Por Arthur Feltrin*

Toda vez que alguém me pergunta por que amo tanto Nova York, eu respondo a mesma coisa: porque lá o tempo parece se comportar diferente. As lojas abrem até tarde, algumas nem fecham, o metrô roda de madrugada e alguém está sempre comendo um bagel às três da manhã em algum canto de Manhattan. A cidade inteira parece ter decidido, há muito tempo, que dormir é opcional. Mesmo que, eu como médico, saiba todos os benefícios de uma noite bem dormida.

E talvez seja por isso que a Big Apple combine tão bem com quem já não dorme direito de qualquer jeito. Porque se tem uma coisa que eu escuto sem parar, no consultório, entre uma consulta e outra, é isso: “doutor, eu não durmo há meses”. E quase sempre é uma mãe falando. Uma mãe de bebê, de criança pequena, de um filho que decidiu que as quatro da manhã é o horário ideal para conversar. Quem é mãe aqui sabe exatamente o que estou falando, né?

Mas Nova York nunca dorme por opção. Essas mães não dormem porque a vida decidiu por elas. É uma diferença enorme, mas o resultado, para o corpo, acaba sendo parecido – cansaço acumulado, noites picadas, um relógio biológico que nunca sabe se é dia ou noite. E no final, a conta chega.

Tem um estudo da UCLA (Universidade da Califórnia), que eu gosto de falar, pois ele coloca em números uma coisa que toda mãe já sabe no corpo. Pesquisadores acompanharam mulheres nos primeiros meses depois do parto e descobriram que a privação de sono, ali no início, deixa uma marca que vai muito além do cansaço do dia seguinte: ela está ligada a um processo de envelhecimento celular acelerado. Ou seja, quando uma mãe diz que aquele primeiro ano “envelheceu dez anos”, ela não está exagerando. Existe biologia por trás dessa frase.

E o pior é que essa exaustão não fica só nos primeiros meses. Ela se estende, se acumula, vira um jeito de viver. Mãe de criança pequena costuma dormir menos e pior do que pai. Isso é praticamente unanimidade nas pesquisas de sono familiar. E dormir mal, semana após semana, não afeta só o humor; afeta memória, paciência, imunidade, disposição pra tudo, inclusive pra viajar. Que, aliás, é sobre isso que eu queria falar.

Porque toda mãe, em algum momento, olha pra aquela viagem dos sonhos, “Nova York”, especificamente, costuma aparecer bastante nessa lista, e pensa: “será que vale a pena ir com uma criança pequena?”. E a resposta sincera é: “depende de onde você vai ficar”. Eu falo muito sobre prevenção. E às vezes prevenção não é vitamina, não é exame, não é remédio. Às vezes prevenção é simplesmente escolher bem onde descansar a cabeça à noite.

O Mandarin Oriental, em Nova York, é um exemplo bom disso. Não porque é bonito, ou porque tem uma vista incrível do Central Park, que, particularmente, já vale a estadia e melhora a saúde só de ficar olhando. Mas porque alguém ali sentou e pensou de verdade em como é viajar com criança pequena. Tem um programa chamado Pocket Panda, feito pros hóspedes miúdos. Tem quarto que ganha uma tenda tipi montada dentro da suíte para transformar aquele espaço em território de brincadeira. Tem cardápio pensado para a turminha, berço e trocador disponíveis sem drama nenhum, horário reservado na piscina com salva-vidas de plantão, tem passeio privado pelo Central Park, com direito a ida ao Zoo e também visita guiada no Museu de História Natural, que fica a poucos quarteirões do hotel. Sem contar que o hotel também pode receber seu animal de estimação. E seu pet também recebe a melhor experiência possível. Parece detalhe, mas não é.

Porque quando a criança tem o próprio programa dentro da viagem, ou seja, quando ela está entretida, seguindo uma rotina, sendo cuidada de verdade, a mãe ganha de volta um pedaço de tempo que ela nem lembrava mais que existia. Um café tomado sem pressa. Uma caminhada tranquila por uma galeria. Uma frase terminada do início ao fim, sem ser interrompida no meio. Coisa pequena, eu sei. Mas é exatamente esse tipo de pausa, com sono melhor, atenção sem fragmentação, alguns minutos só seus que, na prática, protege a saúde a longo prazo.

Costumo dizer que viagem com filho pequeno não é férias, é outro tipo de trabalho, só que num cenário mais bonito. E talvez seja verdade mesmo. Mas dá para escolher um roteiro que também trabalhe a seu favor, que cuide de quem está com você enquanto, por uma hora, cuida também de você. Nova York vai continuar sendo a cidade que nunca dorme, com ou sem a gente. A pergunta boa não é se ela vai dormir, mas se você vai?

*Arthur Feltrin é médico, especializado em longevidade e colunista de Bazaar Kids