Foto: reprodução
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Por Luigi Torre

Clássicos não desaparecem, atualizam-se. E a camisa branca é a mais recente prova disso. Neste início de temporada, a peça chega nas mais diversas formas – e todas bem longe de seus moldes tradicionais. Como os modelos que substituem botões por amarrações; golas por laços; e o tradicional algodão por plástico. Ou, então, versões alongadas, encurtadas, envelopadas e até amarradas no corpo. Tem também aquelas com mangas infladas, as desconstruídas, as oversized e as cropped ou de proporções reduzidas. E já com alto índice de aceitação, como prova o street style ao redor das principais semanas de moda do planeta.

O sucesso e as propostas já são tantos que o e-commerce Net- a-Porter lançou, há pouco tempo, seção dedicada exclusivamente aos mil e um tipos de camisas que cruzaram as passarelas internacionais. São modelos como as de manga bufante, da Fendi; as acinturadas e com mangas tulipa, da Céline; as de jeans, de Stella McCartney; as artsy oversized, de Christopher Kane; as versões híbridas com batas, de Michael Kors; e as quase surrealistas, de Jacquemus.

Estes dois últimos, aliás, dedicaram suas coleções de verão 2016 a estudos sobre camisaria. Kors imprimiu sobre elas a sensação de conforto, relaxamento e escapismo, que marcou a mais recente temporada de desfiles. Ampliou modelagens, trabalhou com tecidos mais leves e aplicou ajustes com amarrações para tirar qualquer resquício de roupa de trabalho da icônica camisa branca. Jacquemus, por outro lado, desconstruiu e reconstruiu a peça quase como um jogo infantil, repleto de recortes geométricos coloridos. Repuxou, torceu, recortou, encurtou e estendeu a peça.

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Nas coleções nacionais não foi diferente. Vitorino Campos, por exemplo, fez da camisaria um de seus principais pilares como estilista da Animale. Depois dos modelos alongados e esvoaçantes de suas duas primeiras coleções, as do inverno 2016 (sua terceira para a grife carioca) chegam quase tradicionais, não fossem os sensuais e profundos decotes, ou com proporções ampliadas e estampas lúdicas. Juliana Jabour, por outro lado, olhou para os anos 1980 para reinterpretar este clássico do guarda-roupa. Foi inspirada pela androginia dos New Romantic, com seus camisões de mangas infladas e maxilaços na gola, que renovou seu repertório de maneira consistente e desejável.

Luiz Cláudio, da Apartamento 03, usou referências similares para falar de tema quente para os dias de hoje: a ausência de definição precisa entre os gêneros. E a camisa exerce tal função como poucas peças. Originalmente masculina, migrou para o guarda-roupa feminino e hoje veste ambos os sexos sem distinção.

Os novos modelos têm também conexão direta com o atual momento em que a moda se encontra: uma espécie de limbo criativo entre a apatia extrema do neominimalismo e as manifestações excêntricas de variados estilos adeptos do mais é mais. Com novos tecidos, alterações nas modelagens e proporções, caem num delicado ponto de equilíbrio entre as duas vertentes. É verdadeira e poderosa união entre o familiar e o inovador.