
Enquanto alguns escritores mudam de estilo, outros apenas encontram uma nova forma para dizer aquilo que sempre escreveram. Com Esther Faingold, a sensação é esta última. Depois de uma trajetória construída na poesia, a autora estreia no romance com “Apneia”, publicado pela Cosac, sem abandonar a substância que sempre alimentou a sua escrita – a densidade reflexiva e a investigação da memória e das zonas mais delicadas da experiência humana.
Nessa nova fase, a ficção parece surgir quando o poema já não comporta a dimensão daquilo que precisava ser dito. “Nunca saí da poesia. Ela nunca foi, para mim, uma forma ou um gênero do qual se possa sair – é um estado de vida, de pensamento, de resistência”, afirma.

Em “Apneia”, essa expansão acontece por meio de uma carta-testamento de uma mulher para a filha. Mas seria simplista definir o livro apenas dessa maneira. A história opera em camadas, articulando lembranças, ausências, heranças emocionais e perguntas que não encontram respostas definitivas. A voz que conduz a história parece ouvida a partir de um lugar onde tempo e esquecimento convivem em permanente tensão.
Para Esther, recordar não significa reparar o passado. “Lembrar não é restaurar o que se perdeu, mas organizar essa falta e tornar habitável o vazio”, observa. A frase ajuda a compreender um dos movimentos centrais do livro, que não busca reconstruir um enredo de forma linear; seu interesse está nas lacunas, nos sigilos e naquilo que permanece irrecuperável.
Essa ponderação perpassa toda a narrativa. A obra também flerta com escritores como o argentino Jorge Luis Borges, especialmente em suas tratativas sobre as recordações. Se o excesso de memória pode paralisar, como acontece com Funes, o memorioso (personagem do universo labiríntico de Borges), esquecer também tem seu preço. Entre uma condição e outra, “Apneia” semeia o seu próprio território.

A autora desafia qualquer tentativa de separar rigidamente autobiografia e literatura. Embora cria e criadora compartilhem o mesmo nome, Faingold rejeita a ideia de autenticidade automática. “Eu é um outro”, diz, evocando Rimbaud. Para ela, a ficção não se organiza por fronteiras simples. O que interessa não é a fidelidade factual, mas a potência da linguagem para acessar verdades que escapam à experiência direta.
Essa perspectiva ajuda a entender a razão pela qual o livro aborda temas difíceis sem recorrer a fórmulas de superação ou discursos de redenção. O amor, a maternidade, a depressão e a perda aparecem livres de qualquer idealização. “Há uma mulher dentro da mãe”, reforça ela ao pensar sobre a maternidade como experiência complexa e, muitas vezes, contraditória. A pergunta que atravessa o livro é tão delicada quanto universal: “Como transmitir memória sem imprimir feridas? Como legar uma história sem transferir seus venenos?”
A carta dirigida à filha nasce dessa impossibilidade. Não há lição, consolo ou promessa de reparação. Há apenas uma tentativa de comunicação diante da fragilidade da existência. Ao longo dos capítulos, a água surge como elemento recorrente. Mergulho, travessia, respiração e afogamento compõem uma simbologia que conecta tanto com o íntimo como com as histórias coletivas de pertencimento. “Herdei lugares que nunca habitei.” A citação sintetiza uma geografia carinhosa construída entre episódios familiares, andanças e legados que antecedem a própria vida.
A literatura, para Esther, sempre esteve ligada ao corpo. Não por acaso, ao contar sobre suas referências, aponta nomes como Ossip Mandelstam e Paul Celan, poetas que compreenderam a escrita como uma experiência física, associada ao alento e ao limite. “A poesia é o estado de alerta máximo da língua.”
Esse entendimento também ajuda a explicar por que “Apneia” se aproxima da depressão de maneira singular. Em vez de construir um romance explicativo ou pedagógico, a autora opta por colocar o leitor dentro de uma consciência em colapso. “Um romance sobre depressão que funcione como instrumento de conscientização já fracassou como literatura”, observa. Esse esclarecimento revela sua defesa intransigente da complexidade artística. O sofrimento não aparece como diagnóstico, mas, sim, como vivência. O script acompanha uma mulher que pensa, hesita, lembra, perde o fio das ideias e tenta reencontrá-lo. Não há atalhos nem respostas fáceis.

Ao longo de sua trajetória, Esther passou por diferentes áreas criativas. Essa multiplicidade ampliou seu olhar sobre a condição humana, algo que também se manifesta em sua convivência com o artista plástico Tunga, com quem compartilhou anos de vida em comum. Ao explanar essa relação, ela evita romantizações e prefere uma imagem quase física para definir a troca entre os dois. “Havia contaminação e a provocação de continuar girando no próprio eixo, preservando a rotação individual, sem romper o acoplamento orbital.”
Hoje, ao lançar “Apneia”, Esther Faingold acentua o espaço de sua linguagem sem abandonar a poeta que sempre foi. A obra é gerada na fronteira entre o fôlego e sua suspensão. Talvez por isso seu título seja tão preciso. Em apneia, o corpo interrompe momentaneamente a respiração. Mas a pausa não significa ausência de vida; é bem mais como uma espera. E é nesse intervalo – entre a palavra dita e a que permanece submersa –, que a escritora edifica uma das vozes mais singulares da literatura brasileira contemporânea.

