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Por Carolina Andraus

Uma das partes mais significativas da minha vida sempre foi viajar. Com uma alma nômade, viver para viajar sempre foi a minha escolha. Quando falamos em viajar em tempos de pandemia, estamos constantemente medindo os riscos de contaminação em algum lugar longe de casa, quarentena com regras mudando o tempo todo, além de ter que manejar uma situação sem precedentes de fronteiras fechadas, protocolos de segurança, restrições, testes de IgG, e o desconforto de voar com máscaras.

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Na virada do século tivemos uma grande transformação na forma como viajávamos. Depois dos atentados de 11 de setembro o mundo nunca mais foi o mesmo. Filas intermináveis de segurança, escrutinações nas bagagens, falta total de privacidade quando viajamos, sujeitos a ter nossas malas abertas e revisadas muitas vezes por mãos lotadas de bactérias e vírus, com luvas que servem para proteger a equipe de segurança dos aeroportos, mas não para garantir a limpeza das mesmas luvas quando apalpam nossas coisas e reviram nossos pertences pessoais sem nenhum tipo de critério. Tudo em nome da segurança, nos diziam.

Hoje, quando pensamos em segurança, não podemos deixar de pensar em álcool em gel, máscaras e muitos outros protocolos que tivemos que incorporar nas nossas vidas, e que certamente transformaram mais ainda a experiência de viajar.

Em 2020 viajar ficou ainda mais radical. Testes de IgG obrigatórios, traduções de exames que não saem no tempo esperado, colocando em check programações, schedules de viagens e reservas. Viajar pelo mundo se transformou em um projeto, com toda uma preparação nova, e cheio de riscos a serem ponderados.

Por outro lado, nunca nos sentimos tão privilegiados de viver nos trópicos. O lockdown com o clima brasileiro, meses de céu azul e uma luz lindíssima nos acompanhou por todo o outono e inverno, nos presenteando com doses extras de vitamina D nas caminhadas ao ar livre, e fortalecendo não apenas nosso sistema imunológico, mas também nosso emocional.

Nunca tivemos tanta vontade de estar na natureza, na exuberância das montanhas com florestas tropicais e cachoeiras, nas matas, nas praias desertas, nos campos verdes, sempre ensolarados e recebendo uma energia e uma ajuda com as nossas saúdes com o viés de um clima amoroso, que nos convida a nos movimentar e nos alimenta a alma.

E viajar pelo Brasil passou a ter um novo significado. Viagens de carro, para pequenos paraísos escondidos, explorando o entorno das nossas vidas antes quase caóticas, agora com um novo olhar e uma nova velocidade.

O mundo entendeu o valor de sair das cidades. Olhando casos extremos como o de Nova York, onde só ficaram na cidade as pessoas que realmente não tinham outra opção, vemos um forte movimento na busca de melhor qualidade de vida. Morar bem nunca foi tão importante. E com a clara diminuição da velocidade do mundo, onde hoje também gastamos muito menos tempo e energia nos transportando tanto a trabalho como por lazer, descobrimos que a vida pode usar da tecnologia para nos dar mais tempo.

Enquanto éramos engolidos pela necessidade de estar em movimento, passávamos muitas horas do nosso ano em trânsito. Quando passávamos duas horas por dia no trânsito, situação bem normal para qualquer pessoa ocupada e com uma vida ativa, gastávamos 22 dias do nosso ano apenas para nos locomover com nossos assuntos triviais. Estamos economizando uma grande parte desses 22 dias do nosso ano sentados em carros, mandando emails e mensagens em um ritmo frenético, multitasking sem profundidade nenhuma, ou simplesmente nos estressando.

Perdemos em viagens, mas ganhamos em qualidade de vida. Ganhamos ao dar credibilidade e profundidade aos encontros virtuais, reuniões, julgamentos, sessões de terapia, consultas médicas, e até mesmo comemorações, muitas coisas passaram a ser feitas sem precisarmos de toda essa locomoção.

Semana passada, uma amiga indiana, colega de Harvard, comemorou seus 50 anos em Mumbai, e amigos do mundo inteiro receberam uma caixa com as bebidas para prepararmos e todos tomarmos juntos em comemoração. Éramos pessoas de todos os continentes, Europa, Ásia, América do Sul e do Norte, Oriente Médio, África e até Oceania. Assistimos a um incrível show, rimos, nos emocionamos, brindamos à vida, comemoramos.

Em outros tempos teríamos todos voado para Mumbai, provavelmente para uma semana de festas. Não viajamos, estamos em pandemia, mas mesmo assim pudemos comemorar a vida, nos rever virtualmente. E pudemos perceber que, com menos viagens nos tornamos pessoas que individualmente têm um índice de emissão de carbono menor. Nos tornamos forçadamente mais sustentáveis na forma em que vivemos, e o planeta agradece.

Foto: Pixabay

Não posso dizer ainda que estamos mais felizes vivendo mais aterrados, principalmente porque o mundo está passando não só por uma pandemia, como também por enormes desafios socioeconômicos, com mais pessoas sofrendo os efeitos em seus negócios e trabalhos, ou falta deles, do que internados nos hospitais.

Certamente estamos mais centrados, e a diminuição de velocidade nos trouxe aumento na profundidade. Passamos a valorizar prazeres mais simples, cozinhar, ler, sentar-se ao sol e sentir uma brisa suave, escutar o canto dos pássaros, caminhar em liberdade, meditar e encontrar o preenchimento na calma, ou simplesmente estar em casa.

Viajar sempre será viajar, uma das maiores riquezas da vida é poder se expor a outras culturas, aprender outros sabores, conhecer outras línguas, abrir a cabeça e deixar-se inundar pelos deslumbres do nosso planeta.

Enquanto nossos nômades interiores estão com pouca mobilidade, meu convite a você é olhar a sua volta, descobrir as belezas que estão as vezes tão perto que não damos valor, e nessa viagem fazer diariamente uma escala feliz dentro de nós mesmos, com a gratidão por estarmos vivos, e por sermos tão abençoados de estarmos aterrados na terra-brasilis, cercados de sol e natureza exuberante.

Sejamos almas nômades ecossustentáveis, e aproveitemos esse tempo não apenas para fazer das nossas casas nossos templos de paz, mas também para usar nosso olhar global para impactar de alguma forma nossa realidade regional. Viagens de wellness ou de busca de um maior contato com a natureza, um olhar para projetos de recuperação ambiental durante essas viagens, apoio a comunidades carentes pelo País a fora, no interior e no nosso maravilhoso litoral, explorando respeitosamente as nossas florestas e rios, com um olhar de apreço, preservação e cuidados.

E assim continuaremos a viajar em distancias geográficas muito menores, porém com uma profundidade nova, sendo transformados para melhor em um tempo que repensar valores e propósitos é a viagem mais importante de todas.