pensata-interna

Por Mariliz Pereira Jorge

A primeira coisa que mais gosto de fazer na vida é viajar. A segunda é voltar para casa. Pegar as malas na esteira do aeroporto, entrar num táxi e rever as ruas e construções tão familiares ao longo do caminho; percorrer o túnel de árvores que embeleza a sua avenida, olhar pela janela do carro e procurar o andar de casa, como se alguém fosse acenar pela janela e dizer: seja bem-vinda. Não tem ninguém, mas tem meu canto e isso faz um carinho na alma.

Quem gosta do lugar onde vive sabe que ele é capaz de suscitar sentimentos e trazer de volta emoções. Ele não é um porto seguro à toa. Quanto mais aconchegante e com personalidade, mais temos aquele lugar como nosso refúgio físico e psicológico. Reconhecemos o cheiro, vemos nossas pegadas nos tapetes, as marcas nos móveis, sabemos onde estão as velas no caso de um apagão, sorrimos ao dar de cara com o porta-retrato trazido de alguma viagem distante. Nossa casa reflete quem somos e tem um poder enorme de influenciar o nosso humor no dia-a-dia.

Sempre tive essa percepção e confirmei minhas impressões quando li, já há alguns anos, o livro Arquitetura da Felicidade, de Alain de Botton. As nossas identidades estão indelevelmente associadas ao lugar onde vivemos e, junto com ele, se transformarão, diz. Por isso fico impressionada ao entrar em casas que poderiam estar numa revista de tão lindas e bem decoradas, mas que dão a sensação de que ninguém mora lá – ou de que não é divertido morar lá. É tudo milimetricamente pensado por um arquiteto ou decorador. Tem bom gosto, nem sempre tem vida.

Nada contra, pelo contrário. Sou incapaz de decidir se coloco a mesa aqui ou o sofá lá, se cabe uma poltrona naquele canto ou o que faço com todos os livros que tenho. Para isso, sempre conto com profissionais. Mas, quando eles fecham a porta, o toque final é meu. Espalho todos os meus cacarecos, inclusive aqueles que a arquiteta disse que não ficariam bem naquela decoração tão clean e elegante.

A vida não é clean. A gente precisa poluir um pouco nossos espaços com os objetos que contam nossa história. Toda vez que olho em volta, vejo alguma coisa que me traz uma lembrança feliz. À medida que decoramos nosso canto, construímos não apenas um teto para morar, mas alicerces psicológicos que nos dão segurança, proteção e alegria para viver. Nossa casa sinaliza quase sempre quando é hora de mudar, não só de casa, mas de vida.

Morei seis anos num apartamento moderno em São Paulo. Sabia que, se saísse, dificilmente acharia algo tão descolado. Fui extremamente feliz naquele lugar, que me trazia boas lembranças. Até que terminei um casamento e tive meu lar como testemunha de muita tristeza e decepção. Não conseguia mais viver lá. Há momentos que nem o seu lugar preferido no mundo impedirá que você se sinta triste.

O lugar que a gente escolhe para morar pode determinar tam- bém como nos relacionamos com o mundo. Não é só dentro de casa que a arquitetura pode nos trazer mais felicidade.As ruas, parques e construções de onde vivemos mexem com nosso hu- mor e a nossa relação com a vida.Trabalhei por muito tempo em um bairro muito feio no Rio de Janeiro – passava por casas po- bres,ruas esburacadas e sem verde.Aquilo me causava uma tristeza enorme. Não apenas por mim, mas pelas pessoas que moram ou fazem seus caminhos por ali todos os dias.

Pense no impacto que a gente tem ao passear pela orla do Rio, passar de bicicleta pela República do Líbano, em São Paulo, caminhar pelas ruas de Curitiba, Paris ou Roma. Independentemente de se gostar do clássico ou do moderno, viver em uma cidade bonita e bem cuidada estreita os laços e aumenta a intimidade das pessoas com os espaços públicos. Quanto mais gente na rua, mais vida, quanto mais vida, melhor a gente vive, porque vive feliz e carrega essa felicidade para qualquer lugar.