por Julia Flamingo

Obra "A cada doze dias e uma carta" - foto: divulgação
Obra “A cada doze dias e uma carta” – foto: divulgação

“ARTISTAS FORMAM uma espécie de exército composto por sensitivos da visão. O Tunga era especialista em enxergar – mas tinha o dom ainda maior de buscar o que está para além de tudo o que se pode ver.” A frase, do diretor de produção Fernando Sant’Anna, braço direito e esquerdo de Tunga, em entrevista à Bazaar, resume bem uma das marcas do artista, morto em junho de 2016. Entre tranças, cabelos, cristais, dedos, ossos e taças, ele construiu um universo repleto de ressignificâncias, no qual nem tudo é o que parece.

É esse mundo misterioso e sedutor que é agora apresentado em Tunga: O Corpo em Obras, primeira individual do artista no Masp. Com cerca de noventa peças produzidas entre o início de sua carreira, na década de 1970, até o ano passado, os trabalhos, muitos vindos de acervos de instituições ou coleções particulares, têm o corpo como temática principal. Seja pela forma, conceito, instalações, desenhos ou objetos, a exposição aborda a maneira com que o corpo e suas mutações formavam a poética do artista.

Obra em exposição no MASP - foto: divulgação
Obra em exposição no MASP – foto: divulgação

“Um dedo pode ser apenas um membro. Mas ele também pode ser o ponto de toque entre o artista e seu desenho, ou fazer as vezes de um falo”, explica Isabella Rjeille, que assina a curadoria da mostra ao lado de Tomás Toledo, sobre uma das peças da série Morfológicas. Aliás, representações fálicas não são incomuns nos seus trabalhos. Não por acaso, a mostra integra – e encerra com chave de ouro – a programação dedicada à sexualidade, apresentada durante todo o ano na instituição. “Queremos mostrar que, para Tunga, o erotismo não está no sexo ou em imagens pornográficas”, diz a curadora.

Tunga pesquisava o desejo em temáticas mundanas, como a religião, a morte, a relação entre mãe e filho ou até mesmo nas primeiras descobertas de um bebê. Durante o processo de criação das peças, ele trazia ainda abordagens de uma enciclopédia infinita: física, química, literatura, alquimia e psicanálise são apenas alguns dos vocabulários presentes em seu repertório.

Bronze, ímã, latão, madeira, papel, borracha e até maquiagem (sim, maquiagem!) são materiais que se encontram na mostra, em obras como Tacape. Nome genérico dado por tribos indígenas a bastões usados como armas, o objeto tem forma de uma escultura alongada, que, dentro de si, guarda tranças de ferro.

Obra em exposição no MASP - foto: divulgação
Obra em exposição no MASP – foto: divulgação

As próprias Tranças também estão por lá, inspiradas numa espécie de cobra em que macho e fêmea se enrolam. A exposição também destaca obras como os Eixos Exógenos, totens cujas extremidades delineiam silhuetas de mulheres. Entre simbologias masculinas e femininas, Tunga trabalhava o binário na linha tênue entre o que se vê e a imaginação.

Tantos eram os nomes e sobrenomes de Antônio José de Barros Carvalho e Mello Mourão, que ele escolheu usar apenas Tunga. O artista também preferia não se vincular às suas raízes e dizia que, no ano de 1952, havia nascido no Rio de Janeiro e Pernambuco, ao mesmo tempo. No Laboratório Agnut (Tunga ao contrário), um galpão de 700 metros quadrados na Barra da Tijuca, no Rio, o artista dava espaço a suas experimentações psicoativas e de alquimia. “Tudo fazia parte da obra, ele nunca jogava nada fora”, diz Fernando Sant’Anna.

Obra em exposição no MASP - foto: divulgação
Obra em exposição no MASP – foto: divulgação

De pouco a pouco, o gigantesco legado de Tunga vem sendo organizado e catalogado, infindável trabalho cheio de boas surpresas. “Estamos transformando o ateliê num acervo: agora precisamos prezar pela sua memória”, conta Clara Gerchman, uma das responsáveis pelo projeto. Em cenas dos próximos capítulos, está prevista uma publicação sobre o artista, assinada pela curadora britânica Catherine Lampert e sob os cuidados de Charles Cosac, além de outra grande individual, que deve acontecer em junho, no Museu de Arte do Rio.

Até 11 de março de 2018 :: masp.org.br