Carol Piccin – Foto: André Giorgi

Por Dani Pizetta

Conversar com Carol Piccin é como seguir um mapa que nos leva ao essencial da vida. Mas, para chegar lá, é preciso apreciar os primeiros passos. Quando criança, enquanto sua turma da escola esperava o ano todo para embarcar para a Disney, Carol jogava na mala meia dúzia de biquínis e camisetas e descia a serra com a família para passar os verões em Ubatuba, litoral norte de São Paulo. “Eu sempre fui assim, meio ‘naturalzinha’ em busca da minha turma”, diz em entrevista à Bazaar.

Mas, para ela, a praia nunca foi sinônimo de férias e preguiça. Muito pelo contrário, foi perto do mar que a menina se descobriu verdadeiramente viva e, segundo diz, extremamente útil. Carol veio ao mundo para usar todo seu potencial humano e foi durante os longos verões no litoral norte paulista que começou sua história de amor com o planeta.

Seu primeiro “projeto” foi uma espécie de “Operação Praia Limpa”, que nasceu do incômodo de ver lixo demais e cuidado de menos. Engajando as amigas que fez por lá, e convidando um ou outro nativo que trazia não só a sabedoria local, mas também boas ideias, ela “varria” a areia guiada apenas pela sensibilidade e intuição.

A família sempre foi seu porto seguro e foi no colo da avó materna que, mais uma vez, sua ligação com a natureza veio à tona. Com as mulheres da família, aprendeu sobre os benefícios medicinais das ervas, o poder curativo das raízes e o potencial de uma simples semente. Mas bastou meia hora de conversa com uma “Carol adulta”, para perceber que de nada adiantaria estar cercada por bons exemplos, se não partisse dela, o genuíno interesse em “salvar” o mundo.

Muito se fala sobre propósito de vida e dizem que a forma mais simples de entendê-lo é quando nos pegamos fazendo de graça o que poderíamos cobrar. Bingo! Carol soube fazer esta ligação e percebeu que veio ao mundo com uma missão. Mesmo sem ter a menor ideia do impacto que suas ações mirins causariam nas escolhas futuras, a paulistana, que amava seu bem-estar tanto quanto o do seu planeta, seguiu firme na direção que a transformaria em uma das primeiras estudiosas brasileiras sobre o impacto do lixo no meio ambiente.

Formada em direito pela USP, escolheu a profissão por influência do pai e porque, em 1997, quando entrou para a faculdade, muito se falava sobre a “chegada” de um tal de “direito ambiental”, ainda extremamente insipiente. Aos poucos, a jovem, que logo se mostraria uma empreendedora nata, foi construindo sua trajetória profissional.

Em 2002, formada e trabalhando para uma empresa que fazia gestão de resíduos industriais, decidiu mapear todos os envolvidos no complexo processo do lixo. “Foi neste momento que percebi que dar um destino ao lixo não bastava. Eu tinha que desenvolver uma forma de me comunicar com cada ser humano envolvido na cadeia da economia circular. Este ciclo envolve o designer, a indústria, o consumidor, o catador de lixo, o planeta e muito mais.”

Carol percebeu que era preciso unir a saúde humana com a do planeta para, de fato, transformar nosso comportamento. “É na saúde humana que mora a saúde do planeta”, diz com firmeza.

Muita água rolou e, em 2012, fundou a MateriaLAB, uma empresa que une várias frentes: consultoria de gestão do meio ambiente, pesquisa de materiais e tecnologias de baixo impacto ambiental e auxílio à dupla “produção e consumo”, com o objetivo de tornar tudo isso mais eficiente.

Soma-se à MateriaLAB, a Materioteca, uma biblioteca de materiais ecologicamente corretos. O lugar é um verdadeiro laboratório de conhecimento, com mais de 500 amostras e 200 fornecedores, classificados por indicadores como: composição, aplicações potenciais, durabilidade, desempenho técnico e custos. Entre os materiais disponíveis, estão os couros feitos por meio da fermentação de bactérias, cascas da batata, e até de cactos.

Assim como muitos estudiosos mundo afora, Carol afirma que o lixo é um erro de design (não de “desenho” propriamente dito, mas de “desígnio”). “Esse lapso resulta em excedentes e a falta de responsabilidade humana é o primeiro obstáculo a ser superado. É lá que quero focar, em alertar e despertar um senso de responsabilidade e urgência”. E completa: “os excedentes vêm sempre por uma falta nossa, e é aí que eu entro. Meu objetivo é mostrar que estamos todos conectados e que o efeito borboleta é literal. O que se faz em um extremo do planeta afeta o outro e vice-versa, e isso vale para cidades, praias e para tudo que existe na terra.”

Aos 42 anos, e com o mundo (finalmente) acompanhando sua precoce preocupação com as questões sustentáveis, pergunto se ela finalmente encontrou sua turma, me referindo aos diversos movimentos verdes existentes hoje. Carol diz que sua turma definitivamente não é um nicho: “este assunto deveria sumir, assim como a palavra sustentabilidade. Deveríamos lidar com isso como algo intrínseco a nós. Se eu puder dar um nome para minha turma, diria que é a ‘turma do amor’. Quem ama cuida e se você tiver este sentimento genuíno pelo planeta, você é da minha turma.”