Foto: Divulgação
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Por Anna Paula Buchalla

Imagine poder desligar aquela chavinha do cérebro que nos faz salivar por um bolo de chocolate ou pelas calorias dos fast foods. Cientistas ingleses das universidades Glasgow e Imperial College London acabam de criar um shake que promete ser a solução contra o desejo por tudo aquilo que engorda. Ele é feito de um tipo de fibra criada em laboratório, que tem como base bactérias que habitam o intestino. O pó em questão contém fibra inulina-propionato de etilo (cuja sigla é IPE), que age justamente na área do cérebro responsável pelo desejo por alimentos altamente calóricos, desligando esse circuito. A pesquisa foi publicada recentemente no American Journal of Clinical Nutrition e já promete desbancar o nosso sagrado suco verde de todas as manhãs.

O propionato é uma substância natural que estimula o intestino a liberar hormônios que enviam ao cérebro comandos para reduzir a fome e o apetite. Ele é produzido quando consumimos fibras e é fermentado por bactérias intestinais. O problema é que, para conseguir um efeito significativo de redução de fome naturalmente, teríamos de comer muita fibra (o equivalente a quatro vezes mais do que ingerimos ao longo de um dia), algo praticamente impossível tendo como base uma alimentação balanceada e saudável. Daí veio o composto: a inulina-propionato de etilo fornece quantidades muito maiores da substância do que seria possível em uma dieta básica.

Os mesmos pesquisadores já haviam publicado um primeiro estudo, em 2013, quando chegaram ao novo ingrediente. Mas faltava encontrar um tipo específico de alimento ao qual o IPE pudesse ser acrescentado para ser efetivo em uma dieta. E o shake, finalmente, se mostrou um ótimo candidato. Além de reduzir o desejo, voluntários que tomaram o suplemento em pó misturado à água comeram 10% menos do que o normal. Os cientistas separaram dois grupos para realizar o teste: metade ingeriu o superingrediente e a outra metade, apenas a fibra inulina.

Exames de ressonância magnética mostraram que os que beberam o shake revelaram menos atividade nas áreas do cérebro associadas a prazer e recompensa, as mesmas ativadas quando alguém ingere drogas ou faz sexo, por exemplo.

A eles também foi dado um prato de massa com molho de tomates: os voluntários poderiam comer o quanto quisessem, mas o grupo do shake ingeriu 10% menos. Segundo o principal autor do estudo, o professor Gary Frost, “as descobertas mostram que o suplemento pode reduzir a atividade cerebral em áreas associadas ao desejo por comida ao mesmo tempo em que aumenta a sensação de saciedade”.

Mais do que isso: uma das principais conquistas do suplemento é conseguir alterar a forma como o intestino funciona, mudando também a resposta cerebral diante de alimentos altamente calóricos, que passam a ficar bem menos interessantes e desejáveis. É nessa linha que as pesquisas contra a obesidade caminham: alterando os circuitos de fome e saciedade no eixo intestino-cérebro. “O caminho para tratar a obesidade, sem dúvida, segue o mapeamento dos centros cerebrais que estão envolvidos no controle do peso”, explica o endocrinologista Maurício Hirata, da clínica Biohirata. “Hoje, sabemos por estudos de ressonância magnética que, quando ingerimos alimentos como doces, chocolate, gordura e álcool, ocorrem atividades em núcleos do cérebro que estão relacionados à sensação de prazer e recompensa.”

Na última década, os cientistas investiram pesado nas pesquisas sobre obesidade voltadas para a atividade cerebral. “O que torna esses estudos mais interessantes e complexos é que se verificou que a flora intestinal também se relaciona com o cérebro e que obesos e diabéticos têm bactérias intestinais que produzem substâncias que aumentam o apetite e até a insulina”, explica Hirata. Segundo o endocrinologista, inúmeras pesquisas têm sido realizadas para mudar a flora intestinal doente. “Há desde o uso de fibras, lactobacilos e vacinas até, mais recentemente, o transplante de bactérias intestinais”, diz.

A partir desses estudos, novos medicamentos para o controle da obesidade têm sido lançados e pesquisa-se também um melhor controle dessas áreas do cérebro, cujo funcionamento é deficiente em alguns pacientes. “O tempo em que se dizia que para perder peso é só ter vergonha na cara já acabou”, afirma Maurício Hirata. Mas calma com a animação. Ainda há um longo caminho até que o pó saia dos laboratórios das universidades inglesas e chegue ao seu liquidificador. Mas que ele vem, ele vem.