Marina Colerato – Foto: Divulgação

Por Diogo Rufino Machado

O ano de 2021 começa marcado por uma pandemia que até agora só se agrava no Brasil. Ano marcante também pela recessão da indústria têxtil, pela queda das vendas e pelo grande número de demissões nesse setor industrial, que é o segundo maior empregador nacional, perdendo apenas para a de alimentos.

Também é o ano do primeiro relatório sobre os impactos da indústria têxtil no País. “Fios da Moda, perspectiva sistêmica para circularidade”, de autoria de Juliana Aguilera (Modefica), Marina Colerato (Modefica), Juliana Picoli (FGVces), Melissa O’de Leon (Regenerate Fashion) e Larissa Roviezzo (Regenerate Fashion), é de extrema importância em tempos de aquecimento global, mudanças climáticas e catástrofes naturais.

O relatório, que é público e pode ser lido na íntegra no site oficial, é fruto da colaboração entre Modefica, Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getúlio Vargas e a Consultoria Internacional Regenerate Fashion. Ele nos revela algo já até imaginável: estamos longe de sermos transparentes na nossa cadeia produtiva, em saber qual é a origem da nossa matéria-prima, quais as condições de trabalho, se há uso excessivo de agrotóxicos, o quanto é consumido de energia e se a gente reaproveita algo dos materiais que são descartados.

E tudo isso é muito grave, considerando a extensão do nosso País, a importância que o setor tem no PIB e o volume de produção.

“Fios da Moda” é um aprofundamento e um olhar questionador para o setor têxtil verde-amarelo, a economia circular nacional e as três matérias-primas mais usadas na nossa cadeia produtiva: algodão, viscose e poliéster. E, pensando bem, já passou da hora de termos essas informações à nossa disposição.

O estudo minucioso e detalhado foi um primeiro passo, o pontapé inicial para mostrar que a partir de agora estaremos de olho, porém revela outro lado triste e nos faz ligar o sinal de alerta. Somos carentes de dados, a nossa indústria é pouco transparente, o Brasil ainda não dispõe de informações abertas e acessíveis e tudo isso esbarra na criação, produção e nos resultados do projeto, que seria criar uma fonte detalhada, sistematizada e metodológica de dados acessível não são aos profissionais da área, mas a todos.

É importante saber de onde vem a peça de roupa você usa, quanto ela custa, por quem ela é produzida, com quais materiais, se estão pagando direitos trabalhistas…. enfim, tudo o que permeia a cadeia produtiva. E esses dados são significativos não só para quem é do setor e os usa para fazer investimentos, por exemplo. Nós, enquanto consumidores, temos o direito de ter acesso às informações a respeito do que compramos. Lembrando que muitas mudanças vêm de baixo para cima, ou seja, nós só podemos modificar estruturas exigindo, não comprando ou questionando.

A Terra não suporta mais a forma como vivemos e se quisermos continuar temos que mudar algo e esse algo diz respeito a forma como consumimos e vivemos.

Como se vê, a iniciativa da pesquisa foi de grande valia por terem dado o pontapé inicial, porém, como vamos falar de combate às desigualdades e das mudanças climáticas se sequer temos dados para isso.
Damos os nossos parabéns aos “Fios da Moda”, mas ao mesmo tempo ficamos frustrados com a ausência de informação. É hora de se ligar. E nossa indústria precisa ter e repassar todos esses dados para nós.