Por Juliana Lopes

2DNIM, Verão 2018
2DNIM, Verão 2018

Desde que a moda voltou a estar na moda no século 21, e a internet ampliou acesso a uma infinidade de imagens fashion, a criação de estilo próprio ganhou asas – e turbinas – para voar. Um voo bem longe de tendências fixas e demoradas, como acontecia na era pré-virtual. Lembram-se das ombreiras dos anos 1980? Elas duraram 10 anos nos croquis dos criativos! Dez anos de ombreira, gente.

Hoje, quase nada na moda dura uma década.Ao menos que sejam peças icônicas da história da vestimenta que sigam um caminho próprio. Desta lista, faz parte a camisa. Ela nunca vai embora; faz par na eternidade da moda com o tubinho preto, o jeans. Com uma vantagem: a camisa é a mais democrática e versátil. É feminina, masculina, agênero – e sempre ageless, dos 0 aos 100 anos.

Quando a marca Two Denim estreou em março, no São Paulo Fashion Week, a interjeição de boa surpresa veio de moças de todas as idades, em uníssono: camisas! Ainda que se apresentasse como jeanswear, era mais uma marca com camisaria que despontava no mercado brasileiro. Como se fosse um tipo de alívio, como se fosse um tipo de encaixe, e é perfeito o match da camisa em todos os guarda-roupas. Na última edição, o SPFWn44, estavam elas de novo. Lado a lado com o denim, símbolo da cultura street na vestimenta, em local nobre de um design ricamente planejado, com styling preciso como um origâmi.

Giuliana Romanno, Verão 2018
Giuliana Romanno, Verão 2018

Giuliana Romanno, por exemplo, trouxe uma camisa surpreendente, com uma generosa fenda central – e os punhos foram trocados por mangas abertas e flair. Em versão ultrasexy, um modelo todo transparente com as mangas desproporcionais. PatBo também abriu sua coleção com uma camisa levemente acinturada, com ares de bata, combinada com pantacourt tão confortável e chique quanto. O look conversa com a jovem que entende os atuais direcionamento do design e, ao mesmo tempo, com a elegante senhora que tem em seu DNA de gosto e memória as roupas de verão em balneários franceses dos anos 1930.

Essa camisa atemporal é democrática também pela questão do conforto, da modelagem que abraça diversos tipos de corpos. Como a que aparece no primeiro look desfilado em Nova York nesta temporada por Oscar de La Renta. É simbólico ver uma camisa branca – sim, toda oversized e com estampas estratégicas – abrindo uma coleção que termina com looks de red carpet.

No mundo street nova-iorquino habita a camisa da Public School, que, no desfile, força todo o despojamento possível de uma homenagem ao grunge bem atualizada. Xadrez forte, metade dela desbotada num esmaecido azul, as escritas em cima, o comprimento oversized, mas romântico, quebrando a dureza: receita atual para uma juventude sem idade e sem uma rebeldia específica. Um dos reis do conceito forte e minimalista, Raf Simons traz para a Calvin Klein uma interpretação densa e irônica da cultura americana na atualidade, e as camisas são bipolares, como se fossem uniformes em crise.

Calvin Klein, Verão 2018
Calvin Klein, Verão 2018

Muitas das possibilidades de desconstrução e renovação da camisa se devem a um passado não tão distante, os anos 1990 de Ann Demeulemeester. Em coleções monocromáticas, minimal e até obscuras, usando muito preto, a estilista belga desconstruiu cirurgicamente calças, blazers e camisas.

Como não lembrar das camisas assimétricas que davam um recado sutil de deslocamento chique? Uma dobra de gola levemente caída, uma manga diferente da outra, ou ausente, um fechamento lindamente desproporcional, fendas que vinham do nada, erros transformados em acerto. E que nos convidaram e esnobar regras de vestimenta e, ainda assim, estarmos impecavelmente elegantes.

PatBo, Verão 2018
PatBo, Verão 2018

A camisa, no começo dos tempos – alguns historiadores consideram sua origem na pré-história –, servia como roupa de baixo. Foi aos poucos saindo do lugar de underwear e começou a dar seus pulinhos para fora das roupas de cima. Os costumes levaram pouco a pouco a uma construção de um styling charmoso: um pedaço da manga aparecendo, a gola exuberante cobrindo o pescoço, a parte de baixo escapando das vestes.

Até que a peça passa a aparecer como um costume mesmo, sem nada que o complemente. A peça sempre teve talento para se moldar de acordo com o corpo e o estilo, mas, em todo o século 20, ganhou uma posição de formalismo, que ainda sustenta. Colocar uma camisa é ainda um dress up em comparação à camiseta. E seu poder contínuo ao longo dos tempos conecta várias gerações. É clássica, mas tem aderência ao novo. Numa mesma cena fashion pode ser antiga e modulável, como o gosto multifacetado e multi trend do superinclusivo século 21.

Diane von Furstenberg, Verão 2018
Diane von Furstenberg, Verão 2018