Foto: Reprodução Harper's Bazaar
Foto: Reprodução Harper’s Bazaar

Por Rosana Rodini

– Ei, amor, vem cá, vem?
– Não faz assim, eu quero, mas não posso, tô de quarentena pós-tratamento espiritual.
– Chopp mais tarde?
– Morrendo de vontade, mas não tô bebendo. É que final de semana eu faço um retiro. Preciso me limpar.
– Almoço?
– Não rola, tenho uma leitura de aura às duas.
– Praia amanhã?
– Adoraria, mas vim para Pirenópolis em busca da cachoeira perfeita. Te chamo na volta. Namastê.

Tudo bem, nada de novo sob o sol, posto que a busca pela espiritualidade é mais velha do que andar para frente. Mas, não faz muito tempo, o mundo transcendeu outra vez. Não se sabe bem quando nem onde. Fato mesmo é que, de repente, estava todo mundo em posição de ioga, trocando a festa pelo centro e o drink pelo chá (de ayahuasca) das cinco, mudando os hábitos, pregando os hábitos.

A “doidera” caiu em desuso, juram eles, ou, pelo menos, mudou de formato. É que agora os rituais migraram da pista para o chão de terra. São junkies de luz. Ainda se dança, mas ao som de cânticos indígenas. Maior barato. After bom, ouvi dizer, só com os índios, num sopão que vara a madrugada. Rola depois da cerimônia, num spa espiritual (lá na serra do Rio), que acaba de inaugurar uma praça xamânica – a programação intensa, com todos os tipos de curas, banhos e rituais, atrai os mais variados círculos. “Encontro de almas”, explicam, em uníssono. Os céticos tiram onda sobre a nova era de Aquarius (ela é real), alguns se arriscam a dizer que se trata de uma versão purificada dos “ecochatos”. Mas, guiados pela lua, seus entusiastas nem ligam. É que tirar sarro não cabe nesse plano, só pensamento positivo. Nem mesmo quando você descobre que tem andado com uma bruxa queimada na inquisição. Entre os casos de outras vidas, ainda constam um que morreu de obesidade crônica, uma rainha egípcia e um pajé de 1500 e lá vai bolinha.

A rede também transcendeu. No Facebook, chovem convites para brindar o eclipse lunar – cantoria fina para corações repletos de esperança. E todo mundo tem um guru para chamar de seu, nem que ele seja no plano (fala-se muito em planos) virtual. No revival do Twitter, leitura de tarô online é top trend. Isso sem falar em orientação espiritual diária via aplicativos metafísicos. Só baixar. Meditação, real ou virtual, duas vezes ao dia, ou mais – a das Rosas, “poderosa ferramenta de limpeza energética”, pode ser feita nos lugares mais curiosos (já vi em festa, só fechar os olhos e concentrar). Na moda, quem dita o look é a terapia das cores – e haja branco para compor o guarda-roupa. Ah, fora a lua minguante a e lua nova – sabia que elas influenciam procedimentos estéticos e até cirurgia? Não marque uma sem consultar, dizem.

A sálvia, por sua vez, tem reinado como home spray dos lugares mais distintos. Na praia, o tai chi faz as vezes do stand up paddle de outras estações, com direito a chuva de likes em posts de musas zen, que também pregam a alimentação saudável – é que se escuta muito o corpo agora. Ah, e certamente não tardará a surgir uma nova categoria de influencers transcendentais para dominar a blogosfera (fala-se muito em esferas). E em harmonia, astrologia, da lua em Câncer… Contra a loucura da vida, é tempo de desacelerar.

– Ei, voltou?
– De onde?
– Ué, da busca da cachoeira perfeita. Encontrou?
– A resposta está no caminho.