
O consumo regular de bebidas adoçadas com açúcar está ligado à piora da fertilidade masculina – Foto: Getty Images
Pequenas escolhas no dia a dia podem causar grandes impactos na fertilidade — especialmente quando se trata de alimentação. Uma nova revisão publicada na revista Nutrients analisou estudos dos últimos 24 anos e reforça um alerta importante: o consumo regular de bebidas adoçadas com açúcar está ligado à piora da qualidade do esperma.
“O consumo constante desse tipo de bebida tem sido associado a desequilíbrios hormonais e aumento do estresse oxidativo, dois fatores diretamente ligados à redução da fertilidade masculina”, afirma o Dr. Rodrigo Rosa, ginecologista obstetra, especialista em Reprodução Humana e diretor clínico da clínica Mater Prime, em São Paulo, e do laboratório Mater Lab. Além disso, o profissional é membro da SBRA (Associação Brasileira de Reprodução Assistida), da SBRH (Sociedade Brasileira de Reprodução Humana) e colaborador do Atlas de Reprodução Humana, obra da própria SBRH. Graduado pela UNIFESP (Escola Paulista de Medicina).
Apesar de serem associadas diretamente aos refrigerantes, as bebidas adoçadas englobam um universo mais amplo. “Embora o termo ‘bebidas adoçadas com açúcar’ remeta automaticamente aos refrigerantes, além deles existem outros tipos de bebidas, como: as bebidas em pó, as energéticas, as esportivas, os sucos de frutas adoçados industrializados, as bebidas lácteas saborizadas, os chás e cafés prontos e as limonadas comerciais”, destaca o especialista.
O levantamento considerou pesquisas publicadas entre 2000 e 2024 em diversas bases de dados científicas e aponta que essas bebidas representam a principal fonte de açúcar adicionado na alimentação cotidiana. Para se ter uma ideia, uma lata padrão de refrigerante (355 ml) pode conter de 35 a 37,5 g de açúcar — o equivalente a até 150 calorias. “Essas bebidas normalmente contêm altas concentrações de adoçantes calóricos, como xarope de milho rico em frutose (HFCS), sacarose ou sucos de frutas concentrados. Importante deixar claro que esse tipo de frutose é mais concentrado que o das frutas e vem sem as vitaminas, minerais, fibras e fitoquímicos presentes nesses alimentos naturais. O consumo de frutas é altamente benéfico para a saúde do organismo e para a reprodução humana”, reforça o médico.
A análise também observou que o consumo dessas bebidas aumentou quase 23% no mundo entre 1990 e 2018 — com prevalência maior entre homens. No mesmo intervalo, estudos apontam que os parâmetros do sêmen caíram de forma expressiva: a concentração média de espermatozoides foi reduzida em mais de 50% entre 1973 e 2018.
“O que observamos é que essas bebidas estão ligadas a diversos prejuízos para a fertilidade masculina: desde a redução da contagem e do volume de sêmen ejaculado até alterações na morfologia, motilidade e viabilidade dos espermatozoides”, explica o Dr. Rodrigo Rosa. Além de contribuir para a obesidade, essas bebidas também interferem no eixo hormonal que regula a função dos testículos. “Essas bebidas reduzem também os níveis hormonais, incluindo a inibina-B, que está associada a uma menor contagem de espermatozoides. Disrupções hormonais por meio da redução da relação inibina-B/hormônio folicular estimulante (FSH) podem ser os mecanismos subjacentes que correlacionam o impacto do aumento do estresse oxidativo e da disfunção metabólica na saúde dos espermatozoides”, complementa.
Os efeitos nocivos vão além da parte hormonal. De acordo com o estudo, essas bebidas favorecem a produção de espécies reativas de oxigênio (EROs), moléculas ligadas ao estresse oxidativo que podem causar danos ao DNA dos espermatozoides. “Elas também danificam a membrana espermática por meio da peroxidação lipídica e promovem a disfunção mitocondrial, o que reduz a motilidade e a viabilidade dos espermatozoides. Esses danos são tipicamente avaliados por meio de ensaios moleculares. O estresse oxidativo crônico também causa envelhecimento celular acelerado”, detalha o médico.
A ingestão elevada, definida como mais de sete bebidas adoçadas por semana (equivalente a cerca de 245 a 262,5 g de açúcar), teve impacto claro nos resultados: “Homens que consumiram mais de sete bebidas açucaradas por semana apresentaram uma redução de 22% na concentração de espermatozoides em comparação com os não consumidores. Da mesma forma, a maior ingestão de bebidas adoçadas com açúcar foi inversamente associada ao volume de sêmen; em comparação com os que não bebiam, os homens que bebiam mais de sete bebidas adoçadas com açúcar por semana geraram um volume de sêmen 6% menor”, destaca o Dr. Rodrigo. A motilidade também foi afetada, embora os dados não tenham sido estatisticamente significativos.
A boa notícia é que o consumo de antioxidantes pode ajudar a proteger as células reprodutivas. A suplementação com compostos como coenzima Q10, glutationa, vitaminas C e E mostrou benefícios, mas deve ser usada com cautela. “No entanto, a revisão observa que, embora a suplementação possa ajudar em certos casos, o uso excessivo pode, paradoxalmente, prejudicar a função espermática, sendo recomendada uma dieta balanceada e rica em antioxidantes como uma estratégia de longo prazo mais segura e sustentável para melhorar a saúde reprodutiva masculina. Além disso, claro, deve-se reduzir e, se possível, evitar o consumo dessas bebidas”, alerta o especialista.
O estudo conclui que ações de saúde pública são urgentes para conter o consumo exagerado dessas bebidas. “Além disso, a manutenção de um IMC saudável e a melhoria da saúde metabólica geral são recomendadas como parte de uma abordagem abrangente para apoiar a função reprodutiva masculina”, finaliza o Dr. Rodrigo Rosa.

