Ilustração: Antônio Isupério

Por Antônio Isupério

Que bom que você voltou, eu gosto muito de gente, mas tipo, meeesmo. De uma forma que poucas pessoas entendem. Para se ter um ideia, faz tempo que sou vegano, mas sangra meus ouvidos escutar de alguns que preferem animais a pessoas. É tipo a confusão que faz a minha cabeça quando vejo pessoas serem reativas a direitos humanos, sempre fico pensando…. por isso decidi não levantar a bandeira do veganismo enquanto tivermos pessoas sendo tratadas pior que animais…

E é a razão de eu ter me tornado vegano. foi por ética e amor aos animais.

Sabe o bolo de fubá que falei no mês passado, entãaaao, venha cá e se sente aqui. Vamos precisar ter uma conversa muito franca. E é porque já nos conhecemos e temos alguma relação de afeto (ao menos da minha parte) que preciso te contar. Eu estava aqui escrevendo um artigo maravilhoso sobre afroconsumo mas tive que parar porque precisamos falar sobre a nossa saude mental. Isso, a nossa, de nós, negros. O papo pode ser forte, mas é sobre amor, eu te prometo.

Algum tempo atrás, as principais reportagens do País noticiavam sobre o histórico psicológico de Sebastian Coltescu, juiz acusado de racismo em horário nobre tendo a transmissão mundial como testemunha. É muito comum ter empatia por estes tipos de crime, vide a quantidade de seguidores e audiência que indivíduos conquistam após atos comprovadamente expostos. Eu sei, também fui socializado para pensar assim. Nestes casos a ficha médica tem valor e em outros só a ficha policial que atende. É bem interessante este comportamento, nano, é? Faço coro com estas ações de reparo e reconstrução pelo afeto mas, porque a mesma sociedade que esta panfletando a cultura anticancelamento é a que quer pessoas que cometem pequenos delitos mortos?  Nas perspectivas que tenho de sociedade, o estado é que deveria ser preso por voltar ao mapa mundial da fome no segundo pais que mais produz alimentos no mundo. 

E….sem nenhuma surpresa, arrisco dizer também que esta nação tem um talento enorme em produzir seres sem nenhuma perspectiva e possibilidade. E aqui vem a conexão com o veganismo e a nossa saude mental.

Sabe o que é? Considero que a empatia só acontece quando existe a ausência de morte intencionada em nossos processo de vida. Se precisamos escolher as nossas melhores terras produtivas para alimentar vacas e deixar pratos vazios de uma comunidade que tem cor e endereço definidos é porque preferimos nossos chihuahua a pessoas que carregam esse País nas costas. Calma, vamos chegar à saude mental.

Você viu que o Fiuk demonstrou pra muita gente (incrivelmente pela primeira vez) que fome gera atrito e desperta gatilhos. Além destas consequências, a fome também animaliza milhares de pessoas todos os dias, mas que são ignoradas. Isso em nosso País de vacas. 

Sim, exatamente o que você leu. Ja faz algum tempo que temos mais vacas (249 mi) que humanos (211mi) aqui. Acredito que você nunca viu em algum noticiário nacional que algumas delas estão com problemas de nutrição, e muito maltratadas. Vacas, que ainda viajam porque mesmo disputando grãos como nossa população de humanos, ainda serão o jantar de pessoas que nem falam a mesma língua. 

Caso você tenha o privilégio da tradicional celebração brasileira, saiba que um despretensioso churrasco também alimenta o encarceramento de nossos corpos e a nossa desumanidade em cada mordida. Salgado, né?

Quais as consequências geracionais de um racismo estruturado em mais de 500 anos e que sequer grande parte da sociedade o realiza? Nos altos dos meus 30 anos tive que criar mecanismos de busca para encontrar terapeutas negros antirracistas porque todos profissionais da psicologia que passaram na minha vida nem mesmo reconheciam opressões sistêmicas. E eu pensava…Como então posso me curar em uma sociedade doente? 

Hoje, acredito que toda a desumanidade e violência geracional submetida a nossa ancestralidade deve no mínimo ser considerada em cada julgamento feito em nossas ações. Devemos incluir também a euforia atrapalhada de muitos de nós em não saber lidar com oportunidades, já que provável que sejamos o primeiro desta árvore genealógica desconhecida a tê-las.

Lucas errou. Mas foi abandonado porque não tem a cor da humanidade, em uma sociedade que o descontrole é também um privilégio branco. Lembro de quando trabalhava em um cargo estratégico (de uma bem conhecida marca internacional) onde o seu fundador não raramente costumava subir na mesa gritando e proferindo palavras muito violentas direcionados a maioria. Dez anos depois, hoje, ele continua “firme”. São as últimas noticias que tenho e não são nada animadoras. Por todos estes cenários eu não consigo ter raiva e nem ódio do Lucas.

Mesmo acreditando que o ódio é automaticamente sentenciado em seu estereótipo de garoto negro periférico, hoje entendendo a forma de como construímos as nossas masculinidades negras em meio a todas estas violências. Perpassam desde a negação do afeto e referências até ser o corpo suscetível ao descarte como é reconhecidamente tratado pela anistia internacional.

Que a gente não se engane. Lumena também vem sofrendo rejeições por ter essa perspectiva firme de enxergar a sociedade como um todo, privilégio que somente mulheres pretas e pertencentes a base da sociedade tem, como diz Angela Davis. Mas, infelizmente, foi a colonização que nos desviou do caminho do coletivo onde éramos capazes de entender que comportamentos como de nosso irmão Lucas falam mais de nós do que dele. E assim, continuam muitas correntes africanas como a filosofia Ubuntu.

Apesar de Lucas não ser meu favorito, torço para que seus caminhos se trilhem, porque se é uma coisa que sabemos é aprender com os erros. Daqui de fora, espero que a participação dele possa contribuir com entendimento de humanidade que sempre foi nos negado. 

Desejo também que não tenhamos mais parceiros (mesmo comerciais como o da assessoria) que nos abandone em nosso primeiro e sério deslize. Que também seja nos dada a mesma possibilidade de errar daqueles que ainda reproduzem o maior crime da humanidade que é de desumanizar o outro, sem que sejamos automaticamente descartados. Já que considero que quem deseja a morte do outro, já morreu.

Acabo de perceber que hoje foi praticamente um monólogo, mas é que estava bem engasgado com isso tudo. Vi que você acabou comendo o bolo seco. Toma café que ajuda a descer.

Antônio Isupério é arquiteto há 16 anos e ativista LGBT+ antirracista desde 2015. Graduado em arquitetura pela Universidade Estadual de Goiás e com MBA em varejo pela FGV-SP, passou por empresas como Carlos Miele/M.Officer, onde foi responsável pela expansão da bandeira premium em todo Brasil. Posteriormente, na Marisa S.A., desenvolveu projetos de arquitetura e visual merchandising incluindo a autoria do projeto flagship da marca em 2013. Sua pesquisa em visual merchandising desenvolvida no Fashion Institute of New York já foi apresentada em diversos eventos de varejo. Atualmente, mora e trabalha em New York e é diretor de relações internacionais do Retail Design Institute e é o responsável pelo projeto de tropicalização da Aeropostale em terras brasileiras.