Dayana Molina – Foto: Acervo pessoal

Por Dayana Molina

A moda e a arte são historicamente ambientes hostis de muitas exclusões. Reproduzem e espelham o que a sociedade é: estruturalmente racista. Esses comportamentos preconceituosos estão relacionados com padrões eurocêntricos. E, por isso, pessoas racializadas ainda não se sentem naturalmente inseridas nesses espaços. Segundo Chevallard, a transposição é entendida como um processo no qual um conteúdo do saber de transformações adaptativas, que vão torná-lo apto para ocupar um lugar entre os objetos. No fluxo desse pensamento, me posiciono como uma mulher descentralizando a estética da moda, descolonizando a produção criativa, ancorada na luta antirracista. A moda pode e deve ser uma ferramenta política e social. Tardia na exclusão e pronta para a pluralidade.

Se olharmos para a produção local, encontramos referências ancestrais de nossa gente, povos tradicionais, riquezas de detalhes, técnicas sustentáveis, manualidades e memórias. A nossa moda é culturalmente rica e diversa. Tem coisa mais poderosa que a gente se voltar para isso? Eu creio que não. Ainda que a gente tenha essa necessidade de olhar para tudo o que vem de fora, estamos nos reconectando e refazendo o precioso caminho de volta para “casa”. Que essa casa seja aquela morada de nossos avós e avôs. Que seja o lugar que nos conecta com a nossa verdadeira essência e resgate de nossa identidade.

Gosto muito de pensar quão poderoso é descolonizarmos a moda, a estética, o nosso olhar, nossa mente e estilo de vida. Podemos sempre aprender e retomar nosso lugar de origem. Tenho vivenciado essas experiências na prática. Nesse sentido, desejo que possamos nos inspirar nos bons exemplos da indústria, mercado mais consciente, sustentável e inteligente. Acho muito chique a gente compreender essas urgências.

Vivemos um tempo em que movimentar-se tornou-se inevitável. Isso porque muitas camadas da sociedade deixaram de cruzar os braços frente às desigualdades que nos atravessam. Nos despir de atitudes blasé, é um ponto de partida. Nos emocionar e manifestar isso é o puro suco da vida. E eu acho incrível ver gente disposta a mergulhar no novo. A plenitude disso ressoa a inovação que queremos dentro e fora das passarelas.

Inovação tem uma relação profunda com representatividade. Algo muito necessário que caminha calmamente. Mas se pensarmos na longevidade dessa discussão, entendemos que estamos na direção correta. Para inclusões reais, precisamos de ações práticas. E tudo começa e termina em estruturas. Ou seja, estamos falando de um movimento que não seja pontual, mas amplo e feito coletivamente. Porque é nessa força coletiva que encontramos forças para sustentar mudanças emergentes.

Por isso me atento em apontar questões objetivas. É chegado um tempo em que se queremos provar a autonomia criativa de nosso território, precisamos fazer novos talentos acontecerem. Isso significa empoderar as narrativas e histórias dessa terra. Acelerando, acompanhando, visibilizando e fortalecendo talentos nativos. Enquanto muitas oportunidades chegam para apenas um grupo de pessoas, poucas terão acesso ao todo. E essas oportunidades e fomentos econômicos mal distribuídos, geram miséria material e cultural. Precisamos fazer essa roda viva girar (e girar pra valer).

Dayana Molina (@molina.ela) é escritora, pesquisadora e criativa. Já colaborou com grandes veículos de moda nacional e internacional. Sua atuação importante na área de moda, tem um legado na luta indígena e no ativismo pela representatividade. Seu trabalho tem fortes referências ancestrais, descolonizando o mercado criativo de moda, inspirando mudanças emergente e fortalecendo a luta dos povos indígenas. Sua herança ancestral é uma mistura entre o Andes e o sertão de Pernambuco; Mulher indígena ascendente dos povos aymara e fulni-ô, Day resgata a memória afetiva e se orgulha de sua identidade. Atua na moda há 14 anos. Trabalhou como stylist, figurinista e produtora. Atualmente é diretora criativa de sua marca, a NALIMO.