Sheila Hicks

Constellation Amphibienne (2025) – Foto: Tatiana Mito

O que pode nascer de um fio? Para Sheila Hicks, a resposta percorre diferentes formas de olhar para o fazer manual. Aos 92 anos, a artista norte-americana ganha duas exposições simultâneas em São Paulo: “O que que é isso?”, no Instituto Tomie Ohtake, e “Autobiografia de um fio”, na Nara Roesler.

No Tomie Ohtake, estão reunidas cerca de trinta obras feitas ao longo de mais de seis décadas, além da instalação “Mamão com açúcar”, criada especialmente para a ocasião. Com curadoria de Ana Roman, Luis Pérez-Oramas e Paulo Miyada, a mostra parte da investigação de Hicks sobre os fios para mostrar como eles podem ocupar espaços de diversas maneiras. Para Ana Roman, a artista não se limita a uma única linguagem. “Uma coisa que nos guiou muito foi habitar essa multiplicidade do trabalho da Sheila”, conta à BAZAAR Interiors. “É interessante porque o trabalho da própria artista é permeado por essas dúvidas.”

A pergunta que dá título à exposição surgiu ainda na formação de Hicks, quando Josef Albers, seu professor em Yale, a encontrou trabalhando num tear improvisado e perguntou, literalmente: “Was ist das, girl?” (“O que que é isso, garota?”). Albers apresentou Hicks à sua esposa, Anni Albers, que tecia em tear e trabalhava composições de cores em suas obras.

Sheila Hicks

Sheila Hicks – Foto: Emilie Mathé Nicolas

A partir dali, os têxteis tornaram-se um universo de experimentação que nunca deixou de dialogar com a pintura, seu primeiro interesse. O uso das cores, aprendido com o casal Albers, permanece central na prática da artista, que também engloba a arquitetura ao pensar a articulação entre as obras e os espaços.

Essa relação fica evidente nas diferentes escalas apresentadas no instituto. Entre os trabalhos menores estão os “Minimes”, pequenas tramas que ela cria desde jovem como exercícios de técnica, cor e textura. No extremo oposto, obras como “The Soft Side of my Nature” aproximam a produção de Hicks da escala arquitetônica. Segundo Roman, os processos de montagem das instalações também podem variar de acordo com o ambiente: “É uma surpresa do próprio trabalho (…). É uma relação entre nós, os montadores, o espaço e ela”.

A pesquisa de Hicks está diretamente ligada às viagens que ela realizou pela América Latina a partir de 1957. Durante os percursos por países como Peru, Bolívia, Equador e México, a artista se aproximou de tradições têxteis e passou a investigar os modos como eram feitos. A mostra apresenta, por isso, um conjunto de têxteis andinos que integram o acervo do Comodato MASP Landmann em diálogo com as obras de Hicks.

Allegro

Allegro (2026) – Foto: Divulgação

Durante suas viagens, a própria artista e o fotógrafo chileno Sergio Larrain registraram cenas e pessoas que fizeram parte dessas vivências. O visitante também pode ver, na exposição, algumas das fotos e anotações destas pesquisas. “Eu acho que ela tem um olhar etnográfico em algumas das fotografias, mas não totalmente distante. Ela é uma pessoa muito respeitosa em relação a todos os colaboradores dela nas viagens”, reflete Roman. Esse olhar documental se relaciona, ainda, à sua proximidade amistosa e profissional com Monique Lévi-Strauss, pesquisadora e viúva do antropólogo Claude Lévi-Strauss.

Enquanto o Tomie Ohtake olha para a trajetória de Hicks e para sua relação com a América Latina, a Nara Roesler reúne mais de vinte trabalhos produzidos desde 2017, além de uma obra de 1957. “Autobiografia de um fio” também tem curadoria de Luis Pérez-Oramas, responsável pela primeira mostra de Sheila no Brasil, que aconteceu durante a 30ª Bienal de São Paulo. A seleção da galeria traz um recorte mais recente de sua produção e esmiúça sua relação com os fios, elemento que segue permeando sua prática. Concebidas de forma independente, as exposições oferecem perspectivas complementares sobre a pesquisa da artista e lançarão um livro conjunto.

O que que é isso?

Até 25 de outubro

Local: Instituto Tomie Ohtake

Endereço: Avenida Faria Lima, 201 – Pinheiros, São Paulo

Horário: terça a domingo, das 11h às 19h

Entrada gratuita

Autobiografia de um fio

Até 24 de outubro

Local: Nara Roesler São Paulo

Endereço: Avenida Europa, 655 – Jardim Europa, São Paulo

Horário: segunda a sexta, das 10h às 19h; sábado, das 11h às 15h

Entrada gratuita