Por Luigi Torre

A semana de moda de Nova York começou oficialmente na última quinta-feira (08.09), mas, como de costume, é só durante o fim de semana que o clima começa a esquentar. Para quem perdeu alguma coisa, aí vai um resumo do que rolou de mais interessante:

SEE NOW, BUY NOW
Não adianta, é o assunto do momento. E mais interessante do que as roupas prontas para venda logo após os desfiles, é ver como isso está alterando o modo como as marcas estão pensando em suas coleções. Como a gente já falou antes, agora – mais do que nunca – é tudo sobre o consumidor.

Na sexta (09.09), dois bons exemplos ficaram a cargo de Thakoon e Tommy Hilfiger, ambos com vendas imediatas. O primeiro, após uma temporada afastado das passarelas, retorna à NYFW com uma nova sócia-investidora e uma coleção de inverno 2016 100% focada na sua consumidora. Em outras palavras, com propostas menos complicadas do que em coleções passadas e uma oferta mais ampla de produtos. São tricôs e peças de alfaiataria com uma bem-vinda pegada grunge, mas em construções mais simples, ainda que pontuadas por algumas assimetrias e desconstruções. No dia a dia, ninguém quer complicações na hora de se vestir.

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Tommy Hilfiger nunca teve esse problema. Suas roupas sempre caem no lado mais básico da moda (às vezes até demais), embaladas por desfiles-espetáculo. Nesta temporada, para mostrar seu inverno 2016, o estilista transformou o pier da South Street Seaport em parque de diversões e convidou a modelo e fenômeno de Instagram, Gigi Hadid, para co-assinar a atual coleção. O resultado são roupas que combinam o melhor da marca, com o estilo da top. Um mix navy-rocker, com jaquetas de couro, hoddies, bermudas de surfe, boxers, roupas de festival de música, elementos esportivos e hits de street style, mais boas pitadas de sensualidade. Embora não seja a reinvenção da roda, a parceria (e o ótimo styling) serve para atualizar e contextualizar para o aqui e agora os clássicos americanos que a marca faz tão bem, mas nem sempre com tanto apelo – para uma geração cada vez mais influenciada pelo que se vê nas redes sociais.

OLHO NELES!
Com apenas quatro coleções, os designers Fernando Garcia e Laura Kim, da Monse, já são uma das principais apostas da moda americana. Com uma combinação perfeita entre qualidade máxima de design e imagem poderosa (lembrem-se, cliques no Instagram nunca foram tão importantes), a dupla tem seu ponto forte na abordagem focada de suas coleções. No caso, o foco é a camisaria, que, desde a estreia da etiqueta, há um ano, vem sendo reconstruída e repensada das mais variadas formas. Tem vestido tomara-que-caia, versão com decote de um ombro só, maxigolas, maximangas… E agora, com direito a bordados de paetês e injeções enérgicas de cor.

Recentemente, os estilistas foram nomeados diretores de criação da Oscar de la Renta, marca onde se conheceram e trabalharam durante alguns e anos e para onde agora retornam prometendo injetar uma boa dose de frescor à marca. O primeiro desfile acontece em fevereiro de 2017.

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DO SOL DA BAHIA
Felipe Oliveira Baptista estava de férias na Bahia, quando começou a pensar no verão 2017 da Lacoste. O resultado é uma das melhores coleções que a marca já desfilou, com roupões e tecidos de aspecto atoalhado, camisas polo com capuz, calças tracking de cintura alta e corte de alfaiataria, mais uma cartela que combina tons lavados com estampas supervivas e texturas suaves, que são a cara do verão. Mas o que realmente se destaca são as referências esportivas mais discretas, trabalhadas em perfeita sintonia com o street style (qualidade essencial do momento) e com uma atitude urbana.

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SOB NOVA DIREÇÃO
Foram só três meses e meio entre a nomeação de Jonathan Saunders como diretor criativo de Diane Von Furstenberg, até a apresentação de sua primeira coleção para a marca. E o resultado é excepcional. Verdadeira combinação entre o estilo do designer escocês e a essência da fundadora da grife, que, pela primeira vez, deu carta branca para outra mente criativa reinterpretar seu legado. Num primeiro momento, destacam-se as estampas e cores. Afinal, Saunders é conhecido por sua habilidade singular de manipular e coordenar tonalidades e padronagens. A label americana, por sua vez, também traz em seu DNA a predileção por prints e cores intensas. Agora, porém, tudo ganha certa extravagância, com pitadas orientais, sobreposições e assimetrias – espécie de versão atualizada da liberdade e praticidade que Diane, em si, propôs com seu vestido envelope, em 1974.

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ZEITGEIST!
É verdade que agora, com o fenômeno see now, buy now, o aqui e o agora nunca foram tão importantes nas passarelas. Porém, para Alexander Wang, apesar do descompasso entre apresentação e entrega de produtos nas lojas, o presente sempre esteve entre suas principais influências. Neste verão, por exemplo, o mix entre o estilo surfer californiano, a desconstrução da alfaiataria e camisaria, as modelagens esportivas, a lingerie como roupa do dia a dia e até a pornografia são algumas das referências interpretadas na passarela, com ressonância imediata entre seus consumidores (o overposting da coleção está aí de prova). Ah, isso, sem contar na coleção unissex que o estilista acaba de lançar com a Adidas Originals. A sacada, contudo, vem menos no design e mais no styling. Sim, as camisas transformadas em shorts, os biquínis com amarrações de bondage e os roupões de pele são de fato interessantes, mas é o modo como Wang subverte significados e noções pré-estabelecidas a chave para transformar o banal em excepcional, por mais óbvio que possa parecer.

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DESCONSTRUIR É PRECISO
Seja a alfaiataria, a camisaria ou guarda-roupa esportivo e até seu próprio estilo, desconstrução já é uma das palavras-chave da estação. A gente viu na Monse, Alexander Wang, Diane Von Furstenberg… E agora na marca de Victoria Beckham também. A estilista já vinha há algumas temporadas desmontando aquela imagem sexy e glamourizada do começo de sua carreira, em favor de uma mais madura e cool, quase aos moldes da Céline. Desta vez, porém, o passo foi ainda maior. A começar pelo próprio tema: liberdade. Formas desabadas, texturas amassadas, tons lavados e silhueta sempre solta e afastada do corpo falam de praticidade e conforto a toda hora.

Leia a segunda parte aqui.