Greta Lee veste Dior, marca da qual é embaixadora

 

Por Paula Jacob

 

Um bairro suburbano tradicional dos filmes norte-americanos, uma família amorosa e criativa, e uma chuva incessante que os prende dentro de casa. Com esses breves elementos, Louis Leterrier constrói seu mais novo filme, “A Última Casa”, grande estreia deste mês da Netflix, uma ficção científica com elementos de terror sobre a capacidade de resiliência humana em tempos extremos. No coração dessa história, Greta Lee interpreta uma mulher, mãe, esposa, capaz de fazer tudo para manter a sanidade da dinâmica familiar enquanto ela própria, por vezes, se entrega às ruínas de situações limítrofes. “Eu me inspirei em mulheres específicas da minha vida. Aquele tipo que, sem chamar a atenção ou buscar reconhecimento, é forte e capaz – não só no cuidado e no afeto, mas também fisicamente”, conta ela em entrevista exclusiva para a Bazaar.

Conhecida por seus papeis nada convencionais, sempre vivendo personagens femininas complexas, Greta compreende as nuances de alguém que, por mais empatia e acolhimento que tenha a oferecer, ainda sente raiva, exaustão e frustração. “Fico grata por isso ter ficado perceptível. Foram cenas importantes para mim e, sinceramente, um pouco assustadoras. Vivi alguns dos momentos mais vulneráveis enquanto atriz [neste filme], porque eu me importava com essa personagem, essa família. E a força deles está no amor que sentem uns pelos outros”, afirma. “Era importante para mim mostrar que antes de sermos mães, somos pessoas.” Para dar contorno aos sentimentos e aos avanços temporais dessa distopia, um time de especialistas em sobrevivência deu apoio ao roteiro, com informações sobre os diferentes estágios físicos provocados pela falta de água e comida. “Eu pensava o tempo todo: ‘se realmente estivesse nessa situação, como eu reagiria?’.”

Ao senso de claustrofobia, acrescenta-se o cenário. Gravado em uma única locação, o filme reforça a carga física e emocional de seus personagens na dinâmica dos cômodos e mostra o que cada um revela de útil nesse processo de sobrevivência ao desconhecido. “O que antes soava como algo simples pelo elenco enxuto e apenas uma locação totalmente prática, se revelou difícil pela necessidade de permanência, pelas mudanças constantes da casa para ela também acompanhar o desenrolar da história…” Para Greta, a sorte foi ter uma equipe técnica muito alinhada. “Todos os artistas envolvidos são extraordinários, colocaram um nível impressionante de atenção aos detalhes. Eu e sinto privilegiada por ter participado de algo assim, com esse time.”

A atriz em red carpet

 

Apesar do desafio inédito em sua carreira, foi exatamente isso que a despertou para o projeto. “Fiquei inspirada pela ambição de Louis. Estávamos lidando com algo íntimo, mas, ao mesmo tempo, em uma escala enorme. E eu adoro testar coisas novas, sair da zona de conforto”, conta sobre as fronteiras dos gêneros cinematográficos propostas pelo diretor. O que, segundo ela, se estendeu para a escolha do elenco de A Última Casa, com Wagner Moura como seu marido, e os jovens talentos Riley Chung, Emma Ho, Noah Alexander Sosnowski e Gabriel Barbosa. “Parecia algo radical e contemporâneo, que reflete uma verdade do nosso tempo sem precisar explicá-la. O filme não perde tempo explicando por que existe uma mulher coreano-americana casada com um homem brasileiro. Simplesmente é assim. Eu mesma sou uma mulher coreano-americana que faz parte de uma família multicultural. E acredito que outras pessoas, em diferentes partes do mundo, podem se identificar com isso.”

A atriz em look fashionista

Sobre contracenar com Wagner – “o tesouro nacional do Brasil”, brincou –, ela conta que foi especial, por ter acompanhado toda a trajetória dele no Festival de Cannes do ano passado – e, quando ele ganhou o prêmio de Melhor Ator no festival, eles estavam no set, juntos. “O que mais me impressiona nele é a paixão e o comprometimento inabaláveis que coloca em tudo o que faz.”

Cenas do filme “A Última Casa”, em que Greta Lee contracena com Wagner Moura

Capa da edição julho/agosto da Harper’s Bazaar UK, Greta Lee ainda estende toda a sua sensibilidade e autenticidade para fora das telas na relação frutífera que constrói com a moda. “Sinto que tenho a sorte de possuir mais uma extensão da minha vida criativa. Isso me traz uma enorme sensação de realização artística. Sinto que meu repertório está sendo constantemente alimentado. O ensaio foi incrível. Sempre sinto que preciso me beliscar porque não consigo acreditar que faço esse tipo de coisa, que estou na capa de uma revista. Parece inesperado e talvez, por isso, seja bonito perceber que a vida é completamente imprevisível.”

Cenas do filme “A Última Casa”, em que Greta Lee contracena com Wagner Moura

Nomeada embaixadora da Dior no final de 2025, ela cultiva uma conexão com Jonathan Anderson desde a época em que ele estava na Loewe, com quem já desenvolveu looks dos mais virais nas redes sociais – como esquecer o vestido bicolor cheio de fendas no Festival de Veneza? Ou as peças da coleção masculina da maison que usou para aterrissar na cidade italiana para a ocasião (com a tote bag de Madame Bovary inclusa)? Ou até mesmo a campanha Primavera/Verão, da qual é rosto? “Sou muito atraída por pessoas que, como Jonathan, entendem a arte de forma holística. Ele compreende que todas as formas de expressão pertencem ao mesmo universo. Por isso, temos essa relação profunda, baseada em interesses compartilhados. É uma forma especial de permanecer fiel a quem você é e de encontrar alguém que também enxerga o mundo dessa maneira”, conta. “O mais emocionante é sentir que ainda há muito a fazer, muito a descobrir e que o futuro permanece completamente aberto, cheio de possibilidades.” Com tanto talento e sensibilidade, não há dúvidas que outras oportunidades tão irreverentes, no cinema ou na moda, chegarão.