Barcos atracados no canal de Amsterdã – Foto: Malu Neves

Por Malu Neves

Até pouco tempo atrás, eu observava as casas-barco de Amsterdã com o mesmo olhar que contempla uma paisagem interessante do cotidiano, embora sem grandes emoções. Mas algo mudou desde que o mundo foi submetido às privações do lockdown.

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De repente, meus olhos se tornaram fascinados ao reparar uma nova cena nessa moradia tão peculiar: casais e famílias cultivando momentos prazerosos e sorrisos sinceros em meio à lamentável pandemia.

Era como se toda apreensão e angústia que acometia a humanidade se dissolvesse na leveza desses holandeses. Mesmo restritos às suas casas, pareciam livres. Lá estavam eles, de manhãzinha ou aos finais de tarde, com uma xícara de café e um livro nas mãos; abrindo uma garrafa de vinho branco e petiscando queijos Gouda; ou mesmo em trajes de verão – com direito a biquíni -, tomando sol na primavera mais ensolarada que o país registrou.

Detalhe da entrada de um dos barcos residência no canal de Amsterdã – Foto: Malu Neves

A percepção de refúgio e contato com a natureza estão mais à flor da pele ao morar em um barco. Logo, sensações boas naturalmente despertam em quem usufrui desse estilo de vida. “Assim que a quarentena foi imposta, meu vizinho escapou da cidade e navegou por seis semanas com a esposa e o bebê”, conta Jasper Helmer, proprietário do Noorderlicht Café, espaço cultural e gastronômico, ao apontar para o barco do colega que já havia retornado, enquanto explicava sobre a comodidade de viajar a qualquer momento com sua casa motorizada.

As vantagens de morar em um barco, para Jasper, significam também maior privacidade. Bater a porta, subir escadas, crianças chorando ou casais discutindo são barulhos que nem ele e nem o vizinho ouvirão um do outro.

Jasper Helmer em sua casa motorizada – Foto: Malu Neves

Apesar de manterem suas vidas em particular, existe, segundo ele, um senso de comunidade presente na vizinhança. Todos se conhecem e se dão bem. Não necessariamente são íntimos, mas compartilham visões e valores alinhados.

Essa descrição veio ao encontro do que eu já assumia sobre a personalidade de quem escolhe morar em barco: todos nutrem, em comum, um certo free-spirit, que os permite, não apenas ser mais adaptáveis a circunstâncias adversas, como também menos apegados, talvez, a padrões enraizados.

Rianne Blaakmeer, na embarcação centenária que divide com a família – Foto: Malu Neves

Convenhamos: não é qualquer um que encara os desafios de morar em um barco “No inverno é árduo. Estamos em contato constante com as mudanças do tempo. Em uma casa sobre a terra você simplesmente fecha portas, janelas e cortinas e nem percebe o tamanho da tempestade; no barco é o contrário”, conta Tarik Moree, um jovem ator que considera seu estilo de vida simples, embora agitado, dentro do qual cabem muitos amigos e festas.

Foi no seu próprio barco que Tarik driblou a solidão da quarentena e ausência de trabalho, sempre ao lado de uma companhia para compartilhar drinks e risadas.

Barcos atracados no canal de Amsterdã – Foto: Malu Neves

Ele vem de uma geração menos apegada a posses materiais e mais ligado a outras filosofias e experiências. Embora a primeira impressão sobre quem possui um barco seja ostentar padrões altos e luxuosos, Tarik é o oposto. Gastou 10 mil euros (incluindo a reforma) pelo seu cantinho de apenas 32 metros quadrados sobre a água. “É pequeno, mas suficiente. O que mais me importa já tenho: vivo rodeado de amigos e família, tenho meu barco e o teatro”, externou Tarik, de forma modesta e entusiasmado, inclusive, com a chegada do verão europeu para viajar pelo mar sem destino.

No entanto, há quem pague mais para ter acesso a diferentes estruturas e localização. É o caso de Rianne Blaakmeer, co-fundadora da Editora Uitgeverij Pluim, que mora em uma embarcação centenária com a família. Ela e o marido investiram 300 mil euros entre reforma e ligplaats (permissão demorada para ancorar o barco em um determinado local). “Temos mais liberdade, um lindo horizonte e, em poucos anos, meu filho terá sua piscina particular”, exalta, referindo-se ao rio Amstel. Para Rianne, não há fator negativo, exceto uma sutil desvantagem: “Não é fácil para mulher de salto alto!”.

Tarik Moree driblou a solidão da quarentena a bordo de seu barco-casa – Foto: Malu Neves

Tive mais certeza que viver em um barco, durante o ano desafiador de 2020, foi também vantajoso para rotinas de trabalho. “Há um aspecto positivo de fazer home office a bordo. O espaço no deck permite organizar reuniões com a equipe sem abrir mão das medidas de distanciamento necessárias”, explica a diretora de comunicação do De Balie (Espaço para Artes), Saskia Legein, enquanto tomávamos chá gelado preparado com ingredientes de sua horta flutuante.

Detalhe de uma embarcação no cenário da cidade holandesa – Foto: Malu Neves

Embora confesse que sua rotina profissional se tornou mais caótica em tempos de coronavírus, Saskia não esconde a gratidão e o romantismo genuínos ao reverenciar sua qualidade de vida. “A melhor parte é quando retorno para casa e paro para admirar as águas deste belo canal. Parece que estou constantemente de férias”. Logo pensei: se eu já acho apaixonante morar em Amsterdam, imagine como deve ser em uma casa-barco!

*Malu Neves é Head of Content do Guide Me To @guidemeto_