Foto: Luiza Maraschin

Por Eduardo Viveiros

O estilista paulista Lucas Danuello é um tipo de personagem que anda raro nesses tempos de mercado de moda que vem se agarrando a um realismo cínico. Idealista, se propõe a repensar o uso da imagem de moda como expressão pessoal e orgânica, seja dentro da sua marca,
Greg Joey, ou no próprio visual, um tanto mutante-chique.

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“Sempre quis ser diferente dos outros. Me irrita esse negócio de todo mundo querer ser muito igual ao outro, se vestir igual. Acho isso uma perda de tempo”, reflete, contando, em entrevista à Bazaar, sobre sua relação com a moda, que vem libertária desde a vida em Bauru, no interior de São Paulo. “Tive, já dentro de casa, essa coisa de não me prender a um gênero de vestir. Minha mãe usava as roupas do meu pai, ele pegava as chemises dela. Então, para mim, é uma coisa muito natural, sempre gostei desse momento de me expressar. Realmente, não quero ser igual a ninguém, uso tudo o que tenho.”

Esse jeito caótico de se relacionar com as roupas e com o visual desembarcaram na Greg Joey, lançada há menos de dois anos. O nome é inspirado em uma sex tape amadora com dois rapazes que “viralizou” pelos correios nos anos 1990, e se tornou objeto cult entre colecionadores, com pouquíssima informação sobre sua origem. Uma estranheza que alimenta uma marca que também investe numa aura mezzo cult mezzo luxuosa, com roupas para pessoas – não para gêneros.

“Vestir a mesma roupa no homem e na mulher não é tão banal como muita gente diz por aí, tem de ir muito além de fazer camiseta e moletom. Por isso, tento propor formas novas, fazer uma roupa ímpar, que funcione para ambos os públicos”, explica Danuello, que vende na Cartel 011, em São Paulo, e na carioca Dona Coisa, além do site da marca.

O resultado prático é de roupas amplas, de modelagem cuidadosa e sempre com tecidos naturais, alimentando um público que está de olho no que a moda dos anos 2020 pode produzir de moderno.

Foto: Luiza Maraschin

Essa progressão não foi natural. Lucas mudou-se do interior para São Paulo a fim de estudar na Santa Marcelina, faculdade onde se formou em 2016 e que serviu como um caldeirão para ferver suas vontades de criação de moda enquanto imagem. A vida real, porém, foi um tanto mais árida.

Fora do ambiente acadêmico, percebeu que suas aspirações não ressoavam muito com o mercado de trabalho. “Não acredito nessa roupa construída de forma tão mecânica da indústria, gosto de ter contato com as pessoas com quem trabalho durante o processo de criação”, pontua.

Tanto que se distanciou da moda e foi trabalhar no mundo das artes plásticas, dentro da Galeria Rabieh, processo que ajudou a formatar a cabeça de criador. O “retorno” à moda, além da vontade própria, veio também por insistência da BFF de Lucas, Rafaella Caniello, da Neriage.

A nova coleção, oficialmente a quarta, repete um padrão: temas muito pessoais que ganham um escape de cura no processo. Dessa vez, como define, fala “sobre mortalidade, saudade, tempo. De como as coisas são efêmeras e qual o propósito da gente na existência”. Dentro disso, foi
se desdobrando em plissados e nervuras, uma cartela de cores que oscila como o humor e simbologias nos tecidos: os leves, como o chiffon de seda, representam a aura; enquanto os mais pesados são os corpos físicos.

As estampas reúnem cartas trocadas pelos pais apaixonados na Itália e retratos da avó e do avô de Lucas – este último, falecido no momento
que o estilista apresentava seu trabalho final na faculdade.

Tanta carga íntima e um jeito conturbado de se expressar visualmente dão à Greg Joey um cantinho especial e interessante na moda – e no guarda-roupa de quem estiver a fim de quebrar um pouco as velhas regras. “Sempre gostei de fazer as pessoas pensarem. Se vestir é
comunicar para o mundo de onde você veio, para onde quer ir. As pessoas não têm muito essa preocupação, gostaria que tivessem mais”, diz, esperançoso.