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Hedonismo healthy: a nova onda é se reconectar com a natureza

Da alimentação à moda, o hedonismo ressurge com uma pegada mais consciente

by Anna Paula Buchalla
Foto: Arquivo Harper's Bazaar

Foto: Arquivo Harper’s Bazaar

O hedonismo está no ar. Não aquele descrito no dicionário, que o define como “a doutrina segundo a qual o prazer é o único ou principal bem da existência e sua busca, a finalidade ideal da conduta”.

Em tempos de saturação de excessos, o hedonismo ressurge com uma pegada mais consciente. Ganhou até um sobrenome, hedonismo healthy, que prega um modo de vida mais frugal, de resgate das origens, que explora a exuberância da natureza e a reconexão dela com o ser humano.

Está nas roupas ecossustentáveis – feitas com materiais orgânicos, recicláveis e que estimulam pequenas comunidades. Está na beleza vegana e orgânica de produtos que não agridem pele e cabelos – muito menos o meio ambiente -, em um claro pendor para o menos é mais, no qual reinam fios naturalmente ondulados e maquiagem que revela, mas não transforma.

Está no prato saudável que respeita a ciclicidade dos alimentos, torna sustentável a relação humana com os recursos naturais, mas tem uma pitada de indulgência: exageros nem cá, nem lá é o lema do novo hedonismo.

O movimento existe e é forte – no quesito repensar a existência, ele tem feito eco sobretudo entre as mulheres. Uma das palestras mais comentadas do TED é a da portuguesa Monica Guerra da Rocha, que discorre sobre o fato de que é preciso voltar a se conectar com a natureza. “Para entender a abundância da Terra é preciso olhar a abundância do feminino”, diz ela, que se autodefine como ecofeminista.

Monica entende que, assim como a Terra, existe dentro de cada mulher um microuniverso cíclico e regenerativo, que acompanha as fases da lua, as estações do ano e até a escolha dos alimentos sazonais: “A melancia é fruta do verão, quando precisamos nos hidratar; a laranja tem a vitamina C necessária para enfrentar os meses de inverno que virão, e por aí vai.”

Tudo isso são coisas que nossos antepassados sabiam ler e interpretar, mas que acabaram se perdendo. Deixamos de observar a natureza e nosso próprio corpo. “Entendi que eu e a natureza somos feitas da mesma matéria. Sou um microcosmo do que acontece com ela”, diz Monica.

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Foto: Arquivo Harper's Bazaar

Foto: Arquivo Harper’s Bazaar

Nessa mesma linha de voltar à essência, a mineira Morena Cardoso atrai mulheres de vários países com sua DanzaMedicina, uma dança de resgate da sabedoria ancestral feminina. “É um convite para que a mulher tire as suas máscaras, encare seus medos, acolha suas sombras”, define.

O projeto é resultado de sua busca pessoal, “mundo afora, corpo adentro”, que a levou a peregrinar ao redor do mundo atrás de lugares sagrados, povos originários e saberes ancestrais, um caminho que já dura mais de uma década. “A busca por escutar os tempos orgânicos, os ciclos da natureza e os meus ciclos pessoais, ao encontro de uma nova força intuitiva e instintiva, derrubaram conceitos vigentes.”

É dessa desconstrução que a DanzaMedicina se edificou, com dois pilares: a psicoterapia corporal – como retorno ao corpo livre, à expressão criativa e autêntica – e os saberes ancestrais, relembrando o poder e os mistérios do feminino.

Morena não tem residência fixa: durante a entrevista, estava no México, no mês anterior, no Peru, e, antes disso, com indígenas yawanawá, na Amazônia.

Tem sua base em um pedaço de Mata Atlântica em Santa Catarina e busca um outro espaço para receber mulheres em Minas Gerais. Formada em Hotelaria, logo entendeu que não era seu caminho. “Fiz formações de ioga e medicina ayurvédica na Índia, estudei diferentes técnicas de psicoterapia corporal no Leste Europeu e América do Norte, tive muitas professoras, abuelas, que me ensinaram sobre xamanismo, herbologia, resgate de alma, já me formei até em partería tradicional mexicana.”

A DanzaMedicina, no formato que tem hoje, nasceu em 2016. Já são mais de 40 workshops pelo mundo e ela calcula que o programa já impactou mais de 1.200 mulheres – no universo online, possui uma comunidade com mais de 50 mil pessoas, que buscam se alinhar à natureza e se manter mais conectadas à sua própria saúde, força, vitalidade e relações pessoais. Um hedonismo healthy, enfim.