A advogada Juliana Souza usa look total Dolce & Gabbana – Foto: Carlos Sales, com styling de Larissa Romano

Juliana Souza saiu da periferia paulistana, mas a periferia não saiu de dentro dela. “É de onde venho e onde estou: entre as periferias e o Congresso. Entre as periferias e o Judiciário”. Esse é apenas um recorte do amplo e incansável trabalho da advogada que atua, primordialmente, em causas antirracistas.

Primeira pessoa da família a ter um diploma de ensino superior, na adolescência seu dia começava antes do sol raiar, às 4h30. Pegava o primeiro ônibus com destino ao local de trabalho onde atuava como menor aprendiz. Seguia para um curso técnico no Senai e terminava o dia na escola pública, nas carteiras do ensino médio. Conta que, muitas vezes, sem dinheiro para a passagem, ia andando, o que a fazia perder a aula. No cursinho, estudava mais de 15 horas por dia, o que lhe garantiu uma bolsa na Faculdade de Direito da PUC de São Paulo, uma das mais tradicionais do País. O esforço não foi em vão e nem se encerrou com o diploma na mão.

Aos 30 anos, Juliana é pós-graduada em direitos fundamentais e processo constitucional pelo IBCCRIM, em parceria com a Universidade de Coimbra. Faz mestrado em direito à cidade no Diversitás, da USP. Quer entender o que isso significa? Trace um paralelo entre a rua Oscar Freire, no coração dos Jardins, em São Paulo, e a avenida Almirante Delamare, em Heliópolis, uma das maiores comunidades paulistanas.

Pois bem…a desconexão entre esses dois mundos – e as pessoas que ocupam esses territórios – é o foco do trabalho multiplicador dela. Obstinada, Juliana acredita que a educação é instrumento de transformação social e de emancipação individual e coletiva – sendo, ela própria, a prova mais bem acabada das teorias que defende.

Participa, todas as quartas-feiras, de um encontro majoritariamente de mulheres negras: idealizado por ela, o “Desvelando Oris” apresenta outras perspectivas de vida e existência para mulheres de territórios precários.

A potência de Juliana a fez chegar até aqui. Ela acaba de lançar o livro “Torrente Ancestral, Vidas Negras Importam? – Inquietações racializadas de uma mente preta dissonante”, em que reflete sobre as questões raciais e movimentos negros no Brasil. Para quem assistiu à minissérie “Aruanas“, da Globo, ela está na tela, representada na personagem de Taís Araújo, a advogada ativista Verônica.

As duas se conheceram quando Juliana trabalhava no Instituto Alana, organização filantrópica que atua nos setores de meio ambiente e educação inclusiva, entre outros – foi lá que a atriz fez uma espécie de laboratório antes da série. “Em todos os lugares em que estive, sempre fui muito exclusiva. A única negra na sala, a única estagiária negra do escritório. No sistema de Justiça, somos acostumados a ver pessoas como eu no banco dos réus e não como defensora.”

Trabalhando ao lado de Silvia Souza, negra, ativista e periférica como ela, as duas formam uma dupla poderosa no meio jurídico, especialmente no que diz respeito às questões raciais. Chamaram a atenção dos atores Bruno Gagliasso e Giovanna Ewbank para assumir a defesa de Titi, filha do casal, que sofreu diversos ataques racistas nas redes sociais. O processo, que desde 2017 corre em segredo de Justiça, está longe de acabar. “Fui uma criança como a Titi. Sofri e sofro muito preconceito”, conta ao lembrar de um colega que a discriminou pelo cabelo aos 12 anos de idade. “Hoje consigo falar sobre isso sem chorar”.

Juliana sabe a responsabilidade que tem. Lado a lado com as conquistas, vem o peso de ser a única da família a ascender socialmente. “Sou a responsável financeira por 15 pessoas que abriram mão de muitas coisas para eu ser quem sou. Quando falamos da mobilidade social de uma pessoa negra, uma comunidade inteira se sente capaz de ascender também”.

Para a advogada, o diálogo é a chave capaz de abrir a longa trajetória do processo de inclusão. “É preciso conversar com muitas pessoas, mobilizar recursos para ter mais cedo oportunidades. Para que meninas, como a minha sobrinha Gabriela, de 8 anos, estejam em outro lugar com a minha idade e tenham acesso ao bem viver e a uma vida digna, que está prevista na Constituição, mas, infelizmente, não vale para todos.”

Esse acesso custou muito a Juliana. Até pouco tempo, sua mãe, com quem veio bem pequena da Bahia, era trabalhadora doméstica. Cuidava dos filhos dos outros para poder alimentar os seus. O sucesso da filha é sua maior recompensa. “Comprei um apartamento perto do metrô Oscar Freire, sem me dar conta que minha mãe limpava um apartamento ali ao lado. Ela vai morar pela primeira vez em um lugar onde pode abrir a janela e ter uma vista; não mais nos fundos de um terreno.”

Sua mãe, finalmente, conhecerá novas possibilidades. “E isso é só o começo”, avisa ela que, após uma live com Anitta, recebeu um telefonema emocionado de Caetano Veloso. Não se espante ao vê-la soltando a voz e gravando um disco logo mais; ou em campanhas publicitárias que, acredita, são determinantes ao mudar o imaginário social. Juliana pode tudo.