#Inverno2015: Sacai, Dries Van Noten, Stella McCartney e Sonia Rykiel (Fotos:Agência Fotosite e Divulgação)
#Inverno2015: Sacai, Dries Van Noten, Stella McCartney e Sonia Rykiel (Fotos:Agência Fotosite e Divulgação)

Por Ana Pinho

O assunto é polêmico. Na verdade, já o é faz algum tempo. E basta um novo inverno para que ele pegue fogo novamente. Neste, mais ainda: peles estão em alta. Na mais recente maratona de desfiles internacionais de inverno 2015, maxigolas, estolas e detalhes felpudos foram itens recorrentes nas principais coleções da temporada. Em solo nacional, mesmo
com raríssimas temperaturas abaixo de zero, superfícies peludas apareceram em consideráveis doses. Exemplos? Marcas como Lilly Sarti, Gloria Coelho, Mixed e Animale usaram e abusaram da tendência. Mas nem tudo é o que parece.

As vendas de pele falsa nunca estiveram tão em alta e seu uso nunca foi tão aceito e propagado pelo mercado de luxo. Dries Van Noten, Sonia Rykiel, Sacai e até Stella McCartney foram apenas algumas das marcas que investiram no material. “As mulheres pediam por alternativas à pele animal, então, achei que era hora de fazer uma fur free fur [pele sem pele] realmente boa”,  explica Stella McCartney à Bazaar. “O tecido não é apenas consistente com nossa filosofia de moda de luxo livre de crueldade, mas também não carrega diferenças visuais ou táteis.”

#Inverno2015: Osklen, Shrimps e Stella McCartney (Fotos: Agência Fotosite e Divulgação)
#Inverno2015: Osklen, Shrimps e Stella McCartney (Fotos: Agência Fotosite e Divulgação)

 

Tamanha qualidade, contudo, tem um preço: na casa dos US$ 4 mil. As melhores peles sintéticas, feitas de acrílico e modacrílico, só surgem após um processo complexo que envolve liquefazer, fiar, tingir e texturizar o plástico, e seus fabricantes são guardados a sete chaves pelas grifes. E, sim, é verdade: adicionar um pouco de pele de guaxinim e coelho (as mais baratas) aos fios artificiais de alta qualidade pode até diminuir o custo final. Mas com leis cada vez mais rígidas, precisa estar tudo na etiqueta.

Lojas como Neiman Marcus já passaram por maus bocados na Justiça ao vender itens mal divulgados como sintéticos e, nos anos 2000, houve pânico nos EUA com uma invasão de peles de cães e gatos vindas da China. Hoje esse tipo particular de importação é proibida, mas outras, como focas a zibelinas, ainda estão em aberto. Alguns gigantes, como Selfridges e Net-a–Porter, resolveram simplesmente adotar uma política antipele. Abriram, assim, espaço para o crescimento de marcas como a britânica Shrimps, fundada em 2013 por Hannah Weiland e célebre pelas peles falsas coloridíssimas.

“É de fato incrível que essas lojas não estoquem pele de verdade”, conta Hannah. “A Shrimps pode competir de igual para igual com a pele em termos de qualidade, mas acredito que os compradores também amem a marca por podermos produzir combinações de cores, formas e estampas únicas, que não acontecem com pele real.” Nos últimos meses, ela diz, sua equipe desenvolveu versões falsas de pele de pônei e carneiro.

Por aqui, o movimento ainda caminha a passos curtos. Diversas marcas consultadas para esta matéria preferiam não emitir qualquer comentário, tampouco afirmar se as peles usadas em suas coleções de inverno são falsas ou não. Gloria Coelho, uma das poucas dispostas a falar sobre o assunto, manteve sua tradição e utilizou sua faux fur ao lado de lã, vinil e crepe texturizados. “Somos muito preocupados com os animais e o meio ambiente, e sempre trabalhamos com patchwork e pele sintética”, explica. A Osklen é outra que vai pelo mesmo caminho. Além da seda desfiada, de aparência felpuda, provocou e estampou closes de pele de raposa sobre algodão.

A indústria de peles, no entanto, ainda é poderosa. Gera em torno de US$ 40 bilhões por ano e atende, principalmente, à procura chinesa, onde seu status social não perdeu o charme. Mesmo por lá, teme-se que uma juventude cada vez mais educada crie uma versão oriental dos piquetes dos anos 1970 em prol dos direitos animais e abale as estruturas. Enquanto isso, as máquinas que tecem os fios de pele falsa se aprimoram e o movimento vai angariando os mais diversos seguidores. Em 2014, o clube Mahiki, um dos preferidos da juventude rica londrina, anunciou que quem estivesse usando pele animal não entraria mais. De Shrimps, porém, pode tudo.