Lima, fundador da Galeria Lima, e Luciana Farias, da Brazimage, são alguns dos maranhenses (de nascimento ou coração) que têm movimentado a cidade culturalmente e prometem que São Luís será a próxima Salvador. E a proximidade com a capital baiana não é apenas no quesito “places to be”: São Luís foi o maior destino escravocrata depois de Salvador, transformando-se em uma cidade essencialmente negra, mas repleta de misticismo e hábitos indígenas. De fato, é uma cidade que pulsa calor e crença. Um lugar que vibra com tambores e encantarias.

Márcio Vasconcelos

Foto: Márcio Vasconcelos

Um dos espaços independentes mais interessantes do país, o Chão SLZ celebra 10 anos de resistência abrigando, este ano, parte da exposição de Thiago Martins de Melo, produzida pela Brazimage e patrocinado pelo Will Bank. Ao lado do futuro Museu do Azulejo, uma construção do século 17 será a sede do Instituto Maranhense de Arte Contemporânea, onde Marco Antônio Lima pretende organizar, a partir de 2027, exposições que trazem releituras de seu acervo de 250 obras de artistas locais. “Estamos inserindo, na coleção, artistas históricos e fundamentais para o desenvolvimento da arte da região. Por isso, expor desde obras de 1892, do Francisco Franco de Sá, o primeiro maranhense a ter uma carreira internacional, até produções contemporâneas”, explica Lima que pretende abrir, também, uma residência de pesquisa para promover o estudo e divulgação da arte maranhense.

E o turbilhão são-luisense não para por aí: em dezembro, a secretaria de cultura irá inaugurar o Complexo Trapiche Santo Ângelo, projeto que transformou armazéns na zona portuária em edifícios voltados à economia criativa e à inovação, abrigando um restaurante-escola do Senac, um teatro com 200 lugares e um espaço para workshops. Os próximos anos prometem!