Mathilde Laurent, perfumista da Cartier, Foto: divulgaçãp
Mathilde Laurent, perfumista da Cartier, Foto: divulgaçãp

Por Matheus Evangelista

Mês passado São Paulo celebrou a chegada da nova fragrância da Cartier ao país – La Phantère, que já está disponível por aqui e é, para muitos, um dos perfumes mais elegantes, poderosos e autênticos do mercado. Quem deu vida a esse novo clássico da Maison foi Mathilde Laurent, a jovem perfumista que, antes de assumir o cargo atual, criou clássicos e best-sellers para a Guerlain. Em entrevista exclusiva, Mathilde revela suas inspirações, ideias e explica com cuidado como essa arte de criar cheiros a fascina tanto. O papo é leve, atemporal e cheio de personalidade, afinal, criar um frasco (e um conteúdo!) como esse não é para qualquer um.

Sobre a escolha dos elementos que vão compor a fragrância, no caso do La Phantère, que conta com Gardênia, Chypre, Almíscar, quais são suas referências para que se chegar até um ingrediente ou outro especificamente?

Mathilde Laurent: Não há referências reais, a regra principal é a simplicidade. Todos os ingredientes estão a serviço de um acordo central. Eles estão lá apenas para realçá-lo. Em Baiser Volé foi o lírio, em La Panthère, a gardênia . Na Cartier Parfums não criarmos o que eu chamo de “sopas de flores”.

No caso de joias, a maison olha para o que foi criado no passado para dar vida a outras peças. No mundo da perfumaria, esse “histórico” parece sempre um pouco limitado, não? A partir de um ícone, como é o caso da pantera, pode-se dizer que é mais fácil partir em busca de novas referências olfativas?

Mathilde Laurent: Na Cartier temos uma assinatura olfativa distinta, que é autêntica, mas que também presta homenagem ao passado. Les Heures Voyageuses é uma coleção que presta homenagem à história dos perfumes. Ser moderno hoje é dominar os clássicos, mas interpretá-los de uma forma contemporânea e moderna. Por exemplo, nossos perfumistas trabalham muitas vezes em notas esquecidas para mostrar que também podemos encontrar a modernidade no passado.

O frasco é lapidado, parece um diamante e tem o formato de uma pantera. Como isso foi possível? Como o frasco é escolhido e quanto tempo leva até chegar no formato final?
Mathilde Laurent: A criação de um perfume é baseada em uma história com muitos personagens, como o ator principal e os coadjuvantes; o frasco é um personagem muito importante porque na Cartier não criamos simplesmente perfumes, criamos objetos de desejo. Isso está em nosso DNA como joalheiros. Nós só selecionamos as melhores matérias-primas. Para a criação do frasco e da embalagem de La Panthère, no início da produção, tivemos de descartar 9 de 10 opções – tudo porque eles não eram perfeitos e não dialogavam com nossa história.

La Phantère - o novo perfume da Cartier! Foto:divulgação
La Phantère – o novo perfume da Cartier! Foto:divulgação

As pessoas te inspiram, lugares? Conte para gente o que vem a sua mente quando você está criando. Como é sua rotina de trabalho?
Mathilde Laurent: Inspiração está em todo lugar. Em imagens, paisagem, música. Nossos perfumistas trabalham apenas com um assistente e tudo é feito à mão dentro do laboratório no último andar Fundação Cartier, no coração de Paris. É preciso muitas tentativas para obter a fórmula certa, mas quando isso acontece é como mágica. Nesse ponto, o perfume não precisa melhorar. Em última análise , não é o perfumista que decide quando a criação está pronta, mas o próprio perfume.

Você considera um perfume como esse – quase único e com ingredientes tão exclusivos – uma obra de arte?
Mathilde Laurent: A Cartier Parfums eleva perfumes à obras de arte. Nós dominamos nossos perfumes e sabemos que só usamos as melhores matérias-primas; por isso podemos decidir o que fazer ou não. Quando o perfumista está compondo ele começa do zero e cada criação é totalmente nova , completamente original, como uma obra de arte.

Depois que um trabalho termina, por exemplo, com a concepção do La Panthère, qual é o próximo movimento/passo de seu trabalho na Cartier? Afinal, um perfume não é criado como uma coleção de joias ou roupas que necessita de um novo produto a cada seis meses…
Mathilde Laurent: O perfumista é um artista e ele tem sempre em mente a próxima criação, a próxima aventura. O trabalho nunca está terminado, é sempre novo e, acima de tudo, inesperado.

Como você encara essa mistura no mundo da perfumaria? Vocês usam ingredientes puramente naturais ou criar um perfume com elementos artificiais também é uma possibilidade? 
Mathilde Laurent: Gosto de elogiar a utilização de moléculas sintéticas; moléculas sintéticas são ainda mais generosa do que a natureza . A química permite que perfumistas abram as portas de um novo mundo de possibilidades olfativas. A beleza não é limitada por natureza, o perfumista é agora capaz de criar todos os cheiros de vida.

Quais são os seus ingredientes favoritos?
Mathilde Laurent: Não tenho nenhum ingrediente favorito, mas gosto de ingredientes que são visíveis, como o joalheiro irá ampliar a pedra central com a configuração invisível.

O que me diz sobre a onda de poder criar um perfume único, só para você e de acordo com os seus gostos? Acha que essa pratica pode chegar a crescer e dominar o mercado das grades perfumarias como a customização de bolsas, sapatos e até joias e relógios?
Mathilde Laurent: Na Cartier, nós evitamos tendências e fazemos o nosso caminho fora do caminho mais comum. Tal como os irmãos Cartier, precisamos encarar o mesmo espírito pioneiro e de liberdade. Nossa missão é propor um perfume que pode ser identificado como Cartier, uma criação que eleva a marca ao mais alto nível de prestígio.