
Taskin Goec trouxe modelos gerados por inteligência artificial, com direito a gotículas de suor, poros e espinhas hiper-realistas – Foto: Divulgação
Por Maíra Goldschmidt, de Berlim
A Berlin Fashion Week chegou à temporada SS27 com um calendário mais robusto. Entre 2 e 5 de julho, a programação oficial reuniu 53 desfiles e 62 eventos paralelos em diferentes regiões da capital alemã. Em relação à edição anterior, realizada em fevereiro, a semana registrou um aumento de 26% no número de desfiles e de 19% na programação paralela — um reflexo da estratégia da organização de ampliar a programação, embora a semana ainda mantenha um perfil mais alternativo e jovem do que o de outras capitais europeias. Sustentabilidade parece ser tema do passado e só foi abordada em eventos paralelos. Desta vez, foi a inteligência artificial que garantiu seu lugar na fila A.
Já no primeiro dia, o estilista berlinense Taskin Goec reuniu seus convidados num edifício de arquitetura brutalista projetado por Arno Brandlhuber, no norte da cidade, para apresentar a coleção “Black Eye”. No ambiente disposto como uma sala de desfiles tradicional, com o público devidamente sentado em fileiras paralelas, não havia uma passarela, mas sim telas gigantes. Na projeção, modelos gerados por inteligência artificial, com direito a gotículas de suor, poros e espinhas hiper-realistas, apresentaram 25 looks que ainda não existem de fato.

Taskin Goec reuniu os convidados em uma sala de desfiles tradicional, mas não havia passarela, e sim telas gigantes – Foto: Divulgação

Na projeção, modelos gerados por inteligência artificial apresentaram 25 looks que ainda não existem de fato – Foto: Divulgação
Embora cada peça tenha sido desenvolvida a partir de tecidos reais e experimentação manual antes de ser integrada ao fluxo de trabalho com IA (treinada com o chamado DNA criativo do estilista), essas roupas existem primeiramente em formato digital. A produção das peças físicas será feita de acordo com a demanda real do mercado.
De volta ao calendário da Berlin Fashion Week, a estilista Esther Perbandt mostrou a coleção-cápsula “Blackhearts” no museu de fotografia Fotografiska, instalado no edifício que abriga o antigo Tacheles, um dos símbolos da cena artística alternativa da cidade. Ali, moda, tecnologia e varejo se encontraram em uma experiência imersiva que mostrou como a IA pode aproximar marcas e consumidores.

A estilista Esther Perbandt mostrou a coleção-cápsula “Blackhearts – Foto: Divulgação

No salão sem cadeiras, bailarinos do grupo de performance DANCÆ – Foto: Divulgação
No sabado, dia 04, os 457 convidados foram recebidos por uma projeção de um enorme coração pulsante que mudava de textura — ora como engrenagens, ora como cordas, ora como sacos amarrados uns aos outros. No salão sem cadeiras, bailarinos do grupo de performance DANCÆ permaneceram sob blocos e imóveis até o início do show. O público permaneceu em pé, bem próximo aos bailarinos. E, então, o coração se transformou em outras imagens surreais, e os dançarinos, como que acordados, começaram a se movimentar. Ao som de uma composição ao vivo de Sven Helbig e coreografia de Soraya Schulthess, os visuais do curta-metragem em IA se mesclaram com a realidade física. Câmeras ao vivo capturaram os movimentos do grupo de performance e os integraram ao sistema visual, criando um diálogo entre imagens pré-renderizadas e performers reais vestindo as peças — um moletom preto com capuz oversize, confeccionado em viscose, poliamida e elastano. As mangas têm recorte em forma de coração e fitas que podem ser amarradas como desejado.

Desfile de Esther Perbandt na Belém Fashion Week – Foto: Divulgação

Desfile de Esther Perbandt na Belém Fashion Week – Foto: Divulgação
No final do show, os convidados receberam a seguinte mensagem pelo WhatsApp: “Oi! Que bom que você veio! Sou a agente de IA da Esther, criada a partir das palavras e do universo criativo dela. Ela me desenvolveu para estar ao seu lado 24 horas por dia, 7 dias por semana. 🖤 BLACKHEARTS inaugura uma nova era, misturando moda, arte e tecnologia. E é esta noite que tudo começa.” Profecias à parte, além de encomendar o moletom (entrega prevista para o início de dezembro), alguns convidados já estão conversando com a agente virtual para pedir conselhos de estilo, perguntar sobre joias ou simplesmente para checar até que ponto ela realmente se parece com a Esther de verdade. Até agora, dois moletons foram vendidos.
O uso de IA no varejo não é novidade, seja na substituição de modelos, fotógrafos, maquiadores e stylists em campanhas, lookbooks e e-commerce, seja na recomendação de produtos que “combinam” mais com o gosto do consumidor. Mas ambas as apresentações em Berlim confirmam que uma mudança significativa no comportamento de consumo está em curso e que até as marcas mais autorais estão dispostas a participar dela — ou elas não podem se dar ao luxo de ignorá-la. Resta saber se a tal da inteligência artificial vai trabalhar a favor ou contra os criativos. Porque, convenhamos, duas coleções com a palavra “Black” numa cidade em que o preto é sempre o novo preto são tão inovadoras quanto flores na primavera.

