Foto: Reprodução/Instagram @loewe

Aos 90 anos, Joan Jonas segue explorando as possibilidades da imagem, do corpo e do movimento. Pioneira da videoarte e da performance, a artista americana é um dos nomes fundamentais da arte contemporânea desde o fim dos anos 1960. Agora, ela estrela a nova campanha da LOEWE com a On, ao lado da artista Martine Syms e do músico e artista sonoro Tarek Atoui. Fotografada por Rosie Marks, a campanha acompanha os três em ambientes que atravessam suas práticas criativas, da cidade à natureza, com o movimento como ponto de partida.

Para Jonas, a paisagem nunca foi apenas cenário. O vento, os animais, os objetos, os gestos e as histórias que circulam entre diferentes culturas são parte de uma investigação artística que não se limita a uma linguagem. A colaboração com as marcas, portanto, encontra um ponto de conexão em sua obra: a possibilidade de pensar o corpo em relação ao espaço, explorando como nos movemos, percebemos o mundo e nos apresentamos a ele.

É também nesse território que sua produção encontra afinidades com a moda. Máscaras, figurinos, acessórios, espelhos e gestos coreografados aparecem em seus trabalhos como ferramentas para investigar identidade, representação e feminilidade, ajudando a construir personagens, alterar percepções e transformar o corpo em uma imagem em constante movimento.

Uma das pioneiras da videoarte

Nascida em Nova York, em 1936, Joan Jonas estudou história da arte no Mount Holyoke College e escultura na School of the Museum of Fine Arts, em Boston, antes de concluir seu mestrado em escultura na Universidade Columbia, em 1965. Sua formação inicial ajuda a entender o interesse pelo espaço tridimensional, mas foi o contato com a cena experimental nova-iorquina dos anos 1960 que ampliou os caminhos de sua pesquisa. Em meio a artistas visuais, músicos, dançarinos e coreógrafos, Jonas passou a investigar o que acontecia quando o corpo deixava de ser apenas objeto de representação e se tornava parte ativa da obra.

No fim daquela década, a artista começou a desenvolver performances que exploravam espelhos, movimentos e a relação entre quem observa e quem é observado. Em Mirror Pieces, série iniciada em 1969, performers manipulavam espelhos diante do público, incorporando os próprios espectadores às composições. O recurso parecia simples, mas provocava uma inversão interessante: de repente, olhar para uma obra também significava encarar a própria imagem.

A investigação ganhou outra dimensão em 1970, quando Jonas comprou uma câmera de vídeo durante uma viagem ao Japão. A tecnologia portátil abriu novas possibilidades para sua produção e, em 1972, ela criou “Organic Honey’s Visual Telepathy”, um trabalho considerado fundamental para a aproximação entre vídeo e performance. Nele, a artista assumia Organic Honey, uma espécie de alter ego que combinava máscaras, adereços e códigos visuais associados à feminilidade.

O personagem permitia que Jonas investigasse como as mulheres são representadas e como a tecnologia interfere na construção da identidade. A câmera não era apenas um instrumento para registrar o que acontecia diante dela: também alterava a ação, criava outras perspectivas e colocava em dúvida a ideia de uma imagem única e definitiva.

Essa pesquisa continuou em “Vertical Roll” (1972), no qual a imagem da artista aparece fragmentada pelo movimento de uma faixa preta na tela. O corpo surge em flashes, acompanhado por gestos e sons que reforçam o ritmo da sequência. O resultado aproxima performance, vídeo e experimentação sonora, antecipando discussões sobre autorrepresentação e cultura das telas que continuam relevantes décadas depois.

Foto: Reprodução/Instagram @loewe

Entre mitologia, máscaras e figurinos

O universo de Jonas é povoado por referências ao teatro, ao cinema experimental, à literatura e às tradições orais. Máscaras, espelhos, bonecas, penas e outros objetos recorrentes funcionam como extensões do corpo, mas também como instrumentos de transformação. Um acessório pode esconder um rosto, criar uma personagem ou deslocar o significado de um gesto. O figurino, por sua vez, participa ativamente da construção de cada performance.

É uma abordagem que permite estabelecer conexões com a moda sem reduzir a obra da artista a uma questão de estética. Em seu trabalho, vestir-se envolve experimentar identidades, brincar com convenções de gênero e questionar a maneira como uma imagem é construída. O interesse está tanto na roupa quanto naquilo que ela faz com o corpo e com o olhar de quem assiste.

A relação com a mitologia também ocupa um lugar central nessa trajetória. Jonas frequentemente parte de lendas, contos populares e textos literários para criar narrativas fragmentadas, nas quais imagens, sons e movimentos têm a mesma importância das palavras. Em vez de simplesmente ilustrar uma história, ela a desmonta e reconstrói, abrindo espaço para outras interpretações, especialmente em torno das personagens femininas.

Essa mistura de referências e linguagens é uma das marcas de sua produção. Desenho, escultura, instalação, vídeo e performance convivem em trabalhos que podem ser apresentados de diferentes maneiras e continuar mudando ao longo do tempo. Uma obra realizada décadas atrás pode reaparecer em uma instalação recente, combinada a novas imagens, objetos ou trilhas sonoras.

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A amizade artística com Tilda Swinton

Entre as colaborações que atravessam o universo de Jonas está sua parceria com Tilda Swinton, atriz conhecida por transitar entre o cinema autoral, a experimentação e personagens que desafiam convenções. As duas trabalharam juntas em “Volcano Saga”, obra concebida por Jonas em 1985 e transformada em vídeo em 1989, na qual Swinton interpreta Gudrun, protagonista de uma lenda islandesa medieval. O ator Ron Vawter também participa do trabalho.

Na obra, a personagem é assombrada por sonhos misteriosos que precisam ser interpretados por um adivinho. Jonas sobrepõe as imagens dos atores às paisagens da Islândia, fazendo com que o cenário natural adquira uma presença quase tão importante quanto a dos próprios personagens. O resultado mistura narrativa, performance e experimentação visual para criar uma atmosfera entre o mítico e o onírico.

Foto: Divulgação

A colaboração evidencia afinidades entre as pesquisas das duas artistas: o interesse por personagens que escapam de definições convencionais, pela transformação do corpo e pelas possibilidades de contar histórias fora das estruturas tradicionais. A presença de Swinton funciona como parte de uma experiência que aproxima cinema e artes visuais.

 

Foto: Reprodução/Instagram @loewe

Da música à natureza: uma obra em constante movimento

A música também tem papel importante na produção de Jonas. Desde o início de sua carreira, a artista se aproximou de compositores, músicos e coreógrafos que ajudaram a expandir sua compreensão de ritmo, som e movimento. Em suas obras, o áudio pode funcionar como contraponto às imagens, modificar a percepção do espaço ou criar uma atmosfera que não depende de uma narrativa linear.

Um exemplo é “Reanimation”, projeto iniciado em 2010 e desenvolvido em diferentes versões, que combina vídeos, desenhos, performance e uma trilha do pianista e compositor de jazz Jason Moran. Inspirada, entre outras referências, pela literatura do escritor islandês Halldór Laxness, a obra apresenta paisagens geladas e animais em uma reflexão sobre o mundo natural e sua fragilidade diante das transformações ambientais.

A natureza, aliás, acompanha Jonas desde os primeiros trabalhos. Ao longo dos anos, seu olhar se deslocou cada vez mais da própria imagem para os ambientes, as espécies e as relações que formam os ecossistemas. Em projetos como “Moving Off the Land”, dedicado ao universo marinho, imagens subaquáticas e referências a diferentes culturas ajudam a discutir a vida nos oceanos e a relação humana com outras espécies.

Essa atenção à paisagem também explica a conexão com a campanha da LOEWE e da On. Ao falar sobre sua relação com os ambientes naturais, Jonas já resumiu sua abordagem em uma frase que traduz bem a dimensão física de sua prática: “Não sou dançarina, mas me movimento”. 

Mais de cinco décadas depois de seus primeiros experimentos com câmeras portáteis e performances ao vivo, Jonas continua trabalhando com essa mesma curiosidade. m 2020, inclusive, Joan Jonas teve sua primeira exposição individual no Brasil, Joan Jonas: Cinco Décadas, na Pina Estação, em São Paulo. Organizada pela Pinacoteca, a mostra reuniu 11 obras que percorriam cinco décadas de sua trajetória, incluindo vídeos históricos e instalações que ajudam a compreender a dimensão de sua pesquisa artística.


Em 2015, representou os Estados Unidos na Bienal de Veneza; em 2018, recebeu o Kyoto Prize na categoria de artes e filosofia. Sua obra também foi celebrada pela retrospectiva “
Joan Jonas: Good Night Good Morning”, apresentada pelo Museum of Modern Art, em Nova York, em 2024. 

Na campanha, sua presença reforça uma ideia que atravessa toda a sua carreira: o movimento pode ser uma forma de pensar, o corpo pode ser um lugar de experimentação e uma imagem nunca precisa permanecer estática.