Yuri Lumin e Bárbara Espíndola – Foto: Juliabe Balbino/Divulgação

Mentalize duas potências afro-brasileiras, com raízes nas comunidades do Recife e sangue artístico pulsando nas veias. Adicione uma pitada de sons modernos, porção de consciências racial e de classe, e uma salpicada de cores e simbologias. Então, começamos a entender o duo de afropop chamado Barbarize, formado pelo casal Yuri Lumin e Bárbara Espíndola, de 24 e 25 anos.

A vontade de ganhar os palcos veio da experiência individual que se transformou em uma massa artística potente e com grande voz. Ela: teatro, atuação e raízes maternas no canto; ele: dança e composição. Juntos? Muita experimentação e novos caminhos. “Começamos a fazer música em um computador bem velho. Guerreiro, dinossauro e que está aguentando até hoje. Em 2020, de fato, a gente começou a fazer música”, diz Babi em papo via videochamada com Bazaar.

O trabalho musical, feito de forma colaborativa com produtores e amigos do coletivo cultural Pão e Tinta, da comunidade pernambucana, culminou na maior obra da dupla até aqui: o álbum visual “SobreVivências Periféricas”, lançado em 2021 no canal oficial da dupla no YouTube (acima), e disponível em outras plataformas.

Bebendo diretamente de referências gringas e nacionais, de Beyoncé e Stromae a Rincon Sapiência, Barbarize entrega uma representação prática das teorias afrofuturistas em uma cena musical que mescla batidas da bossa nova, funk, trap e rap. Essa mistura toda é a sua própria versão do gênero musical. “Afropop do ‘brabo’. Mistura de pop com beats africanos. Pega o afro e mistura com tudo”, orgulha-se Yuri do trabalho que vai aos poucos acumulando milhares de visualizações.

Origem e a regionalidade fazem parte de seus ingredientes. Mas é tão redundante quanto dizer que a água do mar inunda as palafitas construídas em cima dos manguezais nos meses de muita chuva, na comunidade do Bode, em Pina, bairro onde moram na capital pernambucana. O encontro de Yuri e Babi é basicamente uma pororoca emocional, tamanha potência artística que os acompanha na estrada desde 2018.

A união veio de um amor revolucionário, construído nos corredores da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), em meados de 2016, com a mobilização estudantil nacional que ocupou escolas e universidades Brasil afora. “Desde então, a gente nunca mais se desgrudou. Tentamos juntar nossas artes e tirar algo massa”, conta a dupla.

Quando se pensa nesta mistura musical, pode-se logo cogitar que se trata de uma estratégia para angariar fãs dos múltiplos ritmos de música. Mas, assim como a questão racial vem presente e firme em todas as letras do trabalho, é algo intrínseco às suas realidades. “Não tem como dissociar a questão racial de dois artistas pretos marginalizados. Quem a gente é, quem representa, sempre vai acabar refletindo na nossa arte”, diz Babi, sendo completada por Yuri. “Arte como arma de batalha. Um lugar onde temos que enfatizar coisas que precisam ser ditas”, finaliza.

É curioso saber que o álbum visual é apenas um dos frutos gestados pela dupla neste tempo: Babi e Yuri esperam Naomi, a primogênita, que está prevista para chegar ao mundo a qualquer instante.

Se nas terras em que Barbarize finca seus pés falta oxigênio, fazendo com que as raízes necessitem vir para fora d’água, no trabalho musical da dupla oxigenam ideias novas, frescas e necessárias, trazendo para a cena musical brasileira, uma dupla que precisa ser ouvida não só pelo talento, mas pelo discurso que brada por igualdade e respeito. Barbarize-se sem moderação!