As agora mulheres se culpam por não dar devida atenção a sis mesmas - Foto: Reprodução
As agora mulheres se culpam por não dar devida atenção a sis mesmas – Foto: Reprodução

 

Por Bell Kranz

Ou se calça a luva e não se põe o anel / Ou se põe o anel e não se calça a luva!” São sábios, além de pedagógicos, esses versos de Ou Isto ou Aquilo, o clássico poema infantil de Cecília Meireles, que poderia traduzir a alma feminina (adulta) dos tempos modernos. Algo como: “Ou você aproveita as férias para colocar peito e botox ou realiza o tour dos seus sonhos numa viagem de bike pela Toscana. Ou você se joga no festão e perde o pilates na manhã seguinte ou vai para a cama cedo e faz uma aula restauradora”. Parece tão óbvio. Aquela antiga culpa da mãe/profissional, ainda resiste. O assunto aqui, porém, é uma nova identidade da culpa, aquela causada pela ditadura da qualidade de vida.

Virou obrigação cuidar da saúde da mente, do corpo e, por vezes, da alma. Tem de ser uma profissional respeitada, reconhecida, mas, por favor, magra, de preferência com corpão. “Tenho escutado muitas queixas desse tipo, de mulheres sempre em dívida consigo mesmas. Elas sentem culpa também em relação a todas as escolhas que não fizeram”, diz a psicanalista Diana Corso. É como se estivéssemos fantasiando que sempre haverá outras vidas, que sempre será possível escolher tudo e chegar lá, mega equilibradas.

Insatisfação é o que mais aparece no discurso das mulheres, mais do que a culpa. Uma insatisfação enorme por não ser o que a sociedade quer que elas sejam, diz a antropóloga e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro Mirian Goldenberg, que há 25 anos pesquisa o comportamento de homens e mulheres. “Descobri que a brasileira é uma mulher da soma, do ‘e’, enquanto, na Alemanha, por exemplo, impera o que chamo de cultura do ‘ou’”, diz a antropóloga. Lá, quando a mulher decide investir no estudo, ela abdica de outras coisas e faz isso com tranquilidade. Se resolve parar de trabalhar para se dedicar ao filho, a decisão é legítima, supondo-se que o marido vai apoiar e que ela retornará ao mercado de trabalho. Há uma hierarquia de prioridades”, conta.

“Já a brasileira não abre mão de ser esposa, mãe de um ou dois filhos ao menos, ser profissional, gastar com maquiagem, cabelo… São muitas as demandas sociais e, “ao assumirem que podem conciliar todos os papeis, o que é uma ilusão, ficam péssimas”, afirma Mirian.

“Culpa está mais ligada a problemas imaginários do que reais. Quando você tem uma dívida real, não tem culpa, vai lá e resolve.” É no que acredita a fotógrafa Mabel Feres, de 42 anos, casada e mãe de dois filhos. Sua declaração segue a teoria de que a culpa sempre está ligada a um ideal – de equilíbrio ou de maternidade, por exemplo, como diz Diana Corso.

Compreender a marca da nossa cultura e as pressões que ela impõe ajuda a viver com menos insatisfação. A sociedade quer que você seja magrinha e durinha, a questão é se perguntar: “E eu, o que eu quero?”.

Assine a Harper’s Bazaar