Isabelle Ruppert na Givenchy - Foto: reprodução/Harper's Bazaar
Isabelle Ruppert na Givenchy – Foto: reprodução/Harper’s Bazaar

Por Luigi Torre

Acredite, já existiu glamour depois dos 40. Até os anos 1960, se acreditava que só após a maturidade uma mulher entrava em seu primor sexual e social. Ficou na dúvida? Pois pense nas musas do cinema entoadas por Madonna ao fim de Vogue: Greta Garbo, Marilyn Monroe, Marlene Dietrich, Grace Kelly, Jean Harlow, Ginger Rogers, Rita Hayworth, Lauren Bacall, Katherine Hepburn, Lana Turner e Bette Davis. Mas aí veio a revolução jovem e as meninas, que, até então, queriam se vestir como suas mães, ganharam voz própria – e minissaias. Em pouco tempo, as mães queriam se vestir como suas filhas.

A nova ordem, desde então, era a de juventude a qualquer custo. Quem não quisesse (ou pudesse) reproduzir o look adolescente, que se contentasse com o esquecimento social. Não à toa, nos anos 1990, a jornalista e feminista Germaine Greer declarou, com bastante propriedade, que ser uma mulher de meia-idade era como ser invisível.

Julianne Moore na L'Oreal - Foto: reprodução/Harper's Bazaar
Julianne Moore na L’Oreal – Foto: reprodução/Harper’s Bazaar

Não mais. Mudanças sociais começam a colocar mulheres mais velhas de volta aos holofotes da moda. Os motivos são fundamentalmente comerciais e econômicos, ainda assim não há como negar o ineditismo do fato depois de mais de 50 anos em busca de juventude eterna. Os baby boomers cresceram, as taxas de natalidade estão em declínio em diversos países (estudos do IBGE apontam que a tendência não deve demorar para chegar ao Brasil) e, hoje, o maior poder de compra está entre consumidores com mais de 40 anos. Não se adequar à tendência seria suicídio financeiro.

Jessica Lange na Marc Jacobs Beauty - Foto: reprodução/Harper's Bazaar
Jessica Lange na Marc Jacobs Beauty – Foto: reprodução/Harper’s Bazaar

Mirando consumidoras em potencial, as mais recentes campanhas já começam a trocar os 20 poucos das últimas tops do momento pelos 40, 50, 60, 70 e até 80 de ícones de estilo. Possível reflexo nas passarelas, a moda dos básicos revisitados, do normcore e da alfaiataria minimalista – tão emblemática dos nossos tempos – também encontra caminho nesse novo cenário.

Mais do que um corpo definido, são roupas que pedem, acima de tudo, personalidade, confiança, autoconhecimento e senso de estilo muito bem definido. Qualidades que só somam com o passar do tempo.

Tilda Swinton na Chanel - Foto: reprodução/Harper's Bazaar
Tilda Swinton na Chanel – Foto: reprodução/Harper’s Bazaar

Na Dolce & Gabbana, Monica Bellucci, com quase 50, aparece ao lado da modelo Daphne Selfe, aos 85 anos. Riccardo Tisci convidou a atriz francesa Isabelle Huppert (65) para ser um dos rostos do inverno 2105 da Givenchy. Karl Lagerfeld escolheu Tilda Swinton, com 53, para a campanha da coleção Paris-Edimburgo. Na Lanvin, Alber Elbaz escalou não só a top Edie Campbell, de 24 anos, como também sua mãe, Sophie Hicks (ex-editora da revista Tatler e stylist de Azzedine Alaïa), e sua avó, Joan Hicks, ex-modelo, que trabalhou com Norman Parkinson nos anos 1950.

Vinte e cinco anos após estrelar as campanhas da Calvin Klein, Christy Turlington retoma o em 2014. Cate Blanchett renovou contrato com a linha de beleza Giorgio Armani. Ambas estão na casa dos 40. Aos 65, a atriz Jessica Lange é a estrela da Marc Jacobs Beauty e Charlotte Rampling, aos 68, foi a escolhida para ser garota-propaganda dos 20 anos de aniversário da Nars.

Charlotte Rampling para Nars - Foto: reprodução/Harper's Bazaar
Charlotte Rampling para Nars – Foto: reprodução/Harper’s Bazaar

O repúdio aos abusos do Photoshop não é estranho ao movimento. Imagens irreais têm cada vez menos apelo entre as consumidoras. Vide o sucesso dos produtos da linha Super Restorative, da Clarins, responsável pelo maior número de vendas da marca. Na campanha, a modelo Nancy Tate deixa visíveis as linhas de expressão de seus 49 anos.

Figuras femininas em posições de comando e poder também engrossam o coro. Foque em Hillary Clinton dando novo significado ao uniforme de trabalho no senado norte-americano (e agora, na corrida presidencial). Ou na diretora do FMI, a francesa Christine Lagarde, que tem como look de todo dia ternos monocromáticos das mais tradicionais maisons, mas sempre com um toque de drama nos acessórios. São mulheres-modelos tanto por suas ações, como por suas imagens – com importância extra num contexto dominado por homens.

Realidade é o tema da vez. Tendência que vai além das passarelas e das páginas de revista. Juventude é estado de espírito, mas a máxima andava meio esquecida, um tanto tímida entre padrões insanos impostos pela indústria. Bobagem. Alma não enruga. E tem muita senhora de 80 dando banho de mocidade em mocinha de 20. Não existe nada mais verdadeiro do que a aceitação completa a qualquer idade. Mais real do que isso, impossível.