
Carolina Herrera – Foto: Getty Images
Nem todos sabem, e a própria Carolina Herrera nunca fez muita questão de enfatizar, mas a estilista nasceu em Caracas, na Venezuela, em 1939. Hoje, aos 87 anos, essa origem latino-americana ganha ainda mais relevo quando se observa a dimensão de sua trajetória na moda americana. Em um cenário político marcado por tensões recorrentes entre Estados Unidos e América Latina, soa quase irônico lembrar que Carolina Herrera se tornou um dos nomes mais associados ao vestir do poder em Washington, responsável por guarda-roupas de sucessivas primeiras-damas e por uma imagem de elegância institucional profundamente ligada à estética dos EUA.
Antes de se lançar como estilista, Carolina já era uma referência de estilo. Circulava entre Caracas, Nova York e Europa e figurava, ainda nos anos 1970, nas listas das mulheres mais bem vestidas do mundo. Sua formação estética veio do contato precoce com a alta-costura europeia, especialmente durante viagens a Paris com a avó, quando assistiu a desfiles de casas como Balenciaga e Dior. Esse repertório visual e cultural seria decisivo para a linguagem que desenvolveria mais tarde.

Carolina Herrera – Foto: Getty Images
Sua estreia oficial como designer aconteceu apenas em 1981, aos 42 anos, em Nova York, um dado frequentemente citado como exceção em um mercado que valoriza juventude e novidade. O primeiro desfile foi recebido com entusiasmo imediato. Ali estavam vestidos de noite de volumes precisos, saias amplas, ombros bem definidos e uma feminilidade estruturada que dialogava com o espírito da década, sem submissão total às tendências. Desde o início, Carolina deixou claro que sua moda não buscava ruptura, mas continuidade, refinamento e clareza.
Ao longo dos anos 1980 e 1990, seus desfiles tornaram-se presença constante e respeitada no calendário nova-iorquino. A estilista construiu uma assinatura baseada em alfaiataria limpa, vestidos de festa monumentais, uso recorrente de tafetá, organza e seda, além de uma cartela de cores precisa, com destaque para branco, preto, vermelho e tons joia. A camisa branca, reinterpretada inúmeras vezes, transformou-se em símbolo de sua estética e de sua própria imagem pública.
Carolina Herrera vestiu algumas das mulheres mais fotografadas e influentes do mundo. Jacqueline Kennedy Onassis foi uma das primeiras e mais emblemáticas clientes, consolidando a associação de seu trabalho com elegância política e discrição sofisticada. Depois vieram Laura Bush, Michelle Obama e Melania Trump, além de atrizes, editoras de moda, socialites e membros da realeza internacional. Seus vestidos de gala marcaram bailes beneficentes, posses presidenciais e tapetes vermelhos, sempre sem disputar atenção com o evento em si.
Paralelamente ao prêt-à-porter, seu nome ganhou força no universo da perfumaria a partir de 1988, setor em que obteve enorme sucesso comercial e ampliou seu alcance global. Essa expansão permitiu que sua casa atravessasse décadas mantendo relevância, mesmo diante das profundas transformações do sistema da moda.
Em 2018, Carolina Herrera anunciou sua saída do cargo de diretora criativa da marca que leva seu nome, encerrando uma era de quase quatro décadas à frente da criação. Sua sucessão ficou a cargo de Wes Gordon, estilista americano formado pela Parsons e com passagens por casas como Oscar de la Renta. A transição foi cuidadosamente planejada, com Carolina permanecendo como embaixadora global e referência simbólica de seus valores.

Carolina Herrera – Foto: Getty Images
Sob a direção de Gordon, o trabalho passou por um processo de rejuvenescimento estético, com maior atenção à diversidade, à inclusão e a uma sensualidade mais explícita, sem abandonar completamente os códigos clássicos estabelecidos por sua fundadora. O contraste entre as duas fases é evidente e frequentemente debatido pela crítica, especialmente na relação entre tradição e contemporaneidade.
Ao longo da carreira, Carolina Herrera também esteve no centro de polêmicas ao expressar opiniões diretas sobre comportamento, moda e envelhecimento. Declarações como a de que mulheres não deveriam usar minissaia ou cabelo comprido após certa idade provocaram debates intensos sobre etarismo, liberdade feminina e padrões de elegância. Para alguns, tratava-se de uma visão pessoal coerente com sua estética. Para outros, uma postura conservadora em desacordo com os tempos atuais.
Ainda assim, seu legado permanece incontestável. Carolina Herrera construiu uma obra baseada em consistência, clareza estética e profundo entendimento do vestir como linguagem social. Sua moda nunca pretendeu ser revolucionária, mas tornou-se duradoura. Entre Caracas, Nova York e o mundo, ela transformou elegância em método e o método em uma das trajetórias mais sólidas da moda contemporânea.

