DIY COM SOFISTICAÇÃO E ENGAJAMENTO
É uma característica recorrente entre as marcas mais novas – e que fazem o maior barulho atualmente: focar menos em narrativas e mais na roupa propriamente dita. É o discurso, por exemplo, de Demna Gvasalia, à frente da Vetements e da Balenciaga. Segundo ele, suas coleções são sempre estudos sobre os itens que queremos usar agora e como eles podem ser transformados ou melhorados. É com esse mesmo pensamento que a dupla Mike Eckhaus e Zoe Latta, da Eckhaus Latta, apresenta seu verão 2017 – uma coleção bem mais polida e sofisticada do que as anteriores, mas não sem aquela atitude irreverente, quase DIY. Agora, há maior atenção aos acabamentos e modelagens, maior cuidado na escolha e manuseio de tecidos e um estudo maior em como desconstruir as peças. Exemplos ficam nos ótimos jeans, no conjunto de saias e jaqueta oversized que abrem o desfile e nos moletons com frases bordadas junto a camisas desconstruídas.

Resumidamente, há uma maior consciência comercial – o que não anula em nada a atitude e mensagem irreverente, por vezes até política. Não custa lembrar que o desfile aconteceu no meio de um parque, numa tarde de sábado. Os modelos eram amigos da marca, com tipos físicos e idades diversas – inclusão, como se sabe, é tópico quente no mundo todo. E com roupas que agradam gostos dos mais básicos aos mais ousados, a mensagem está mais do que clara.

Shayne Oliver, da Hood by Air, parece pensar do mesmo jeito. A questão central de suas coleções é o desconforto – estético e físico –, traduzido em modelagens e construções que alteram nossa percepção sobre o corpo humano e até o modo como ele se relaciona com o ambiente (restringindo movimentos, por exemplo). Nesta coleção, isso vem aliado a todo um contexto sexual e atitudes que desafiam os ditos bons costumes. Exemplos mais óbvios, como as estampas “Hustler”, “Wench”, “Never Trust A Church Girl”, dão conta desse bem-vindo mal-comportamento libertário, mas o que fará a mensagem se propagar de maneira amplificada são os básicos revisitados, como as camisas com ombros desfeitos, as polo e calças decoradas com zíperes. Roupas mais comerciais do que de costume, é fato, mas não menos carregadas de atitude política.

Qualidade esta, aliás, que deu o tom à apresentação de inverno 2016 da Opening Ceremony. Num misto de concurso de beleza politizado, a marca aproveitou os ânimos acalorados de campanha eleitoral nos EUA para comunicar algumas questões pertinentes ao momento: igualdade de gênero e raça, liberdade de expressão, consciência ambiental, imigração e inclusão social. Tudo embalado por discursos de celebridades amigas da etiqueta, como Carrie Brownstein, Fred Armisen, Whoopi Goldberg, Aidy Bryant, e a ativista LGBT Sarah McBride. E discursos tão quentes que quase ofuscaram as roupas, deixadas aqui em segundo plano, ou melhor, como plataforma de comunicação.

Leia a primeira parte aqui.