Roberta Rodrigues – Foto: Divulgação

Por Diogo Rufino Machado

Roberta Rodrigues, atriz do elenco da novela “Nos Tempos do Imperador”, da Globo, também está na comédia na comédia “Dois+Dois” e no filme “L.O.C.A. – Liga das obsessivas compulsivas por amor”, de Claudia Jouvin.

Ela bateu um papo exclusivo com a Bazaar. Leia abaixo:

Roberta, como começou a sua carreira?

Eu tinha 16 anos. E foi no Nós do Morro onde eu me encontrei. Onde eu me achei e falei “Caramba! É isso que eu amo. É isso que eu quero fazer”. O Nós do Morro me permitiu sonhar, entender que eu tinha um espaço e que poderia ser quem eu quisesse. Às vezes as pessoas falam: “ah! mas você só faz isso. Só faz a periguete. Você só faz a menina do morro. Você só faz a barraqueira”. Para mim não é uma vergonha, isso não é um problema. Cada um dos personagens que eu fiz foi totalmente entregue, totalmente inteira e com todo amor da vida.

Sabemos que você tem origem humilde. Como foi se tornar atriz saindo do Vidigal?

Não foi fácil. Mas, desde que eu me encontrei naquilo e vi que era o que realmente queria, nunca desisti. Minha estreia na TV tem total conexão com a repercussão do filme “Cidade de Deus”. Foi minha primeira experiência real de atuação. No cinema, eu descobri o que realmente queria e foi a partir disso que a televisão entrou na minha vida, com a série “Cidade dos Homens”. Tinha feito teatro de forma independente, entrei para o (grupo teatral) Nós do Morro e as coisas começaram a acontecer. O início nem sempre é fácil, mas tive a sorte de cruzar com o Caruso em “Mulheres Apaixonadas”, minha primeira novela. Ele foi um anjo na minha vida. Eu estava muito crua, sem experiências, e ele me dava muita força. E, de lá pra cá, não parei mais e nem quero.

O que você faz pela comunidade atualmente?

Ter nascido no Vidigal foi um privilégio. É um lugar maravilhoso com pessoas incríveis. Sinto que tenho uma responsabilidade de cuidar da minha comunidade, mas isso não é um peso, na verdade faço com todo amor do mundo. É um lugar que eu quero ver florescer. E hoje eu tenho o Vidigal Social, com projetos importantes para dar oportunidade para as crianças estudarem de forma adequada ou ter um respiro financeiro frente à crise. Acredito na educação.

Roberta Rodrigues – Foto: Divulgação

Atualmente você está atuando em “Nos Tempos do Imperador”. Você pode comentar a polêmica que envolveu o enredo da novela sobre racismo reverso?

Minha personagem suscita essa reflexão, muitas vezes age como se não fosse escravizada. E isso acontece até hoje. Se não fosse atriz de novela, me olhariam diferente na rua, ou quando entrasse em uma loja, por exemplo. Tenho uma postura de questionamento, consciente, de mulher preta que veio da comunidade. Me posiciono quando acho que algo não deve ser dito de alguma forma, por exemplo. Falo com o diretor quando acho determinado aspecto não é legal, do tipo chamar os negros da época de ‘escravos’, quando a palavra correta é ‘escravizados’. A ideia de raça para dominar também está contida aí. Se falamos que os negros eram escravos, era como se tivessem nascido assim, o que não foi o caso. Foram escravizados, algo cruel e não humano.

Como é ser mulher, negra e vinda de periferia na TV brasileira?

No início esse estereótipo acaba ficando na sua cabeça, até você ter o domínio de si mesma para entender que pode ser algo além de um estereótipo. Demora! Ser passista é uma arte e tem muitas que amam o que fazem, isso não é uma problemática. A questão é definir como se todas as mulheres negras, por nascerem na comunidade, fossem somente passistas. Fugi disso a partir do momento em que entendi quais histórias queria contar, e tive que ter muita paciência. Meus primeiros papéis foram como empregada e esperei até as pessoas me conhecerem para me levarem a sério e eu poder pedir o que queria. Eu pude fazer isso e sempre fui muito respeitada pelas pessoas que trabalham comigo. É claro que uma mulher nascida de comunidade não tem o mesmo espaço, óbvio, das atrizes brancas que ocupam lugar de protagonismo, e esse hoje é o meu objetivo. Quero poder interpretar qualquer personagem bom, independentemente da minha cor de pele, de onde nasci. É pra isso que eu batalho nos dias de hoje.

Você sofre com o racismo?

Hoje, com todas essas bandeiras, as pessoas estão mais conscientes sobre o que é o preconceito. Mas ainda é uma coisa muito enraizada. Eu já sofri preconceito. A gente sofre todos os dias, né? Dependendo do lugar que você está no dia, isso é muito corriqueiro. Realmente, nas redes sociais acontece muito, eu fico muito assustada. Ainda mais depois que eu tive filho, porque estamos no século 21. Todos têm acesso às redes sociais, independentemente da classe social. E, mesmo assim, com tanta evolução, a gente acaba andando para trás, isso me preocupa muito. Eu sempre corro atrás dos meus direitos, eu sempre vou batalhar por isso, levantar essa bandeira, pois, só quem sente as dores do preconceito racial, quem vive, quem passa por elas, sabe da importância de ter direitos. Eu estou nessa luta desde os meus antepassados, então é uma luta muito longa e eu não quero mais que seja. Minha luta vem mudando! Hoje eu quero protagonismo negro, quero protagonista em tudo.

Em “Dois + Dois”, a comédia tratava do universo swing. Na vida real, o que você acha disso?

Eu, Roberta, não consigo. Não evolui espiritualmente para isso. Não consigo me imaginar em uma relação aberta. Cada um tem a sua necessidade, cada um faz a sua escolha, e eu nem saberia viver esse tipo de relacionamento. Amo essa coisa de ter uma pessoa ali para você, com quem você possa compartilhar. Eu não sei se saberia compartilhar com duas, três, quatro pessoas, sabe? Tanto que eu sou uma pessoa que tenho pânico dessa questão da traição. Eu tenho sérios problemas quanto a isso e até brinco que tenho que me tratar. Mas é verdade… é uma coisa que muito me incomoda, muito me dói, me coloca em um lugar de descontrole.