Charlotte Rampling em Eu, Anna - Foto: divulgação
Charlotte Rampling em Eu, Anna – Foto: divulgação

 

Por Luísa Graça

Aos 67 anos, Charlotte Rampling, atriz de olhar enigmático e voz profunda conhecida pelos papéis nos clássicos O Porteiro da Noite e Memórias, volta às telas com Eu, Anna, thriller que estreia nos cinemas nesta sexta-feira (13.09). No longa de Barnaby Southcombe, a bela resgata a mulher misteriosa de outrora, mas desta vez com roupagem frágil.

Após viver um período em Los Angeles onde gravou a última temporada da série Dexter, Charlotte está de volta à Europa, vivendo entre Londres e Paris, e nos garante: ”hoje me permito ser feliz”. São 40 anos de carreira no cinema, mas a atriz, musa de Alexa Chung, ainda é associada à moda pelas parcerias com Helmut Newton, Juergen Teller e Marc Jacobs.

“Não considero moda uma bobagem. Ela nos ajuda a entender como percebemos a nós mesmos. A moda nos diz respeito”. Em entrevista à Bazaar, ela fala com exclusividade sobre mudanças, o que a faz sentir vulnerável e envelhecimento sem cirurgia plástica.

Harper’s Bazaar: Seu filho dirigiu Eu, Anna. Houve algo diferente em tê-lo como diretor?
Charlotte Rampling: Na verdade, não. Como atriz eu tenho que lidar com mudanças e adaptações. Foi natural pra mim colocar a mãe de lado para me tornar a atriz do meu diretor, que no caso era meu filho.

HB: A Anna é uma mulher atraente, mas vulnerável. O que te atraiu para este papel?
CR: O filme conta a história de uma mulher no limite, que perdeu totalmente o sentido do mundo em que vive. Alguém que se recuou e se apega aos restos de uma vida normal. Explorar diferentes formas de ser é algo fascinante para mim. Anna tem muita profundidade e complexidade.

HB: Esse parece um caminho que você gosta de trilhar. Interpretar personagens complexas, por vezes sombrias, é de alguma forma um jeito de lidar com suas próprias questões?
CR: Creio que sim. Eu busco papeis que me desafiam e que me ajudam a explorar minha paisagem interior. É minha forma de experimentação.

HB: Como você lida com exposição e sua imagem pública?
CR: Eu não gosto de me expor. É algo que me assusta, que me faz sentir vulnerável e me deixa na defensiva. Eu cuido para evitar toda forma de exposição desnecessária e só apareço de vez em quando, quando sinto que é importante. Agora, minha imagem pública pertence ao público – que decide o que quer fazer de mim.

HB: Quão diferente você se sente hoje da Charlotte de Georgy, A Feiticeira ou até mesmo de Memórias, de Woody Allen?
CR: Acho que nós não mudamos, apenas envelhecemos e às vezes nos tornamos mais sábios. Eu sou apenas uma versão mais velha do que eu era naquela época. Acho que atuar é uma boa receita para juventude, já que passamos nosso tempo fazendo encenações como crianças.

HB: E no seu jeito de se vestir? O que mudou de lá pra cá?
CR: Quando eu era jovem eu vestia tudo, de todas as maneiras. Sempre achei importante descobrir como determinadas roupas me faziam sentir. Hoje me visto de maneira mais simples, quase como um uniforme. Branco e preto, mais regularmente. Camisas brancas, calças pretas e uma variedade de jaquetas de amigos que são designers. Ah, e um smoking estilo masculino para ocasiões mais formais. Mas nada de vestidos. É muito ladylike. Gosto de androginia. Um pouco homem, um pouco mulher. É algo que me cai bem.

HB: Muitas mulheres personagens Bazaar falam de você quando pergunto a elas sobre mulheres que admiram. Quais mulheres você admira? E como você reage ao fato de ser, de alguma maneira, uma musa para tantas outras mulheres?
CR:
Eu admiro mulheres que não desistiram, que, apesar das dificuldades e mudanças que todas passamos, são capazes de ser livres, generosas e gentis. Mulheres que falam delicadamente, que escutam e que sabem a importância do silêncio. Se influencio mulheres de alguma maneira, é meramente porque sou transparente e talvez elas apreciem esse tipo de sinceridade. ‘Sê fiel a ti mesmo’ é o melhor ditado. Não é uma tarefa fácil, mas, então, o que é? Não há nada que funcione tão bem quanto a verdade.

HB: Não ceder a cirurgia plástica é uma forma de se manter verdadeira?
CR:
A cirurgia plástica é o caminho fácil e eu prefiro trilhar um caminho menos comum e ver minha transformação em tempo real. Também vejo o Photoshop como uma afronta. Quando a beleza da juventude passa, ela pode ser substituída pela beleza da experiência e da expressão. Precisamos aceitar e respeitar as versões mais velhas de nós mesmas.