Ara Vartanian – Fotos: Vitor Jardim, Direção criativa: Kleber Matheus, Direção de arte: Yasmin Klein, Retoque: Gabriella Prata, Produção executiva: Zuca Hub e Produtora responsável: Claudia Nunes

POR RENATA BROSINA

“A primeira beleza é a pedra.” Entender-se como parte do processo de transformação de uma gema em joia é a missão silenciosa, quase poética, de Ara Vartanian. “Ela é um presente da natureza que carrega milhares de anos de história. O que eu estou fazendo é muito pequeno perto do todo”, diz ele de seu ateliê, a poucos passos de uma das avenidas mais movimentadas da capital paulista. Aos 51 anos, sua rota concentra-se nos arredores do Shopping Iguatemi, onde funcionam o estúdio criativo e a oficina, responsável por todas as etapas do processo, do derretimento do ouro ao polimento final. Ali, materializa-se sua relação com a pedra, que permanece horas sobre sua mesa antes de ganhar forma. “Não sou daqueles que abre um livro para procurar referências. Tem uns que olham para a floresta, outros para as flores. Eu tenho um jeito muito seco entre eu, a pedra e os meus sentimentos”, diz, movido sobretudo pelo instinto. “A gente já sabe do nosso espaço. Somos um ateliê, do nosso tamanho e seguimos na nossa velocidade. É uma maravilha ter o que temos hoje, o controle total da nossa cadeia”, reflete. “Claro, a gente tem poucas lojas”, diz o joalheiro, cuja marca completa 24 anos. “Quando fizer 50, eu vou ter 75 anos. Nossa! Celebrar meio século de mercado, fazendo o que eu gosto e me mantendo fiel aos meus princípios é incrível!” Embora dispense bolas de cristal — ele prefere esmeraldas, rubelitas e topázios —, a ideia de prever o futuro parece sempre vir acompanhada de surpresas. Uma delas foi o próprio edifício onde instalou o ateliê. “Ter meu espaço profissional neste prédio era um objeto de desejo”, confessa, lembrando das vezes em que passava pela frente, até o dia em que viu uma placa de “aluga-se”. “Precisei fazer um cálculo: precisava vender quatro joias para pagar o aluguel.”

RENATA BROSINA: Tudo começa com a pedra, certo?

AV: A minha paixão pela criação de joias começou a ficar mais forte quando eu mexia com quartzos e pedras brasileiras e achava aquilo o máximo. Depois, vieram os diamantes, safiras e esmeraldas, porque era o que o meu pai vendia.

RB: Seus pais trabalhavam com joias. Em algum momento você chegou a se imaginar longe da joalheria?

AV: Dentro de casa, não estava nos planos que eu seguisse o ofício da joalheria. Aos 14 anos, fui estudar em Genebra e meus pais sempre me incentivaram a seguir o mercado financeiro. Parecia um caminho interessante, ainda mais depois de assistir a Wall Street: Poder e Cobiça (1987). Pensei: “Isso parece legal”. Mas, quando cheguei lá, vi que não era bem assim. Acabei cursando Economia em Boston e percebi que aquele não era o meu caminho.

RB: O mercado financeiro não era para você?

AV: Não rolou e patinei muito. No fim dos anos 1990, depois de 11 anos fora do Brasil, liguei para o meu pai e disse que queria trabalhar com ele. Antes, porém, ele queria que eu fizesse um curso de gemologia na GIA, em Nova York. Um dia antes da viagem, sofri um acidente e precisei colocar dois parafusos no dedo. Fiquei no Brasil, comecei a trabalhar com ele e me encantei pelas pedras.

RB: No próximo capítulo, você seguiu independente?

AV: Sim, saí e resolvi montar o meu próprio negócio. Eu tinha muito conhecimento em pedras e de fornecedores. Para comprar pedras, às vezes, você consegue crédito, mas ouro não. Isso foi em 2005. Quando saí, já tinha a minha marca e vendia fora do Brasil, inclusive para celebridades como Naomi Campbell. Pensei: “É isso que eu quero fazer”. Aquilo me deu a certeza de que estava no caminho certo. Vendi meu carro, minhas coisas e montei o meu ateliê.

RB: Um ateliê em vez de uma loja?

AV: Eu me lembro de desenhar a parte interna do ateliê como se fosse a minha casa. Para mim, tudo vem de dentro para fora. Eu precisava criar um lugar incrível e funcionou muito bem. Escolher este prédio também era um objeto de desejo. Quando passava por aqui, ficava de olho nas placas de “aluga-se” e fazia a conta: “preciso vender tantas joias para pagar o aluguel”. Sempre foi assim: vendia uma pedra e comprava duas. Quando cheguei aqui, era só eu. Depois, vieram duas pessoas, três e, hoje, somos 93.

RB: O que o motivou a trazer a oficina para dentro do ateliê?

AV: Quando comecei a montar minha produção, meus pais disseram que eu era louco, porque é punk ter uma oficina própria. Minha prioridade era criar um ambiente de trabalho positivo. Na empresa deles, a produção era terceirizada, porque não havia uma oficina própria.

RB: O que foi essencial para você?

AV: Quando montei a minha oficina, o meu foco foi desenvolver um ambiente com os melhores equipamentos e que permitisse interação entre os artesãos. As áreas de cravação e ourivesaria sempre tiveram uma certa rixa, porque você estraga o trabalho do outro se não fizer direito o seu. Aqui, a peça vai do ourives para o cravador, que a examina e segue o processo. Aqui é um time só. Essa é a vantagem de fazer isso há 24 anos: você se consolida e tem pessoas na equipe há 17 anos, que acreditam muito no trabalho e em estar aqui dentro.

RB: O ambiente também faz parte da joia?

AV: As pedras são um presente da natureza e sempre achei que sou apenas um pedestal para mostrar essas belezas. Tem que ser humilde, porque nós somos muito pequenos perto de tudo, e, claro, ter respeito. É assim aqui dentro, com todos. Eu acredito que até o café tem que ser bem feito, senão a joia sai meio torta. Todo mundo aqui tem um propósito: vender joias e fazer desse trabalho uma experiência boa para todos.

RB: O que mudou na produção de joias nos últimos 25 anos?

AV: Não existia prototipagem naquela época. No meu caso, a gente começou a usar isso há quatro anos. Antes, era tudo feito na raça. Vejo que a joalheria mudou bastante, porque conseguir um ourives para fazer todo o trabalho à mão era muito mais complicado. A minha produção continua sendo artesanal, mas hoje conta com essa etapa, que otimiza o processo.

RB: A tecnologia também aproximou os jovens da joalheria?

AV: O que eu acho legal da prototipagem é que a turma do design, dos 20 aos 30 e poucos anos, não tinha espaço na cadeia da joalheria. Você acaba trocando ideias com esses jovens e, em uma empresa, é importante ter sangue novo. Antigamente, tudo dependia do artesão, que muitas vezes não tinha onde se profissionalizar. Era preciso encontrar aquela geração de pai para filho ou de tio para sobrinho. Acho que isso é um grande diferencial para a indústria. No passado, era muito mais desafiador.

RB: Sendo um criador, como você percebe a sua joia?

AV: O legal é que a joia que faço para minha cliente na casa dos 60 anos, quando a filha a pega emprestada, não parece que pegou a “joia da mãe”.

RB: Até o diamante invertido!

AV: Como meu pai era diamantário, eu estava lá, vendo todos que usam diamantes, na Bond Street, em Londres, ou na Madison Avenue, em Nova York, cravando do jeito normal. Eu penso que, na hora de criar uma joia, é preciso desse momento para brincar, entender como ela funciona de forma diferente no corpo, no olhar.

RB: E as esmeraldas?

AV: Lembro que, logo que comecei o meu negócio, fiz um super colar de esmeraldas para uma cliente especial. E isso me ajudou muito. Tiveram algumas peças que me ajudaram muito e essa foi uma delas. Eu usava esmeraldas, diamantes e turmalinas paraíbas, que vieram um pouco depois, mas que comecei a usar cedo, há cerca de quinze anos. Depois, elas começaram a ficar mais valorizadas e a serem procuradas pelas joalherias lá de fora.

RB: Pensando na sua pedra do momento, qual seria ela?

AV: Estou adorando o topázio imperial, mas o cliente brasileiro ainda não está de olho nessa pedra. Porque a mina fechou, agora só se encontra com alguém que a tenha comprado. Tem uma linda na loja do Iguatemi, mas acho que não quero vender ela, porque eu desenvolvo uma relação tão interessante com a peça que rola um certo apego. É quase um ciúme.