Bárbara Wagner e Benjamin de Burca são destaque na Bienal de Veneza

Brasileiros foram escolhidos pelo curador Gabriel Pérez-Barreiro para ocupar o pavilhão do Brasil

by redação bazaar
Cena de "Estás vendo Coisas" - Foto: Divulgação

Cena de “Estás vendo Coisas” – Foto: Divulgação

Por Júlia Flamingo

Giardini e Arsenale são as duas palavras italianas que não descolam do vocabulário das artes, seja no Brasil ou em qualquer outra parte do mundo. Os jardins onde estão concentradas as mais importantes exposições da Bienal de Veneza viram foco, uma vez a cada dois anos, de qualquer envolvido no cenário criativo contemporâneo desde o nascimento do evento, em 1895.

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Em maio de 2019, a mais expressiva bienal do planeta inaugura sua 58ª edição com pavilhões espalhados pelos belíssimos gramados venezianos prontos para surpreenderem e desafiarem o público com suas novas exposições. Quem entrar pelas portas do pavilhão do Brasil logo perceberá que Bárbara Wagner e Benjamin de Burca vieram botar para quebrar.

Cena de "Faz que Vai" - Foto: Divulgação

Cena de “Faz que Vai” – Foto: Divulgação

Eles foram a escolha do curador Gabriel Pérez-Barreiro, à frente da última Bienal de São Paulo, para ocupar o espaço até novembro. Nos últimos seis meses, a dupla vem trabalhando incansavelmente em Swinguerra, feita especialmente para a ocasião. A obra é um potente vídeo da já estabelecida parceria entre eles, união artística que costuma fazer verdadeiras imersões no cenário musical para produzir trabalhos de não mais que 20 minutos de duração, com cenas coloridas e atraentes.

Usando o bom humor, eles empolgam qualquer público – desde os dançarinos do passinho até os mais respeitados colecionadores de arte – em filmes que já transitam entre museus e mostras de cinema ao redor do globo. “Fiquei muito impressionado com a altíssima sofisticação de suas produções e, ao mesmo tempo, com a humildade e respeito que eles têm com personagens que encontram”, conta Gabriel, que não pensou duas vezes antes de levar o duo para o evento na cidade italiana. “Além de terem uma percepção ampla da cultura brasileira, eles mexem com um assunto importante hoje, que é o da representação midiática”, explica o espanhol, em entrevista à Bazaar Art.

Cena de "Swinguerra" - Foto: Divulgação

Cena de “Swinguerra” – Foto: Divulgação

Como sugere o nome, Swinguerra investiga a cultura em torno do estilo musical – influenciado pelo axé baiano, dançado com passos do pop e muito visto nas periferias do Recife. Bárbara e Benjamin vêm acompanhando o movimento desde 2015, quando foram levados aos ensaios por Eduarda Lemos, bailarina trans que performou para eles na obra “Faz que Vai”, que fala sobre o frevo nos dias atuais.

Ela é uma das líderes do Extrema, um dos vários grupos de swingueira formados por jovens entre 15 e 25 anos, que se juntam três vezes por semana para ensaiar coreografias elaboradas e quase acrobáticas. As apresentações são feitas de uma a duas vezes por ano em competições nas quais originalidade, figurino, cenário e tema são categoricamente analisados. “Eles não ganham dinheiro com isso. Então, o que faz esses jovens se locomoverem duas ou até três horas de ônibus para se juntarem para dançar?”, questiona Bárbara. A resposta: “É uma nova geração de brasileiros que resiste por meio da arte. Eles disputam pela visibilidade como cidadãos e lutam pela educação”, completa.

Cena de "Swinguerra" - Foto: Divulgação

Cena de “Swinguerra” – Foto: Divulgação

O filme será apresentado em Veneza em dois canais complementares que documentam não só os ensaios do Extrema, como também de outros dois grupos: La Máfia, cujo estilo brega-funk está ligado à sensualidade e ao erotismo, e o fenômeno do Passinho do Maloca – expressão de meninos negros vinculada às torcidas organizadas de futebol. “Nós documentamos o que eles são: culturas, crenças, estilos, identidades de gênero e como lidam com preconceitos e violências projetadas nos seus corpos”, explica Bárbara.

Ela e Benjamin convidaram os três grupos para ensaiarem, ao mesmo tempo, em uma quadra em Olinda assinada pelo arquiteto modernista João Filgueiras Lima, o Lelé. A produção faz um passeio por esses movimentos e é complementada por fotografias a serem expostas na antessala do pavilhão.

Participantes da 32ª Bienal de São Paulo, em 2016, quando estouraram com o vídeo “Estás Vendo Coisas”, sobre a indústria da música brega na capital pernambucana, a dupla também já pesquisou cenas musicais como caboclinho, maracatu, passinho, gospel, frevo, brega e até o Schlager, estilo brega cantado em alemão que virou tema do trabalho “Bye Bye Deutschland”.

O vídeo foi apresentado no Skulptur Projekte, em Münster, em 2017, evento que acontece a cada dez anos na cidade alemã com um seleto grupo de artistas convidados. Eles também acabam de ganhar o prêmio de melhor curta-metragem na Berlinale, o celebrado festival de Berlim, com Rise. Gravado em Toronto, o trabalho pesquisa a prática do spoken word a partir de 30 poetas que fazem batalhas de palavras.

Cena de "Swinguerra" - Foto: Divulgação

Cena de “Swinguerra” – Foto: Divulgação

A dupla se conhece desde 2010, quando foi apresentada por amigos em comum, em Berlim. Benjamin é um alemão de 44 anos nascido em Munique, que sempre teve um pé nas artes e produzia desenhos, pinturas e colagens. Já a brasiliense Bárbara Wagner viveu grande parte dos seus 39 anos no Recife e era ligada a um trabalho jornalístico de classes populares do Nordeste.

Não tardou para que eles juntassem suas trouxas. Em 2012, se casaram e, um ano depois, em uma temporada no Brasil, fizeram um test-drive profissional: “Nada do que fazíamos era parecido: o cinema era a única linguagem que combinava nossos interesses de maneira mais fluida”, conta Benjamin.

Parceiros inseparáveis, os dois já não formam mais um casal, mas vivem em casas diferentes na mesma rua do Recife – e, juntos, conquistaram o mundo.

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