Obra Sono de Pedra, de Elisa Stecca – Foto: Divulgação

*Por Elisa Stecca

Demorou muito para entender como seria ficar confinada tão logo as primeiras informações da Covid-19 começaram a surgir. Ficar parada dentro de casa não é uma coisa que bate com meu santo, muito agitado. Quando vi que a coisa estava ficando mais séria, percebi uma oportunidade maior: de transformação, de avaliar e encerrar assuntos.

Essa habilidade de viver o presente, da melhor maneira possível, vem me acompanhando há um tempo. Esse momento de quietude, de perceber possibilidades, já havia sido o tema da minha exposição “Silêncio”, no Museu de Arte Sacra de São Paulo, em 2017. A ocasião foi um marco de ciclos, fechando um e abrindo outro, simultaneamente – a roda da vida girando.

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Mudanças de vida acontecem nem sempre com a suavidade que gostaríamos. Há quinze anos, passei por um processo de morte em vários aspectos, como o final de um casamento bastante passional e a consciência de que não poderia mais utilizar nenhuma substância que alterasse minha mente (isso vale de álcool a psicotrópicos).

Foi um processo de muita dor que se iniciou com a leitura do livro “Você pode mudar a sua vida”, da Louise Hay, que simplesmente se materializou na minha frente, enquanto corria os olhos pela prateleira na casa de uma amiga, em numa noite insone.

Depois, as palestras de Jung sobre Deus, o contato com o grupo Mulheres que Amam Demais, meu ingresso na Seicho-no-ie e várias outras pistas me conectaram com uma esfera diferente de espiritualidade, muito mais prática. Inclusive esse conceito de Deus, como consciência e lei que permeia o Universo,  me levaram a querer compartilhar com as pessoas essas descobertas e assim nasceu meu livro “Hoje é o Dia Mais Feliz da sua Vida”.

Falar sobre Deus para gente de arte e de moda, mais ligados às questões estéticas e intelectuais, não é tarefa fácil. Existe um julgamento pré-concebido e até fundamentado porque falar sobre o sagrado não pode ser uma pregação. Hoje, estou mais tranquila. Incorporei esse sentimento ao meu trabalho. Digo que é “arte sacra contemporânea”.

Resignada com a notícia do adiamento de uma exposição na Espanha, enfrentei feliz a batelada de encomendas com interesse pela minha arte. As pessoas em casa, com vontade de harmonizar seus ambientes, recorreram às esculturas que desenvolvo com pedras brasileiras e metais. Ao mesmo tempo, me propus a fazer um trabalho por dia, me alimentando dos temas que rondam o mundo, como a morte do artista Christo e o movimento #BlackLivesMatter.

Pouco antes do meu aniversário, em julho, um desconforto medonho tomou conta de mim. Tive bode de acordar, de encarar as pessoas e fazer o que tinha para fazer. Vontade de chamar a Virginia Woolf, brincar de Orlando, dormir um mês e acordar homem! E um “acorda” veio de onde eu menos esperava: síndrome de ninho vazio. Resultado de duas filhas fora, uma funcionária que me acompanhou a vida toda, meu braço direito e esquerdo, abrindo seu próprio negócio. Um choque.

Percebi que esse desconforto é como o do bebê de nove meses dentro da mãe: tudo bem até que ele precisa nascer. Minha instalação “O Peso dos Sonhos”, inaugurada em setembro, fala sobre isso. Como acabamos atrelados aos nossos sonhos de tal maneira que eles se tornam um fardo. Acredito que a arte possa ser um meio que permite podermos deixar ir, de maneira menos dramática e mais lírica afinal, a vida é fluída.

Essa quarentena foi incrivelmente produtiva para mim. Simplesmente, não parei. E tem mais coisas acontecendo. Estou desenvolvendo licenciamentos, amando a possibilidade de ter meu trabalho em plataformas mais acessíveis. Quando me perguntam como eu dou conta de fazer tudo que faço, respondo que não sei. Simplesmente vou fazendo. Se parar para pensar, não sai. Afinal, a vida é aquilo que acontece enquanto fazemos planos para ela. Vamos em frente, vivendo fora da ópera, driblando o drama, deixando ir e deixando vir.

Elisa Stecca – Foto: Divulgação

Novo livro

Sempre amei cozinhar, ato que considero da mais alta nobreza, pois nutre, cuida, transmuta, é concreto. Ela me trouxe mais insights, seja como tema, material ou desejo. Além de amar comer e alimentar os outros, receber, montar a mesa e tudo o mais, recorro à culinária em momentos extremos, quando já fiz tudo que podia e o que está por acontecer não depende mais de mim, como esperar a resposta de um orçamento, uma ligação, um edital. Resolvi fazer uma coisa que nunca pensei possível: organizar minhas receitas. Isso tudo está virando um novo livro depois que montei um diário em meu Instagram desse feliz encontro com a gastronomia.

*Elisa Stecca é artista plástica, designer e joalheira, autora dos livros Hoje é o Dia Mais Feliz da Sua Vida e Pergunte ao Oráculo, ambos publicados pela Matrix Editora. Ela foi convidada pelo Museu de Arte Sacra para formatar a happy hour virtual #aovivodomas, conversas com foco em arte, espiritualidade e beleza.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Harper’s Bazaar Brasil.