A jornalista Malu Neves se mudou Amsterdã em meio à pandemia (foto: arquivo pessoal)

Malu Neves, jornalista e head de conteúdo do projeto Guide Me To, trocou São Paulo por Amsterdã no início de abril, em meio à pandemia do Coronavírus. Em depoimento à Bazaar, ela relata como foi a mudança e qual é o clima que encontrou na capital da Holanda.

Aeroportos vazios

Em março de 2011, tudo o que meu marido e eu queríamos era viajar para um lugar tranquilo de inverno, longe da bagunça do Carnaval brasileiro (adoro Carnaval, mas naquele ano buscávamos outra experiência). Nem sei dizer porque escolhemos Amsterdã: mal sabíamos, àquela época, que algumas regiões do sul da Holanda celebram os quatro dias de Carnaval tal qual o Brasil (a diferença é o frio e as vestimentas, claro)! Tamanho foi nosso encantamento pelo país, cidade, cultura, educação e mindset holandês que desde então sabíamos, no fundo do nosso coração, que aqui seria o nosso lugar. Nove anos depois: muita determinação e coragem nos fizeram abraçar o maior sonho de nossas vidas e embarcamos para Amsterdã no meio da crise da Covid-19. A data da nossa viagem já estava marcada antes de imaginar que a vida de todos viraria de ponta cabeça. Posso dizer, aliás, que fomos bastante desencorajados por pessoas próximas – nós mesmos chegamos a questionar se seria o certo. Hoje, sei que foi a melhor escolha que poderíamos ter tomado. Como somos cidadãos italianos e já tínhamos residência em Amsterdã, não haveria problema para embarcarmos. Chegamos em 4 de abril, com nossos dois gatos.

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Ambos aeroportos, Guarulhos e Schiphol, estavam completamente vazios; em Guarulhos tinha apenas cinco voos partindo naquele dia e, quando chegamos em Amsterdam, havia apenas a nossa esteira de bagagem. Não posso dizer que o voo estava supervazio, mas longe de estar lotado. Em cada assento havia um kit com suco, refrigerante, água, fruta, lanche, biscoito, barrinha de cereal; além deste, apenas um serviço seria realizado pela KLM durante as 11 horas – o de almoço. Passageiros viajando juntos, como pais e filhos ou casais, sentavam um ao lado do outro; caso contrário, sempre um assento livre no meio de dois passageiros. Para nossa sorte, viajamos cada um com um gato em fileiras diferentes e ninguém foi do nosso lado. A maior parte dos passageiros não desembarcou na Holanda, fez apenas conexão: na minha frente, uma mãe com duas filhas retornavam para a Alemanha, depois de dois meses de férias no Brasil.

Passeios no próprio barco e banho de sol em Westerpark, sem aglomeração, são permitidos (fotos: Malu Neves/Guide Me To)

Nada de turistas

Amsterdã é uma cidade muito turística, mas, de repente, só ouço holandês pelas ruas, pelos mercados, nas praças. Vivemos, hoje, a Holanda dos Holandeses. Dei um pulo no centro, onde turistas costumam se aglomerar dia e noite à procura de maconha e outras diversões, e vi um cenário que lembra uma cidade fantasma. Por outro lado, no meu bairro e em outros residenciais, tenho uma sensação de quase normalidade: donos passeiam com os cachorros; crianças e adolescentes brincam em praças e parques; jovens fazem esporte ou levam seu notebook para trabalhar ao ar livre; piquenique em dupla ou trio de amigos. Absolutamente ninguém anda de máscara pela cidade.

Restaurantes e bares não podem receber cliente, mas a maioria dá um jeitinho e monta um receptivo improvisado na frente, para take away ou delivery – criatividade e sobrevivência. Lojas de roupa, consultórios, papelarias: tudo funciona, respeitando a regra de um cliente por vez ou mais, dependendo do espaço. Supermercados e feiras seguem abertos, com a devida precaução de distância e higiene. A polícia está espalhada por toda parte para certificar que ninguém infringirá a lei – o que já aconteceu e a multa é alta –, cuja regra proíbe mais de três pessoas juntas (dentro ou fora de casa, exceto para famílias) ou aglomerações. Sorte de quem tem seu próprio barco ou mora num desses: com dias tão ensolarados desde que cheguei, passear ou tomar sol nos canais é uma bela alternativa de passeio sem prejudicar o distanciamento social.

Em Amsterdã, delivery de pães e bar caribenho servindo na porta (fotos: Malu Neves/Guide Me To)

Mesmo com restrições, Amsterdã está longe de ser um lugar difícil de viver

“O holandês não se abala com muita coisa. É pragmático, direto ao ponto, não tem meio-termo. Esse modo de pensar e agir é visto frente ao coronavírus. Eles pensam: temos um problema, vamos enfrentá-lo, sem reclamar, sem pânico e sem tirar proveito do que ainda podemos usufruir (sempre com bom humor). O governo holandês, por sua vez, tranquilizou a população com estratégias e planos, seja do ponto de vista econômico ou social. Cinco anos atrás, houve um corte de custos significativo em vários setores públicos que permite ao país passar agora pela crise com dinheiro suficiente para cobrir os “buracos” (meus amigos holandeses se orgulham disso). Sem contar dois apps dedicados a mapear o vírus e permitir melhor controle à proliferação somados aos testes em massa que devem acontecer em breve.

Ao mesmo tempo com que o governo orienta todos a ficarem em casa o máximo possível, os deixa livres para saírem e espairecer, fazer esporte ou ter um momento de lazer, um pouquinho, todo dia. Nossos vizinhos de rua, animados, se encontram ao final de tarde na porta de suas casas, cada um na sua, com um copo de vinho em mãos, outros com um banquinho e um livro, e os mais animados levam o som e garantem música coletiva. Afinal, por quê não trazer um pouco de humor e leveza à vida que já está cheia de desafios? Esta é a mentalidade holandesa pela qual me apaixonei. A quarentena dura, teoricamente, até 28 de abril. Mesmo com restrições, Amsterdã está longe de ser um lugar difícil de viver durante a pandemia da Covid-19.”