Luis Maluf no living com obras de Lorenzato, Zé Bezerra, Aline Moreno e Bia Filgueiras e cadeira de Gustavo Bittencourt (Fotos: Vitor Jardim)

Por trás de uma fachada de casa do interior, daquelas com cara de vó, se esconde um oásis da arte. “A ideia é realmente a casa sumir”, diz o galerista Luis Maluf, que mora em Pinheiros, o bairro mais cosmopolita de São Paulo, há sete anos, mas só assinou a escritura em 2025. Nesse intervalo, transformou cada centímetro do espaço em extensão direta do próprio olhar: uma luminária italiana dos anos 1950 que levou dois anos para ser restaurada, um tapete construído fio por fio por uma bordadeira, mais de 200 pontos de luz — todos dimerizados, nenhum branco.

Entre plantas, luzes baixas e móveis de época, a casa não se organiza como cenário, mas como um organismo em movimento. Até porque Maluf recebe amigos e clientes ali e, muitas vezes, como bom marchand, não resiste a deixar que um móvel ou obra encontre outro destino — abrindo espaço para o novo.

São três pavimentos, incluindo um mezanino onde recebe hóspedes, atravessados por uma história que antecede o atual morador. Uma matéria de revista de 2009 comprova que o imóvel já foi o estúdio do músico Raul Seixas; vizinhos ainda contam que o espaço também foi frequentado por Paulo Coelho. Ao assumir a casa, Maluf preservou o que era possível, como as paredes originais, os ladrilhos de cerâmica dos anos 1950 e a estrutura metálica, e passou a reconstruir o restante a partir de uma pesquisa minuciosa. “Pego revistas para entender como era a cúpula de uma luminária.” Em alguns casos, o vidro original já não existe; a solução vem do acetato, refeito a partir de anúncios antigos, dos anos 1950 e 60. O vintage não surge apenas como nostalgia, mas como metodologia.

Cadeiras de Zalszupin e luminária italiana Dominici vintage. Na parede, obra de Daniela Busarelo (Fotos: Vitor Jardim)

O mobiliário segue a mesma lógica de busca e verificação: Sergio Rodrigues e Jorge Zalszupin, tudo garimpado com rigor técnico. O jacarandá aparece não apenas como matéria, mas como evidência. Maluf compara veios de madeira com imagens de livros raros para confirmar a origem de uma peça. Nesse conjunto, os contemporâneos vêm como exceção controlada, como no caso de Rodrigo Ohtake e Gustavo Bittencourt. A arquitetura leva a assinatura de Vitor Penha, o paisagismo é de Carla Oldemburg, mas a curadoria — no sentido mais amplo da palavra — permanece centralizada no dono da casa.

Essa lógica se expande para além da casa. Um galpão na Barra Funda, com mais de 700 obras, alimenta uma rotatividade constante: a cada três ou quatro meses, o espaço se reorganiza e, com ele, o próprio ambiente doméstico. Hoje, uma monocromia conecta Antonio Dias, Jac Leirner e Sergio Camargo, criando um eixo geométrico que ecoa nos móveis.

A escada que leva ao mezanino com vista para a estante dos anos 1950, em jacarandá, com livros e objetos colecionáveis.

Na entrada, três espécies de espada de São Jorge funcionam como portal. Logo adiante, uma obra de Janet Vollebregt organiza sete pedras em relação direta com os chakras do corpo. “Você deita e cada pedra tem uma correspondência.” Não há religiosidade formal, mas uma construção intuitiva de crença. “Eu vou frequentando religiões e puxando os pontos que fazem sentido para mim.”

A casa também acumula histórias que atravessam o circuito da arte contemporânea. Na sala de TV, está a última obra de Vermelho Steam antes de sua morte, na primeira onda da pandemia, quando uma exposição já estava prestes a acontecer. No quarto, quase nada: uma luminária difusa e uma TV que desce do teto apenas quando necessário. O excesso se concentra nos espaços de convivência; o recolhimento, nos de descanso.

Cadeira de Gustavo Bittencourt, obras de Zé Bezerra, Aline Moreno e Bia Filgueiras.

Entre todos os elementos, as plantas talvez sejam as que mais explicitam o funcionamento da casa. São muitas, e exigem operação contínua: três jardineiros por semana, sistema de irrigação automatizado, luzes solares programadas de acordo com o ciclo de cada espécie. Não se trata de paisagismo decorativo, mas de manutenção de um sistema vivo. “Você acorda, olha as plantas e perde a sensação de São Paulo.”

O quarto, cercado por verde, se aproxima de uma casa na árvore, assim como o mezanino. A estufa de vidro conecta interior e exterior, levando até o jardim com sauna, incorporada à rotina depois de uma viagem.

Nesse ambiente, Pedrinho circula com autonomia. O cachorro Shih Tzu recebe as visitas na escada e estabelece outra escala de afeto dentro da casa. Ao lado dele, convivem os objetos, os sistemas de luz, o som integrado Sonos — única concessão tecnológica relevante, segundo Maluf — e uma série de decisões manuais que atravessam o espaço inteiro.

Poltrona Bola,
do Liceu de Artes e
Ofícios/O Shih Tzu Pedrinho na daybed de Rodrigues, sob instalação de Janet Vollebregt (Fotos: Vitor Jardim)

O tapete feito sob medida, a mesa desenhada para acompanhar uma peça específica de Bia Filgueiras, de quando a artista ainda estava em formação, onde se lê: “O voo pesa mais que a gaiola”.

A casa também funciona como extensão do circuito profissional. Recebe jantares com VIP guests, encontros com diretores de instituições de arte, eventos para marcas de luxo que operam dentro do mesmo ecossistema. Parte das obras é consignada; outra parte integra um movimento de mercado secundário, que se articula ali mesmo. “Não existe um lugar assim, com esse nível de detalhe.”

O acesso é restrito, quase sempre mediado por uma relação direta. À noite, a casa muda de estado. A iluminação de teatro redesenha os volumes, aprofunda sombras, reorganiza a percepção do espaço. É nesse momento que Maluf mais se reconhece ali. “Fica tudo escuro, muito mais confortável.”

Do lado de fora, a fachada continua discreta, quase invisível, preservando o contraste entre o que se mostra e o que se constrói internamente. Maluf começou no mercado de arte há 17 anos, vendendo obras em uma loja de roupas. Da Kombi (recuperada recentemente) às universidades e à galeria aberta em 2014, construiu um percurso que hoje se reflete na casa que comprou após sete anos de investimento. “Eu arrisquei muito.”

Agora, prepara um novo capítulo na Serra da Mantiqueira, onde pretende “dar uma sumida”. Para ele, desaparecer é apenas mais uma forma de se reconectar.