A casa de Gustavo Cedroni e Aline Prado não nasceu de um grande plano. Surgiu de um terreno encontrado por acaso, de uma amizade improvável, de uma estrada que precisou ser construída antes de qualquer outra coisa e de uma vontade crescente de passar mais tempo no campo. Hoje, os fins de semana acontecem entre o fogão a lenha, a horta, os animais da propriedade e os pequenos trabalhos manuais que nunca parecem terminar. Gisele, a galinha que passeia sem cerimônia pelo terreno, tornou-se parte inseparável da paisagem. Há sempre uma trilha para abrir, uma cerca para consertar ou uma árvore para podar. “Minha referência de casa de campo vem da memória de ver meu pai e meu avô sempre ativos no pequeno terreno que eles tinham. É uma manutenção constante da estrada, das trilhas, dos animais e da horta. Mas é muito prazeroso também”, conta Gustavo.
Nada disso combina imediatamente com a trajetória de Gustavo. Como sócio da Metro Arquitetos, ele ajudou a desenhar alguns dos projetos urbanos mais relevantes do país. Acostumado ao concreto, à infraestrutura e à escala da cidade, acabou construindo no interior paulista uma casa de pau a pique feita com barro retirado do próprio terreno. Mas é justamente essa aparente contradição que torna o projeto tão revelador.
Ter uma casa no campo era um desejo antigo do casal. A busca pelo terreno começou durante a pandemia e tinha endereço certo: Catuçaba, distrito cercado pelas serras da Mantiqueira e do Mar, onde morava a mãe de Gustavo na época. Como arquiteto, ele tinha alguns critérios inegociáveis. “Precisava ter vista, água e uma estrada de fácil acesso”, conta. O terreno ideal, porém, demorou a aparecer. Quando surgiu, trazia justamente aquilo que faltava: não havia estrada alguma.
Foi durante esse processo que Gustavo e Aline conheceram Johanna Stein, fundadora da livraria Gato Sem Rabo, e Guil Blanche, CEO da Planta Inc. Entre conversas sobre cidade, campo e projetos futuros, descobriram um desejo compartilhado de construir uma vida menos acelerada. Pouco depois, surgiu a oportunidade de adquirir uma propriedade muito maior do que imaginavam. “Tínhamos acabado de perder a negociação de outro terreno quando o corretor nos apresentou essa opção. Não era exatamente o que procurávamos, mas tive a sensação de que poderia dar certo”, lembra Gustavo. “Só sei que um belo dia ele chegou em casa dizendo: conheci um casal ótimo e eles serão nossos sócios nessa empreitada”, completa Aline.
A ideia inicial era simples: cada casal construiria sua própria casa. Antes disso, porém, havia um obstáculo nada trivial. O terreno não tinha estrada de acesso. Durante meses, a principal obra não foi a casa, mas o caminho até ela.
Para acompanhar os trabalhos, os quatro alugaram uma casa no centro histórico de São Luiz do Paraitinga. Quando a estrada finalmente começou a tomar forma, a vontade de ocupar o terreno já falava mais alto do que qualquer planejamento. Em vez de esperar pelos projetos definitivos, decidiram construir uma única casa para servir de base temporária.
A essa altura, a convivência já havia transformado a parceria em amizade, e os palpites sobre o projeto surgiam naturalmente. “Deixei de lado o sonho do arquiteto de fazer a sua própria casa para construir algo que atendesse às expectativas de todos”, brinca Gustavo. Hoje, Gustavo é padrinho de uma das filhas do casal. A proximidade também produziu desdobramentos profissionais: Aline tornou-se sócia da Planta Inc., assumindo a frente de design e direção criativa da empresa.
O resultado foi uma casa muito diferente dos projetos que Gustavo costuma desenvolver na cidade. O construtor, apresentado por Aline, dominava sobretudo técnicas tradicionais de pau a pique e telhados de barro. Em vez de impor uma solução preconcebida, o desenho passou a responder às habilidades disponíveis, aos materiais encontrados no terreno e às necessidades do cotidiano. Grande parte do barro utilizado na construção veio dali, assim como os bambus empregados na obra. “No final, é uma casa de construção caipira, mas com planta modernista”, resume Gustavo.
A decoração seguiu o mesmo espírito da construção: foi acontecendo aos poucos, sem um plano rígido. Algumas peças vieram dos acervos pessoais dos dois casais, como os sofás de Sergio Rodrigues, a obra da artista Maria Lira, as banquetas de Lina Bo Bardi e a cadeira Xaxado, de Paulo Alves. Mas a identidade da casa se formou principalmente a partir da convivência com São Luiz do Paraitinga. Durante o período em que viveram na cidade para acompanhar as obras, Gustavo e Aline passaram a incorporar ao projeto o artesanato local, reunindo tapetes, cestos transformados em luminárias, cortinas e mobiliário produzidos por artesãos da região.
Como quase tudo naquela propriedade, muitos objetos surgiram de maneira inesperada. Tábuas que sobraram da construção tornaram-se banquetas; peças compradas sem destino definido encontraram lugar com o passar do tempo. Mais do que decorar os ambientes, cada elemento parece registrar uma etapa da história da casa e das pessoas que ajudaram a construí-la.
Agora, com a casa plenamente incorporada à rotina, Gustavo e Aline seguem descobrindo as possibilidades dos 85 hectares que os cercam. Há fins de semana cheios, com amigos, crianças e refeições compartilhadas; outros acontecem apenas entre os dois, acompanhados pelos animais, pela paisagem e pelas tarefas que o campo nunca deixa faltar.
O plano original previa que aquela fosse apenas uma etapa do projeto. Em algum momento, imaginavam construir uma segunda casa para si. A ideia, porém, parece cada vez mais distante. “A princípio, imaginávamos que esta casa receberia amigos enquanto construiríamos outra para nós, mas esse plano parece cada vez mais distante”, diz Aline. Algumas casas levam tempo para encontrar sua forma. Outras encontram seus moradores primeiro.









