Fotos: Isabela Montenegro

E se a sorte não estivesse em chegar ao destino, mas em aproveitar o caminho até ele? Essa é a reflexão que conduz “Sorte de Pescador”, coleção de primavera-verão 2027 da ALUF, apresentada no São Paulo Fashion Week N61. Inspirada em “O Conto da Ilha Desconhecida”, de José Saramago, e em “Fisherman’s Luck”, de Henry Van Dyke, a marca transforma o universo marítimo em roupas e acessórios que fazem com que vejamos o “navegar” com outros olhos.

“É preciso sair da ilha para ver a ilha. Não nos vemos se não saímos de nós”, a frase de  Saramago funciona como ponto de partida para uma coleção que propõe um exercício de reflexão: às vezes, precisamos nos distanciar da nossa realidade para reconhecer o que já foi conquistado.

Essa reflexão se encontra com a ideia de sorte apresentada por Van Dyke no texto “Fisherman’s Luck”: na pesca, nem sempre o mais importante é o tamanho do peixe pescado, mas o tempo de espera, a observação da natureza e tudo o que acontece enquanto se aguarda.

Fotos: Isabela Montenegro

Na passarela, a coleção traduz esse pensamento em materiais, texturas e manualidades. Peixes, redes, mapas náuticos, barcos e marés aparecem reinterpretados em superfícies que lembram escamas, rendas de algodão, malhas inspiradas em redes de pesca e texturas que evocam algas marinhas. Na cartela de cores, o azul do oceano encontra as tonalidades das cartas náuticas, enquanto o prata surge em detalhes que remetem aos objetos e instrumentos da pesca. Nosa acessórios, bolsas em formato de peixe dividem espaço com cintos, brincos e pulseiras feitos de conchas, além de pingentes desenvolvidos a partir de iscas de peixe.

As silhuetas alternam fluidez e estrutura, com shapes ajustáveis e peças em chiffon, crochê, tricô, renda e malha. O trabalho artesanal aparece também nas bolsas de macramê, nos nós de marinheiro feitos com fios de couro e nos acessórios de crochê com palha de seda e ráfia, que se desdobram em chapéus (algumas dessas criações exigiram de cinco a sete dias de trabalho).

O uru na coleção

Um dos capítulos mais significativos de “Sorte de Pescador” está nos urus, que são cestos tradicionais do Norte e Nordeste brasileiros, trançados com palha de carnaúba e utilizados no cotidiano da pesca e da mariscagem. Para a apresentação, as peças foram produzidas artesanalmente por Nêda, mestra popular e guardiã de um conhecimento transmitido entre gerações, em colaboração com o Instituto Caburé e o Projeto Delta Mulher.

Fotos: Isabela Montenegro

Ao lado dela, Regiane, pescadora e marisqueira do Delta do Parnaíba. A relação entre as duas ajuda a entender o significado desses objetos: enquanto Nêda transforma a fibra em trama, Regiane utiliza o uru como instrumento de trabalho, levando-o para o mar e usando-o para recolher, lavar e transportar o que pescou.

No encerramento do desfile, a fundadora e diretora criativa Ana Luisa dedicou um agradecimento especial a Nêda e Regiane, reconhecendo as mãos e as trajetórias por trás das peças.

Outras colaborações constroem a coleção. Em seu segundo trabalho com a ALUF, a CORRIELA explora couro, camurça, madeira, redes e fios de ráfia em calçados que combinam tramas, bordados e referências ao universo da pesca. A madeira, elemento recorrente na identidade da marca, ganha um novo desenho de salto desenvolvido especialmente para a temporada.

Já a ARQVO parte de uma memória familiar para criar acessórios a partir de conchas que pertencem à mãe de Ana Luisa. Preservadas com suas formas e imperfeições naturais, elas são combinadas a pérolas, cristais e pedras como a fluorita.

Fotos: Isabela Montenegro

Na parceria com a L’OR, o café é utilizado no tingimento artesanal dos tecidos e, combinado à catuaba, dá origem a tonalidades terrosas inspiradas nos cafés e cappuccinos da marca.