Por Marina Monzillo 

Foto: Michelle Rue
Foto: Michelle Rue

MULHER DE JOGADOR DE FUTEBOL raramente é vista além desse papel, relegado ao backstage, principalmente na América Latina, tão patriarcal. Por isso, o brilho de Sol Alac, suas expressões artísticas e seu casamento baseado na igualdade e na cumplicidade com Juan Pablo Sorín, ex-craque da seleção argentina e do mineiro Cruzeiro, são dignos do girl power.

Menina das artes, com sobrenome croata e que sente orgulho de ser sudaca – termo pejorativo usado na Europa para os sul-americanos –, Sol construiu sua trajetória desde a adolescência, em Buenos Aires, quando começou a fazer teatro e viajar longas temporadas como modelo. O casamento veio cedo,

e a vida nômade, para acompanhar a carreira esportiva de Sorín, em vez de jogar sombra em sua alma, alimentou-a: “Moramos em muitos países, o que mudou muito o nosso jeito de viver, pensar, absorver tudo. Como não tivemos filhos logo, fiz vários cursos, tudo que pode imaginar: pintura, música, canto. Eu aproveitava”, conta ela, que estabeleceu residência em Paris, Roma e Barcelona, entre várias outras cidades.

“A música começou a tomar muita força na minha vida quando comecei a viajar. Era o veículo mais fácil e rápido para uma artista solo, porque, no teatro e na televisão, você precisa de mais tempo no país para entrar nesse mundo, conhecer pessoas”, acredita ela, que vive há oito anos no Brasil, primeiro em Belo Horizonte, onde nasceu a filha, Elisabetta, e atualmente em São Paulo.

Hoje, as composições, ensaios, shows e produções de disco e vídeos são seu universo. Este ano, ela gravou o primeiro álbum completo, Sol, com composições autorais – o trabalho deve estar totalmente disponibilizado em janeiro –, e também lançou o videoclipe do single Pibón.“O álbum tem canções do coração, algumas batidas mais dançáveis, outras de rock ou com ambience mais complexa. É eclético, como eu”, explica.

Foto: Michelle Rue
Foto: Michelle Rue

Das raízes argentinas vem a influência de bandas de rock, como Pescado Rabioso e Soda Stereo, e de Charly Garcia. Das experiências pelo mundo vem o gosto pelo estilo pós-industrial.“Sempre me vi como urbana, amo a poesia da urbe. Ao mesmo tempo, sou bicho da natureza. Em tudo que fiz estão meus anos de descobrimento das cidades, das culturas, das línguas, dos cantinhos, perfumes e comidas de cada lugar.Talvez não sejam referências imediatas,mas fui permeada.”

A necessidade de expressão de Sol, porém, extrapola a barreira do som. Ela é sócia do marido em uma produtora de vídeo que criou um programa para o Facebook chamado Se Joga em Casa, além de coproduções com o canal ESPN. A mais recente empreitada é a grife Eyddos.“Quando fazia meus shows, sentia que tinha muita roupa, desculpe a expressão, boring para o palco.”Passou,então,a criar as peças que gosta de usar.

“A base forte da marca são os macacões, os jumpsuits. Eles dão uma liberdade gigante e têm um conceito social que, para mim, é muito importante: você pode ser mais um na rua, mais um trabalhador, e ainda assim ter seu próprio jeito de viver o dia a dia, sua moda, sua comunicação, ser quem você é.” Isso acontece porque cada peça é diferente, pintada e customizada à mão por Sol ou algum artista.Além disso, a marca tem camisetas, calças e roupas esportivas vintage. “Porque outra coisa que eu acredito muito é que o mundo está saturado de roupas, de tecidos, de tintura”, opina Sol, que explica que os macacões curtos e longos, os únicos produzidos do zero, são para quem quiser usar: homens, mulheres, transexuais. “Com o corpo que quiser, com a pele que quiser. Quero que as pessoas estejam lindas.”