
Luisa Matsushita veste Gustavo Silvestre na capa de agosto da Harper’s BAZAAR Brasil.Foto: Guilherme Nabhan, styling: Dudu Bertholini, direção criativa: Kleber Matheus, beleza: Ivan Barria, set design: Luca da Cruz, direção de arte: Yasmin Klein, retoque: Angélica Marinacci, produção executiva: Zuca Hub, produtora responsável: Claudia Nunes, produção de arte: Thayná Carvalho, produção de moda: Laura Cavalcante e Luana de França, assistentes de styling: Laura Cavalcante e Manuela Toledo, assistentes de foto: Nicole Riotto e Victoria Cavalcante, assistente de beleza: Danni Quess, assistente de set design: Felipe Nassar, assistente de produção: Leandro Gomes, contrarregra: Gilberto Oliveira, camareira: Priscila Dreger.
Por Eduardo Viveiros
Antes de entrar no ateliê de Luísa Matsushita, na Zona Oeste de São Paulo, cabe uma advertência: não espere encontrar ali, entre telas imensas e bisnagas de tinta acumuladas, a Lovefoxxx que a memória coletiva pode insistir em procurar. Ou melhor, conte em encontrá-la também.
Aos 42 anos, Luísa entende cada vez mais que não precisa separar suas versões. A vocalista do Cansei de Ser Sexy, a garota espevitada que atravessou os anos 2000 com um dos rostos mais reconhecíveis do indie pop brasileiro, a pesquisadora de agroecologia que fazia stories construindo casas e fossas, a DJ estudiosa e a artista visual que hoje ocupa o Teatro Cultura Artística: são todas a mesma pessoa.

Luísa Matsushita usa camiseta Paula Raia, luvas vermelhas À La Garçonne, luvas amarelas Augusto Paz e escultura vestível Gui Mauad – Foto: Guilherme Nabhan, styling: Dudu Bertholini, direção criativa: Kleber Matheus, beleza: Ivan Barria, set design: Luca da Cruz, direção de arte: Yasmin Klein, retoque: Angélica Marinacci, produção executiva: Zuca Hub, produtora responsável: Claudia Nunes, produção de arte: Thayná Carvalho, produção de moda: Laura Cavalcante e Luana de França, assistentes de styling: Laura Cavalcante e Manuela Toledo, assistentes de foto: Nicole Riotto e Victoria Cavalcante, assistente de beleza: Danni Quess, assistente de set design: Felipe Nassar, assistente de produção: Leandro Gomes, contrarregra: Gilberto Oliveira, camareira: Priscila Dreger.
É justamente essa recusa em transformar a própria trajetória em uma sequência de recomeços que torna seu trabalho tão interessante. “As pessoas talvez achem que virei pintora, mas isso sempre foi o que eu quis fazer”, conta, desmontando a narrativa confortável da reinvenção. Para ela, esta não é uma segunda carreira: é um impulso antigo que demorou décadas para encontrar as condições certas de existir.
Luísa fala da idade sem qualquer drama. Pelo contrário. “Na arte, uma mulher envelhecer não é a pior coisa que pode acontecer.” Para quem esperou décadas até assumir a pintura como centro da própria vida, o tempo deixou de ser um adversário. “É uma carreira em que posso envelhecer em paz — e o meu trabalho não envelhece junto.”

Luísa Matsushita usa vestido Argalji – Foto: Guilherme Nabhan, styling: Dudu Bertholini, direção criativa: Kleber Matheus, beleza: Ivan Barria, set design: Luca da Cruz, direção de arte: Yasmin Klein, retoque: Angélica Marinacci, produção executiva: Zuca Hub, produtora responsável: Claudia Nunes, produção de arte: Thayná Carvalho, produção de moda: Laura Cavalcante e Luana de França, assistentes de styling: Laura Cavalcante e Manuela Toledo, assistentes de foto: Nicole Riotto e Victoria Cavalcante, assistente de beleza: Danni Quess, assistente de set design: Felipe Nassar, assistente de produção: Leandro Gomes, contrarregra: Gilberto Oliveira, camareira: Priscila Dreger.
Ele ganha a sua maior escala na individual Tudo que eu sei, eu aprendi à noite, primeira mostra da plataforma ABERTO Solo que inaugura também o espaço expositivo do Cultura Artística. Concebida especialmente para o edifício modernista de Rino Levi, a mostra reúne pinturas inéditas inspiradas pelas memórias afetivas de Luísa, dos seus rodopios pelos perigos noturnos desde que se mudou para a capital paulistana, sozinha, aos 16 anos.
O título da expo é uma pista. A noite de Luísa (que, hoje, na vida de pintora, casada e mãe de três gatos, dorme cedo) não é exatamente a da nostalgia. Ela fala menos das festas do que dos intervalos: sempre preferiu a montação antes de sair, a expectativa, a caminhada de volta e as ideias que surgiam quando a cidade ainda estava acordando. “Percebi que o que mais me interessa são esses momentos ‘entre’”, filosofa enquanto folheia o caderno em que rascunha as suas pinturas. Tanto que uma delas se chama Antes da Noite. Essa percepção aparece nas telas como composições vibrantes, em que formas orgânicas e campos de cor parecem encontrar um raro estado de equilíbrio – talvez a paz que ela própria admite buscar para compensar uma personalidade naturalmente ansiosa.

Luísa Matsushita usa body UV Line, bota Okoko & Abel e chapéu Augusto Paz – Foto: Guilherme Nabhan, styling: Dudu Bertholini, direção criativa: Kleber Matheus, beleza: Ivan Barria, set design: Luca da Cruz, direção de arte: Yasmin Klein, retoque: Angélica Marinacci, produção executiva: Zuca Hub, produtora responsável: Claudia Nunes, produção de arte: Thayná Carvalho, produção de moda: Laura Cavalcante e Luana de França, assistentes de styling: Laura Cavalcante e Manuela Toledo, assistentes de foto: Nicole Riotto e Victoria Cavalcante, assistente de beleza: Danni Quess, assistente de set design: Felipe Nassar, assistente de produção: Leandro Gomes, contrarregra: Gilberto Oliveira, camareira: Priscila Dreger.
Há algo quase paradoxal no seu método. Quem observa a espontaneidade com que ela fala, pode imaginar que a pintura de Luísa é intuitiva. Mas ela nasce no papel (“enquanto eu tomo pelo menos uma xícara de café, pela manhã, estou desenhando”) antes de migrar para as telas, não raro, com uma altura parecida com a sua (”gosto dessa escala de 1m60, que parece um portalzinho”, sorri). Cada tela tem estudos de cor, calibrações digitais, experimentos com saturação e uma obsessão quase artesanal pela superfície que parece aveludada na diluição da tinta e nas pinceladas penteadas. O gesto pode parecer livre, mas a construção é minuciosa (e merece ser observada de perto, especialmente na intersecção das cores).
Essa disciplina foi elaborada nas artes visuais, mas, de certa forma, veio antes, da música. Ao lembrar dos anos de CSS, ela dá mais importância ao aprendizado do que à fama. Diz que nunca sonhou em viver como cantora e, sem vaidade, reconhece que sua força nunca esteve na técnica vocal, mas na presença de frontwoman. “Eu gosto de estar no palco. Mas, hoje em dia, prefiro estar aqui”, relembra.

Luísa Matsushita usa vestido Normando – Foto: Guilherme Nabhan, styling: Dudu Bertholini, direção criativa: Kleber Matheus, beleza: Ivan Barria, set design: Luca da Cruz, direção de arte: Yasmin Klein, retoque: Angélica Marinacci, produção executiva: Zuca Hub, produtora responsável: Claudia Nunes, produção de arte: Thayná Carvalho, produção de moda: Laura Cavalcante e Luana de França, assistentes de styling: Laura Cavalcante e Manuela Toledo, assistentes de foto: Nicole Riotto e Victoria Cavalcante, assistente de beleza: Danni Quess, assistente de set design: Felipe Nassar, assistente de produção: Leandro Gomes, contrarregra: Gilberto Oliveira, camareira: Priscila Dreger.
Curiosamente, enxerga o período como uma escola de composição que afetou sua pintura. Ali, compreendeu mais sobre ritmo, edição, silêncio e consciência do que quer falar. “Eu sentia que precisava mostrar trabalho o tempo inteiro, então as minhas letras eram imensas”, diverte-se. “Eu era incapaz de editar e ter espaços negativos.” Na pintura, decidiu fazer o contrário: aprendeu que os vazios também dizem alguma coisa.
Talvez por isso, sua trajetória não caiba na lógica linear das biografias. Entre a banda e as galerias, houve estudos de bioconstrução, agroecologia, arquitetura sustentável, temporadas de voluntariado e uma investigação profunda sobre formas alternativas de viver. Entre altos e baixos, ela fala desses desvios sem romantização. Parecem menos fugas do que exercícios de curiosidade. “Eu sempre faço as coisas de uma vez só”, resume, recorrendo à expressão em inglês que durante anos usou como senha do e-mail: jumping off head first.

Luísa Matsushita usa vestido À La Garçonne e bota Okoko & Abel – Foto: Guilherme Nabhan, styling: Dudu Bertholini, direção criativa: Kleber Matheus, beleza: Ivan Barria, set design: Luca da Cruz, direção de arte: Yasmin Klein, retoque: Angélica Marinacci, produção executiva: Zuca Hub, produtora responsável: Claudia Nunes, produção de arte: Thayná Carvalho, produção de moda: Laura Cavalcante e Luana de França, assistentes de styling: Laura Cavalcante e Manuela Toledo, assistentes de foto: Nicole Riotto e Victoria Cavalcante, assistente de beleza: Danni Quess, assistente de set design: Felipe Nassar, assistente de produção: Leandro Gomes, contrarregra: Gilberto Oliveira, camareira: Priscila Dreger.
Essa disposição para o salto aparece também na forma como encarou o sistema da arte. Quando captou que podia se dedicar à vontade à pintura, em epifania na virada dos 30 anos, Luísa carregava o peso autoimposto de não ter uma formação acadêmica no assunto. Participou de grupos de acompanhamento, conviveu com artistas de sua geração e não nega as mil inseguranças do processo. Até perceber que havia apenas uma estratégia possível. “Percebi que tinha que produzir e produzir. Se o trabalho for bom o suficiente, alguém virá”, lembra. E vieram.
Hoje representada pela Mazzucchelli Cardoso, depois de uma primeira individual na Luisa Strina, em 2023, ela chega ao Cultura Artística ocupando um espaço carregado de simbolismo. O teatro, reconstruído após o incêndio de 2008 e reaberto em 2024, abraça finalmente as artes visuais de forma permanente, retomando uma ala que estava no projeto dos anos 1950 e nunca foi ocupada por essa vocação.

Luísa Matsushita usa full look Piesse – Foto: Guilherme Nabhan, styling: Dudu Bertholini, direção criativa: Kleber Matheus, beleza: Ivan Barria, set design: Luca da Cruz, direção de arte: Yasmin Klein, retoque: Angélica Marinacci, produção executiva: Zuca Hub, produtora responsável: Claudia Nunes, produção de arte: Thayná Carvalho, produção de moda: Laura Cavalcante e Luana de França, assistentes de styling: Laura Cavalcante e Manuela Toledo, assistentes de foto: Nicole Riotto e Victoria Cavalcante, assistente de beleza: Danni Quess, assistente de set design: Felipe Nassar, assistente de produção: Leandro Gomes, contrarregra: Gilberto Oliveira, camareira: Priscila Dreger.
As três cores que dominam o prédio — o azul da entrada, o amarelo do salão principal e o verde do mezanino — reaparecem nas telas de Luísa, assim como as materialidades do edifício viram referência de texturas sutis. Mas é curioso que, entre todas as obras da exposição, uma das intervenções mais discretas é também a mais reveladora. No foyer, uma mensagem aparecerá apenas para quem olhar com atenção o reflexo no chão do espaço.

Luísa Matsushita usa macacão Lenny Niemeyer – Foto: Guilherme Nabhan, styling: Dudu Bertholini, direção criativa: Kleber Matheus, beleza: Ivan Barria, set design: Luca da Cruz, direção de arte: Yasmin Klein, retoque: Angélica Marinacci, produção executiva: Zuca Hub, produtora responsável: Claudia Nunes, produção de arte: Thayná Carvalho, produção de moda: Laura Cavalcante e Luana de França, assistentes de styling: Laura Cavalcante e Manuela Toledo, assistentes de foto: Nicole Riotto e Victoria Cavalcante, assistente de beleza: Danni Quess, assistente de set design: Felipe Nassar, assistente de produção: Leandro Gomes, contrarregra: Gilberto Oliveira, camareira: Priscila Dreger.
Sem spoilers, Luísa diz que o recado é para pessoas que são como ela quando chegou a São Paulo. Seu primeiro apartamento era na rua Augusta, anos antes da gentrificação cultural que remexeu a área. Morava a poucos metros do Cultura Artística, um lugar em que ela não entrava. Agora, busca algo simples: “quero muito que essas pessoas, que talvez se intimidem por espaços assim, sintam-se pertencentes”.

Foto: Guilherme Nabhan, styling: Dudu Bertholini, direção criativa: Kleber Matheus, beleza: Ivan Barria, set design: Luca da Cruz, direção de arte: Yasmin Klein, retoque: Angélica Marinacci, produção executiva: Zuca Hub, produtora responsável: Claudia Nunes, produção de arte: Thayná Carvalho, produção de moda: Laura Cavalcante e Luana de França, assistentes de styling: Laura Cavalcante e Manuela Toledo, assistentes de foto: Nicole Riotto e Victoria Cavalcante, assistente de beleza: Danni Quess, assistente de set design: Felipe Nassar, assistente de produção: Leandro Gomes, contrarregra: Gilberto Oliveira, camareira: Priscila Dreger.
No fim, talvez seja essa a verdadeira história de Luísa Matsushita. Não a de uma popstar que virou artista visual, mas a de alguém que levou décadas para alcançar o lugar em que sempre quis estar. Como ela mesma resume: “só eu sei o quanto demorei para chegar aqui”.

Luísa Matsushita usa vestido Gustavo Silvestre e sapato Ferragamo – Foto: Guilherme Nabhan, styling: Dudu Bertholini, direção criativa: Kleber Matheus, beleza: Ivan Barria, set design: Luca da Cruz, direção de arte: Yasmin Klein, retoque: Angélica Marinacci, produção executiva: Zuca Hub, produtora responsável: Claudia Nunes, produção de arte: Thayná Carvalho, produção de moda: Laura Cavalcante e Luana de França, assistentes de styling: Laura Cavalcante e Manuela Toledo, assistentes de foto: Nicole Riotto e Victoria Cavalcante, assistente de beleza: Danni Quess, assistente de set design: Felipe Nassar, assistente de produção: Leandro Gomes, contrarregra: Gilberto Oliveira, camareira: Priscila Dreger.

