Foto: Divulgação

A fama de São Paulo vem do trânsito impiedoso, dos prédios apinhados e do ritmo sempre nervoso que até mesmo o coronavírus teve dificuldade de desacelerar. Mas foi em meio a esse cenário extremamente urbano que a designer Sylvie Quartara começou a coletar folhas e flores caídas em calçadas e a ressignificá-las em clutches de luxo para a sua marca, a Sy & Vie.

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Foi assim que, há três anos, surgiu a série “Nature-à-Porter”. A coleção mais recente, “Terrara”, abre espaço para cristais e pedras brasileiros lapidados como fechos que dão status de joias às pequenas bolsas.

A afinidade da designer com processos sustentáveis começou muito antes de o assunto virar tendência global. Primeiro, foram os sapatos artesanais, que incluíam reaproveitamento de materiais. As clutches vieram após reposicionamento da marca e uma evolução do processo criativo de Sylvie, que resultou no lema “To Make You Smile”, de fazer, agir e comprar com emoção. Sempre inquieta, ela agora se viu forçada a parar em meio à pandemia do coronavírus.

“Fornecedores estão fechados e também suspendi o atendimento com hora marcada no ateliê. Se uma cliente quiser, envio, mas não estou fazendo nenhum movimento de venda. Considero indelicado em um momento como este”, comenta ela, que também tem criações disponíveis na plataforma Shop2gether.

Foto: Divulgação

Rodeada pelos filhos, que estavam estudando no exterior e retornaram para casa, conta que prepara nova coleção para lançar no final do ano, enquanto, mais uma vez, revisa metodologias. “Acho que, quando tudo isso passar, as pessoas estarão diferentes, repensando a maneira como consomem”, analisa, apontando para um provável slowing down, com boa parte dos consumidores privilegiando design, qualidade e sustentabilidade. “Vejo surgir uma nova maneira de ver a vida”, afirma, acrescentando que uma certeza é a de reforçar seu posicionamento de “produto responsável”.

Outro caminho, diz, enfatizar a exclusividade. “Hoje, cada peça já é diferente da outra, mas uma possibilidade é deixar o resultado ainda mais único”, projeta. Patenteada, a linha “Nature-à-Porter” tem chamado a atenção no exterior.

Depois de dois showrooms na Europa, no ano passado, as clutches entraram para o acervo de moda da Vanitas Gallery, em Milão, e da multimarcas moderninha By Marie, que tem endereços em Paris, St. Tropez e Marselha – a participação já agendada para o showroom italiano Emerging Talents, marcado para acontecer durante a próxima semana de moda, ainda aguarda confirmação por parte da organização do evento.

Apesar de ter começado com as clutches em uma marchetaria que mais parece pintura, são as versões com folhagens que estão encantando as clientes internacionais. Com o crescimento dos pedidos, Sylvie conta que precisou profissionalizar o acesso às plantas. “Passei a adquirir folhas de avenca e samambaia, por exemplo, já desidratadas ou frescas, e eu mesma faço esse processo”, conta.

Composições exclusivas ganham moldura de acrílico ou madeira de reflorestamento, que, por vezes, também recebe acabamento de couro (a versão preferida no exterior). Ao passar a limpo processos que já traduziam um afiado handmade, a designer não só está em sintonia com grandes discussões sobre o futuro da moda e do luxo, como se prepara para manter-se relevante no futuro.