Marcos Siqueira

Pintura de Marcos Siqueira feita com pigmentos naturais encontrados no Cerrado, em Minas Gerais – Foto: Divulgação

Por Lorraine Mendes

A relação com a terra, com o chão, não determina destinos, mas pode orientar caminhos. A terra abriga transformações políticas, sofre com escolhas de uma sociedade. É testemunha, mas recordando Antônio Bispo, é também agente. Esta potência é reconhecida por artistas que, em suas práticas, escolhem acumular a poeira dos dias e as camadas de significado e pertencimento que a origem revela, desbravar caminhos e refletir sobre território, paisagem, presença e memória.

Florencia Martínez Aysa nasceu no Uruguai, mas carrega sua origem por todo lugar que habita. Tem como companhia constante pequenas plantas espinhosas conhecidas popularmente como “abrolhos”. Considerados ervas daninhas, os abrolhos são removidos de terrenos marcados por processos de monocultura extrativista. Mas Florencia semeia a presença deste elemento simbólico em seus trabalhos em escalas e materializações distintas: são fotografia, escultura, gravura e rastro. Uma imagem que se agarra e permanece, assim como a planta se fixa em pelos de animais para se disseminar e expandir. Em Mujer Abrojo, Florencia rememora paisagens de sua infância e corporifica as pontas espinhosas como um parentesco compartilhado com uma terra que vive e caminha em estado de semente.

Nascido e criado na Serra do Cipó, Marcos Siqueira cresceu brincando e trabalhando no Cerrado e ali aprendeu a viver em um tempo outro. Como todo ser em comunhão com a terra, tornou-se mais que um observador, mas um protetor deste importante bioma: ele é brigadista e suas pinturas acontecem a partir do mesmo corpo-ação que apaga incêndios e trilha caminhos por entre as formações rochosas. Siqueira compreende a riqueza presente no chão sob seus pés. Em oposição à ética da exploração, recolhe com respeito as matérias naturais que usa nos trabalhos — delicados pigmentos nascem de uma pesquisa por diferentes solos de erosões, folhas e cascas de árvores — e cria paisagens fabulares compostas por cores e texturas das trilhas que conhece tão bem. Pelos temas que aborda, pela saturação da paleta e pela textura que domina a tela, ele estabelece um diálogo intenso com toda uma tradição da pintura brasileira, atualizando-a a partir de seu corpo-território e experiência cotidiana.

Com os pés firmes no solo do Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, Josi une os saberes manuais que aprendeu no quintal de casa e nas tarefas domésticas às técnicas e tradições pictóricas acadêmicas. Assim como Siqueira, Josi parte de uma investigação poética nascida da experimentação com pigmentos naturais: a água usada para cozinhar feijão, as nuances e tons do café, a terra e o amido de milho.

Ao imprimir, moldar e traçar linhas com argila, algodão e memória, ela traduz na materialidade de sua obra a presença do seu corpo e as conexões materiais e ancestrais que existem em atividades simples e sofisticadas como lavar, regar e arar a terra. Mostra a importância de viver e respeitar o tempo de uma semente germinar e de uma planta crescer.

Terra

Toca do Angico, obra de Josi criada depois de uma expedição na Serra da Capivara, no Piauí – Foto: Divulgação

Em sua prática, somos convidados a perceber e compartilhar um espaço mental que valoriza uma resiliência social e ecológica. O pigmento feito da água do cozimento do feijão pode ser visto como uma pesquisa em torno da cor e da permanência, mas ganha camadas de significado quando percebido também como a manifestação da ideia de que a arte não é um privilégio e que vem da terra tudo aquilo que nos alimenta. A série Abrigo nasce depois de uma expedição na Serra da Capivara, no Piauí. As obras começam com um pano que fica de molho numa bacia com fervuras de cascas e folhas. Desse sono, brotam as primeiras impregnações e, a partir delas, nascem imagens. São “aparições” que representam histórias de sua família, seus ancestrais, sua comunidade, seu povo. As “tintas”, usadas aqui, também são extraídas de sementes, raízes, folhas, frutos e terras.

Se a técnica do adobe transforma terra em tijolos, na cidade, estamos cercados de terra por todos os lados. Mas esquecemos que mesmo um museu é feito de terra: antes de ser um cubo branco, o espaço expositivo é vermelho. É com essa consciência que a produção de Delcy Morelos escolhe a terra como fio condutor. Partindo da violência ligada às lutas por território e à discriminação racial que constitui intimamente a região que convencionamos chamar de América Latina, a artista investiga as relações humanas e a maneira como lidamos com o meio ambiente. Ela ressalta, por exemplo, que a instauração do narcotráfico passa pela exploração de terras – que já foram ocupadas por povos originários – e por todos os conflitos e relações de poder em torno de um território.

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Iglesia, instalação da colombiana Delcy Morelos, no Centro Andaluz de Arte Contemporânea, em Sevilha, na Espanha – Foto: Divulgação

O vermelho do sangue, que era, no início da carreira, uma pontuação sobre a violência, ganhou novo significado a partir da análise de sua formulação química: “O mesmo ferro que deixa a terra vermelha faz com que o nosso sangue seja vermelho. Existe uma relação muito profunda entre nosso corpo e nosso planeta que não fica evidenciada no estilo de vida atual. A terra é o nosso alimento, mas também tem uma relação com a morte. Na Quarta-feira de Cinzas, dizem: “Da terra você veio e para a terra voltará”, explica a artista.

A orientação do retorno para a terra aparece não só nos ritos católicos ou nas escrituras cristãs, como também em mitos de criação e morte em outras culturas e religiões. As histórias sobre a terra – e também sobre A Terra – povoam nosso imaginário uma vez que o mundo passa a existir quando começamos a falar sobre ele. Na gramática de muitos artistas, a terra ganha léxicos e sentidos que nos levam, na atual realidade de esgotamento de recursos, conflitos, genocídios e crise climática, não só a não esquecer do chão que nos dá origem, mas também em como, ao voltar para ele, podemos fabular possibilidades de futuro com mais conexão e ideais de partilha.