Cenas de “Reframed: Marilyn Monroe”, da CNN

Por Danniel Rangel, de Hollywood

Na última entrevista que deu, em julho de 1962, à Life Magazine, sentada no chão de sua nova casa, uma hacienda em Brentwood, Marilyn Monroe suspirou: “a fama passa, foi algo que eu experimentei, mas não é o lugar onde vivo ou dependo. É como comer caviar todo o dia, ‘sometimes it’s too much caviar’”, disse a estrela platinada, vestindo calça capri e uma confortável blusa em jersey Emilio Pucci. A declaração foi capa da revista que saiu em 3 de agosto daquele ano, um tapa na cara da indústria que foi tão cruel para Norma Jeane Baker (seu nome de batismo), em uma época em que os movimentos feministas engatinhavam e muito longe do #metoo. Um dia depois, Marilyn foi encontrada no mesmo lugar, morta. O motivo? Uma overdose de Nembutal (indutor do sono), usado por muitas estrelas da época.

Por Falar em #metoo, vale a pena ressaltar a coragem da estrela, que após filmar “Os Homens Preferem as Loiras”, denunciou o casting couch system (teste do sofá, em português), em uma entrevista à grande Florabel Muir, com o título “Os Lobos que conheci em Hollywood”, um ato que poderia acabar com uma estrela como ela, mas não foi o caso. Marilyn sempre jogou com a sorte e sempre disse a verdade. Por isso, seu legado permanece vivo até hoje. “Sem ela, não vamos muito longe”, comentou à época.

Cenas de “Reframed: Marilyn Monroe”, da CNN

Naquele ano de 1962, muito havia acontecido na vida de Marilyn: depois de anos de psicanálise, a grande defensora de Freud e Jung havia comprado sua primeira casa em Los Angeles. Estava participando do filme “Something’s Got to Give”, tinha um jardim para plantar, projetos para a Broadway com Jule Styne e ainda arrumou tempo para casos tórridos com “homens poderosos do governo”, como contou Ralph Greenson, seu psiquiatra. Em maio do ano de sua morte, causou furor ao entrar no Madison Square Garden com o famoso vestido de Jean Louis, que, segundo ele, somente Marilyn poderia usar, pois era feito de um tecido francês transparente, coberto de milhões de cristais, para cantar “Parabéns a Você” ao então presidente John F. Kennedy, um momento histórico, orquestrado semanas antes pela estrela. Quem pensa que ela estava em decadência, se engana. Dois dias antes de morrer, assinou um contrato com a FOX para mais dois filmes, no valor de um milhão, cifra altíssima para a época.

Nascida em 1 de junho de 1926, a geminiana não teve uma infância fácil, como contam as mais de 600 biografias sobre ela. Morou em lares adotivos, foi abusada, viveu em um orfanato e, finalmente, casou-se aos 16 anos com o marinheiro e amigo da família James Dougherty, para não ter que voltar ao abrigo. A beleza da menina foi descoberta em uma fábrica de pára-quedas, onde ela trabalhava, pelo fotógrafo David Conover, e o resto é história. Estampou milhões de capas de revista, se divorciou e atraiu a atenção dos estúdios FOX, que a contrataram. Depois do seu primeiro screen test, o inevitável aconteceu: a câmera de cinema se apaixonou pela jovem, e como o diretor do filme “Nunca Fui Santa”, Joshua Logan, contou: “Marilyn é uma atriz fantástica e única. Dramática e cômica como Charles Chaplin, com a beleza etérea de Greta Garbo. Após terminarmos o filme, me belisquei e disse: foi a artista mais completa com quem já trabalhei.”

Pioneira, depois de rejeitar mais um papel da loira estereotipada, devolveu o script ao poderoso chefão Darryl Zanuck, no qual escreveu em letras garrafais: TRASH (lixo, em inglês). Partiu para Nova York para estudar drama com Lee Strasberg no Actors Studio, provando para todos e a si mesma que seu talento era genuíno, natural e só estava sendo lapidado ao lado do master do The Method. Montou sua própria produtora de cinema, com a qual fez filmes com atores como Laurence Oliver, casou com o maior dramaturgo da América, Arthur Miller, lutou contra o racismo da época, ajudando cantoras, como Ella Fitzgerald, a ter seu primeiro break no night club Mocambo, entre muitas outras coisas que moldaram a mulher contemporânea. Por isso, ela ainda continua tão atual. Leitora voraz, tinha uma biblioteca de mais de 400 livros, era uma atriz em busca de improvisação e cultura. Em um de seus últimos filmes, “Os Desajustados”, escrito pelo marido, sua personagem mostra todas as nuances do ser humano, desde a fragilidade até a ira. O fotógrafo Henri Cartier-Bresson, quando a encontrou nos sets de filmagens em “Reno” (1959), no calor de 45 graus, comentou: “uma beleza etérea, de uma luminosidade impressionante”.

Clique da mostra Marilyn, A California Classic, em exposição no ano de 2001

Eis o porquê da sua grande popularidade: quando o passado morre existe o luto, mas quando o futuro morre, nossa imaginação segue em frente com ele. Não à toa, livros, exposições, filmes, como “Blonde”, da Netflix, com Ana de Armas no papel principal, previsto para este 2022, e documentários surgiram. Da CNN, “Reframed: Marilyn Monroe” conta o lado inteligente da mulher moderna, que, se fosse viva, seria uma das principais influencers de todos os tempos. Outro, na Netflix, “O Mistério de Marilyn Monroe: Gravações Inéditas”, explora e tenta desvendar os bastidores de sua morte. Após a polêmica de Kim Kardashian usando o famoso vestido feito para a celebração do aniversário de Kennedy, Marilyn mostrou mais uma vez seu poder, desta vez, no leilão da Christie’s. Seu portrait, de 1962, feito por Andy Warhol, tornou-se a peça mais cara do século XX, ultrapassando masters como Picasso.

Sentado aqui em Beverly Hills, no restaurante predileto de Marilyn, La Scala, onde era vista frequentemente com Bobby Kennedy, no Verão de 1962, pensei: o que a Ambição Loira estaria sentindo em um mundo onde likes e corações valem mais do que talento e conhecimento? Após alguns goles de champagne, a única frase que me veio à cabeça, foi: “Não estou interessada em dinheiro, eu só quero ser maravilhosa”. E, mais do que isso, permanecer na fantasia do homem comum (assim, frisou em sua última entrevista como gostaria de ser lembrada). Esse mesmo homem-comum a transformou em uma Deusa.