Por Gisela Domschke
São quase 8 da noite, faltam 3 minutos. É domingo, minha vontade é que esses 3 minutos fossem 3 horas, 3 dias… estou revendo “Jeanne Dielman” de Chantal Akerman, o filme que acaba de tirar Hitchcock do topo da lista de Sight and Sound. Esta é a primeira vez que uma mulher ocupa o primeiro lugar desde o início da pesquisa em 1952, quando a revista do British Film Institute resolveu convidar críticos para nomear os melhores filmes de todos os tempos. Desde então, a enquete acontece a cada década. Por mais ousada que seja a ideia de tal lista, seu prestígio só aumentou ao longo dos anos… “Cidadão Kane” de Orson Welles ocupou o primeiro lugar por 50 anos, só tendo sido destronado em 2012 com “Um Corpo que Cai” de Alfred Hitchcock.
Nos anos 70, Chantal Akerman morava em Nova York, a cidade de Jonas Mekas e o cinema experimental, de John Cage e o silêncio, de Trisha Brown e a improvisação. Tinha 25 anos quando, em 1975, fez o filme “Jeanne Dielman, 23 quai du Commerce, 1080 Bruxelles”. Tudo está precisamente em seu lugar na geometria desse apartamento, onde vive uma viúva de quarenta e poucos anos, mãe solo de um adolescente. Três dias na vida dessa mulher – essa era a ideia. Sua rotina metódica, descascando batatas, penteando os cabelos, recebendo clientes para encontros sexuais vespertinos, arrumando a cama, se banhando, colocando a mesa, tomando sopa com o filho – cada gesto do dia é ritualizado. “Fiz esse filme para dar uma existência cinematográfica a esses gestos”, conta Chantal em uma entrevista gravada para a Criterion Collection, em 2009.
Com a atriz Delphine Seyrig no papel principal e com uma equipe formada praticamente por mulheres – uma proeza para os anos 70 – a jovem diretora fez um filme cinematograficamente radical. Fotografado com precisão por Babette Mangolte, a câmera é fixa, longos planos, valorizando a composição do quadro, os objetos, os gestos, os tons pastel, verde claro e azul-celeste. O filme não tem uma trilha musical, o que o traz muito próximo à vida, com diálogos esparsos, portas fechando, panelas batendo, os saltos de Jeanne ritmando o silêncio da cena, até que essa cerimônia cotidiana sucumbe a uma angústia crescente. Um botão é negligenciado ao fechar o robe. O cinema pode ser música em seu ritmo de escolhas. Algumas você faz, outras não. “Eu entendi a importância do filme muitos meses depois de finalizá-lo. A princípio pensei estar contando apenas três dias da vida de uma mulher, depois percebi que era um filme sobre a ocupação do tempo, sobre a angústia: fazer as coisas para não pensar no problema fundamental, o de ser ”, continua a cineasta, que nos deixou em 2015.
Uma perspectiva feminina em sua concretude. Uma obra-prima que vem, desde então, provocando análises e debates ao longo das décadas. Chantal Akerman, com seu modo de ser, fez isso possível. Mais de três horas de uma experiência que ressoa ainda hoje em nossos corpos. Mesmo com o delay, um regozijo que tenha sido nomeada pela Sight and Sound como a melhor de todos os tempos.
Ficha técnica
Jeanne Dielman, 23, quai du Commerce, 1080 Bruxelas
Bélgica, 1975 / 35mm / Cor / 200 min
Direção: Chantal Akerman
Elenco: Delphine Seyrig, Jan Decorte, Henri Storck
Produção: Evelyne Paul, Marilyn Watelet
Edição: Patrícia Canino
Fotografia: Babette Mangolte
Onde ver: www.filmicca.com.br





