
Na capa da BAZAAR MAN, José Loreto usa short “Anarruga” da FOXTON
Entre personagens intensos, reflexões profundas e bastidores curiosos, José Loreto vive uma fase daquelas que dá gosto de acompanhar: mais leve, mais seguro e, ainda assim, movido por uma inquietação de quem busca incessantemente se desafiar e que parece não ter prazo de validade. Aos 42 anos, o ator encontrou um equilíbrio raro entre ambição profissional, autoconhecimento e felicidade pessoal. Mas quem pensa que isso significa calmaria se engana. Loreto segue em movimento.
“Não quero me repetir como artista, quero comparações completamente divergentes”, diz. E, com seu jeito descontraído, resume bem o próprio estilo: “Sou meio vira-lata”.
A definição, longe de ser pejorativa, traduz exatamente sua forma de encarar a carreira: livre, curiosa e sem rótulos. Ele transita com naturalidade entre diferentes universos, do musical ao drama, do popular ao experimental, sempre em busca de novas experiências e emoções.

José Loreto de full look FOXTON
“Gosto de brincar de fazer coisas diferentes. É muito bom quando produtores me procuram oferecendo trabalhos distintos, como a peça “Closer” e o musical “Ópera do Malandro”, dizendo que esses projetos têm a minha cara”, afirma. E 2026 é praticamente um parque de diversões para esse espírito inquieto. O ator chega com três projetos que mostram diferentes versões de si mesmo e nenhuma delas previsível.
Na televisão, ele marca presença na novela das nove “Quem Ama Cuida”, onde interpreta Yuri, um sujeito simples, bruto e cheio de contradições. Segurança de uma mulher poderosa, ele vive uma relação explosiva com a própria patroa, Pilar, interpretada por Isabel Teixeira. “É um cara que vai fazer tudo para se dar bem, mas também porque está sendo mandado. Ele é meio capacho de Pilar”, explica. E completa, já dando o tom: “Os dois vivem uma relação bem explosiva”. Tradução: vai ter tensão, drama e aquela dose de caos que o público adora.
Se na novela o clima esquenta, no cinema ele será a própria encarnação da luxúria no filme “Pecadora”, com lançamento previsto para agosto. Nesse romance de alta voltagem erótica, Loreto vive Enrico, um homem rico e sedutor responsável por desvirtuar uma jovem religiosa, interpretada por Rayssa Bratillieri, que embarca em uma jornada de autoconhecimento sexual. Mas o filme vai além da provocação. “Esse longa fala sobre uma mulher querendo dar voz ao próprio desejo”, destaca o ator. Ele também faz questão de ressaltar o cuidado nos bastidores: “Tivemos uma preparação especial para sequências de intimidade e nossa equipe era majoritariamente feminina”.
E quando parece que já vimos todas as versões possíveis de José Loreto, vem sua transformação mais intensa. No filme “Chorão: Só os Loucos Sabem”, ele dá vida a Chorão em um papel perseguido por mais de uma década e que define como o melhor personagem de sua carreira até agora. “Foi uma preparação muito profunda, que exigiu muito do meu físico e do meu emocional”, conta. Mais do que interpretar, ele buscou compreender as camadas do artista: “Chorão pensava à frente do seu tempo. Ele não sabia lidar com os próprios problemas, mas, em cima dos seus demônios, fazia uma multidão de jovens pensar”. A admiração é tanta que ele deixa escapar um desejo: “Sinto falta de termos mais ‘Chorões’ como artistas e influenciadores para essa geração”.
No meio de tantos personagens intensos, o curioso é perceber como, fora das telas, Loreto parece cada vez mais tranquilo, especialmente quando fala sobre a passagem do tempo. Aos 42 anos, ele encara a idade com leveza e até entusiasmo, apesar de admitir pequenos incômodos, como tomar remédio para evitar a queda de cabelo. “Hoje, sei dizer meus nãos”, afirma com a segurança de quem aprendeu a impor limites. E completa: “Fui ganhando consciência de quanto minha saúde é importante, minha qualidade de vida, meus exercícios, ter bons momentos com minha filha”.
Aliás, é impossível falar dessa fase sem mencionar o papel mais transformador da sua vida: o de pai. “A maior ruptura de evolução que tive foi ser pai da Bella”, diz, sem hesitar. A experiência, segundo ele, mudou tudo. “Amadureci drasticamente e positivamente.” Após o nascimento da menina, hoje com 8 anos, Loreto conta que passou a enxergar o mundo com mais sensibilidade em relação às questões femininas. “Ser pai de uma menina me dá um lugar de empatia muito mais latente. É quase na minha pele”, reflete. E vai além: “Estou mais consciente e obrigatoriamente interessado em feminismo e em destruir o machismo”. Esse processo de desconstrução não começou agora. Ele ganhou força durante sua participação no programa “Amor & Sexo”, da Globo, entre 2012 e 2018, experiência que define como um divisor de águas. “Foi muito revolucionário para mim. Fui me desconstruindo durante o programa.”
Loreto lembra de momentos que mudaram sua perspectiva quase instantaneamente, como um esquete em que uma princesa adormecida era despertada pelo beijo de um cavalheiro. “Ao analisar aquela cena, Regina Navarro Lins disse que mulheres não precisavam esperar o príncipe encantado para acordar e realizar seus sonhos”, conta. “Fiquei cinco segundos absorvendo o que Regina falou e entendi que tinha ideias totalmente romantizadas sobre o papel do homem e da mulher na sociedade.”
Entre cenas intensas, personagens desafiadores e reflexões sinceras, José Loreto segue construindo uma trajetória que mistura entrega, curiosidade e transformação. No fim das contas, talvez seu maior talento seja justamente esse: nunca se acomodar. E, pelo visto, esse “vira-lata” ainda tem muitos caminhos e versões para explorar.

