Arte Harper’s Bazaar Brasil

Por Antônio Isupério

Lucas Santos foi encontrado morto em seu quarto. Sua mãe, a cantora Walkyria Santos, postou um video explicando que ele se matou após comentários de vídeo publicado na internet demostrando afeto, em forma de brincadeira, com seu amigo. Protegemos com máximo respeito a imagem de Lucas, que era menor de idade, para que possamos falar com ética sobre este caso.

Precisamos falar de várias coisas delicadas aqui, então preciso que vocês estejam abertos, mas de verdade. Este caso é uma denúncia do quanto a nossa sociedade precisa ser reformada e que não há mais espaço ao patriarcado. EM NENHUM LUGAR. E não queremos que ninguém próximo de você seja o próximo, nem você. Quando eu falo “você”, é você mesmo que esta lendo este texto agora. Não precisa ser lgbt+ para morrer de homofobia e este foi o caso de Lucas, que se identificava como hétero e só estava em uma brincadeira com seu amigo, estas são palavras dele mesmo. Por isso, vou trazer alguns dados aqui para que possamos ampliar este debate e para que a sua casa seja um pouco mais segura para todos nós.

1. O ESPAÇO MAIS VIOLENTO PARA LGBT+ É A PRÓPRIA CASA (eu sei que você não sabe disso). Só depois vem a escola e depois a rua. No vídeo de “explicação”, Lucas fala o tempo todo sobre apanhar de sua tia, isso não pode ser relativizado. Ele fala em morrer da surra “merecida” e da chinelada. Mas por favor, não fiquem com raiva da tia, isso é sistêmico e estrutural. Não é sobre a tia, é sobre nós, sociedade. Na maior parte das vezes é o tio ou o pai. A quantidade de pessoas que são expulsas de casa é enorme, principalmente em se tratando de pessoas transgênero. E continuam sendo expulsas e vão continuar por muito tempo ainda.

2. Claro, sobre os comentários homofóbicos e discurso de ódio, chegamos A ESCOLA. Essa é a importância de ter educação sexual. Vocês não fazem idéia do quanto a escola é violenta para nós lgbt+, não tem como imaginar, acreditem. E nós, quando crianças, não temos a mínima idéia do que está acontecendo e acreditamos ser pessoal, que tem algo errado (bastante errado) conosco. Todo este cenário faz com 75% (SETENTA E CINCO POR CENTO 🥺) desenvolva algum tipo de trauma convertido em uma questão de saúde física. Estes dados são de um artigo chamado Together Alone do Huffington Post.

3. A RUA. Ah, a rua. Tão violenta e já tão difundida que acredito não preciso citar, já que somos o País mais violento do mundo para nós da comunidade. E isso por muitos anos. Estamos no pódio desde quando começamos a contabilizar. Sabe o que é pior? Estes dados são incrivelmente subestimamos já que são feitos por organizações não governamentais como GGB e a Antra, que mesmo reconhecidas internacionalmente pela seriedade, não dão conta de tudo. Ou seja, o que nos extermina de forma pornográfica muitas das vezes é o único lugar de acolhimento, isso quando encontramos irmãos da comunidade e nos mobilizamos.

4. Preciso que você respire para esta última. Países religiosos (como o Brasil) matam mais lgbt+ no mundo do que países onde é crime ser lgbt+. O fundamentalismo religioso é muito violento a todos nós e nos prova que nem espaços de fé são preparados para nos corpos e a nossa espiritualidade é negada, mesmo depois da rejeição da casa, da escola e da rua. Ou seja, NINGUÉM CUIDA DAS CRIANÇAS LGBT+ e preciso que pense nisto quando for fazer a próxima oração.

Eu e você que matamos o Lucas e continuaremos a matar já que esta é a nossa lógica vigente de sociedade. De acordo com aquele artigo do Huffington Post citado anteriormente, nós lgbt+ temos a mesma quantidade de cortisol no sangue (hormônio do estresse) do que veteranos de guerra. Vimemos um estado literal de guerra e vale lembrar que em uma guerra TODOS são afetados. E todos morremos um pouco com cada morte também.

Meus sentimentos profundos a esta família. A culpa não é de vocês, é de todos nós. O diagnóstico da morte do Lucas é: ele morreu de Brasil. Em nosso País, todos temos sangue lgbt+ alguns nas veias – e muitos nas mãos.