Em um futuro muito próximo, comprar um roupa online poderá se aproximar da sensação de entrar em uma loja física – Foto: Divulgação/Valentino

Por: Isabela Bettamio

Não é exagero dizer que a inteligência artificial representa a maior revolução na forma como vivemos, trabalhamos e criamos desde o surgimento da internet. Mas a transformação vai além da produtividade: ela já está mudando profundamente a maneira como compramos, descobrimos e consumimos moda.

Um dos sinais mais claros dessa virada está nos provadores virtuais. Em breve, será possível enviar uma foto para plataformas de e-commerce e visualizar com precisão o caimento de uma peça no próprio corpo, considerando formato, medidas e proporções reais. A experiência de experimentar antes de comprar ganha, assim, um novo significado, tornando a compra online muito mais intuitiva, segura e personalizada.

Outro movimento promissor está na aplicação da inteligência artificial ao universo 3D. Em um futuro muito próximo, comprar um vestido online poderá se aproximar da sensação de entrar em uma loja física. Marcas já desenvolvem ambientes digitais imersivos que transportam a atmosfera da loja para a tela, criando uma navegação mais próxima de visitar uma concept store do que simplesmente percorrer um site. Nesse contexto, desfiles em 3D também ampliam as formas de visualizar coleções, expandindo o alcance global da moda e tornando essa experiência mais acessível.

Mas a aposta mais transformadora está nos agentes de IA, sistemas capazes de buscar, selecionar e até concluir compras de maneira autônoma. Sam Altman, CEO da OpenAI e um dos principais nomes por trás da atual revolução da inteligência artificial, já definiu esses agentes como o próximo grande salto da tecnologia.

Hoje, somos nós que navegamos, comparamos e escolhemos produtos. Amanhã, esse papel será cada vez mais compartilhado com as máquinas. A tradicional experiência do usuário, conhecida no universo digital como UX (user experience), começa a abrir espaço para a experiência do agente, ou AX (agent experience), um modelo pensado para que sites e plataformas sejam compreendidos não apenas por pessoas, mas também por inteligências artificiais capazes de pesquisar, interpretar e até comprar por nós. Em outras palavras, as marcas passam a desenhar seus ambientes digitais não só para o olhar humano, mas também para sistemas que atuarão como novos intermediários do consumo.

Esse é um desafio técnico e estratégico. Os agentes enxergam a web de forma diferente dos humanos: elementos altamente visuais, como vitrines digitais, banners e carrosséis, muitas vezes não têm o mesmo peso para modelos de linguagem. Isso obriga o varejo a repensar design, estrutura de dados e até estratégias de marketing, garantindo que os produtos sejam legíveis e desejáveis também para essas novas interfaces.

E essa realidade já deixou de ser projeção. Em 2026, a moda se firma entre os setores mais avançados na adoção de inteligência artificial. O mercado global já supera US$ 1,26 bilhão, impulsionado por provadores virtuais, styling automatizado, personalização e agentes de compra autônomos. Ao mesmo tempo, o comércio conversacional acelera: plataformas como o ChatGPT já permitem que a jornada vá da descoberta ao checkout em poucos toques, consolidando a IA como uma nova vitrine para o desejo contemporâneo.

Ainda assim, a moda continua preservando algo que nenhuma tecnologia consegue replicar por completo: o fator emoção. Moda sempre foi descoberta, acaso, desejo e narrativa pessoal. É o prazer de encontrar uma peça inesperada, o gesto de garimpar algo único, a surpresa de vestir algo que traduz um estado de espírito.

Porque, no fim, moda nunca foi apenas consumo. É linguagem, memória, identidade e presença. É a forma silenciosa, e ao mesmo tempo poderosa, de contar ao mundo quem somos.

E é justamente aí que surge a questão mais fascinante: por mais sofisticada que seja, como uma máquina poderia realmente compreender o que significa se expressar através de um look?