Foto: Inathan Dumlao/Unsplash

Por Giovanna Madalosso

Era 2014. Eu e Pedro estávamos com trinta e poucos anos, separados dos pais de nossos filhos, livres e prontos para viver uma nova relação. Lembro de uma certa noite, no meu apartamento, nós dois fazendo aquilo que os apaixonados mais fazem depois de sexo: planos. Sim, fitaremos estrelas no céu do Atacama. Sim, veremos nossos filhos crescerem. E moraremos juntos, falei, recebendo em troca um inesperado silêncio.

Pedro não chegou a rejeitar a minha ideia. Disse que poderíamos juntar nossos livros mas, antes de sair conciliando as estantes, valia pensar um pouco. Sua mãe e seu padrastro estavam casados há mais de trinta anos em casas separadas e pareciam mais satisfeitos do que a maioria dos outros casais. Era verdade, eu já tinha visto os dois na casa dela. Enquanto os outros Sr. & Sra. presentes rasgavam publicamente seus ranços amealhados na estreita convivência, ele tocava o joelho dela como uma iguaria erótica, enquanto ela comentava, com carinho, sobre o estrondoso ronco dele retumbando, todas as noites, bem longe dali.

Vislumbrar isso fez com que eu despertasse. Como se tivesse vivido até então em uma realidade paralela, um pequeno universo suspenso sobre outro muito mais amplo. Ora, eu nunca gostei de tumulto no meu quarto. Sofro de insônia, meu éden sempre foram as noites de casa vazia, em que durmo abraçada com minha silenciosa e macia solidão. Juntar os livros também não faz meu tipo, até pelo gênero: são todos separados por temas e origem do autor, minha casa pode estar de ponta cabeça mas não suporto uma lombada fora do lugar. De onde vinha, então, o ímpeto de pôr em jogo a manutenção das minhas manias e prazeres?

Podemos dizer que o desejo vinha de uma das maiores campanhas publicitárias da história, inventada antes mesmo de a publicidade existir. Quando surge a propriedade privada, surge também o desejo de acumular e manter bens e, para isso, era preciso que tudo ficasse em família e debaixo do mesmo e vigilante teto – já pensou o amorzão ter que entregar um naco do seu terreno para o bastardo que a mulher gerou dando uma trepadinha com outra pessoa? Assim consolida-se o casamento como o conhecemos, reproduzido por séculos em carne e herdeiros, e também em romances, novelas, poemas, óperas e tantas outras formas artísticas que, como peças involuntárias de propaganda, nos levaram a acreditar que duas pessoas que se amam só podem desejar viver juntas e apenas juntas, todos os dias, até que a morte os separe.

Volto para o momento em que eu despertei e Pedro me olhava atordoada, contemplando o vasto mundo de possibilidades além do amor romantizado e romântico. Virei a taça de vinho que tomava então e, olhando para a minha estante impecável, disse sim para o casamento em casas separadas. E então procedemos a uma noite de núpcias digna de que quem não conversa e não conversará sobre o rateio do condomínio.

Claro que nem tudo são gozos e, na manhã seguinte, eu já me defrontava com uma questão: entender como uma relação que, na prática, não difere do namoro – casas separadas, contas separadas – pode, subitamente, passar a ser chamada de casamento, sem que nada de sólido se altere no seu contorno.

Ou talvez se altere, mas com tal sutileza que demorei meses para perceber. Era no âmbito do comprometimento, e não da obrigação, que a coisa acontecia. Ainda que não dormíssemos juntos, Pedro vinha buscar a enteada para levar ao dentista. Ainda que não dividíssemos as contas, antes de gastar qualquer montante significativo discutíamos a decisão. Em um certo momento percebi, com surpresa, que era muito mais casada do que alguns amigos que nunca separaram as escovas de dentes.

Não existe um modelo perfeito de relação. Se existisse, todos praticariam o mesmo. E, como todas, a nossa relação também tem seus pontos altos e baixos. Entre os altos, o já citado tesão de quem não discute divisão de contas, de quem escapa do rolo compressor da rotina e espera, de cabelo penteado, assuntos em riste e roupa íntima sem furo, pela chegada do outro. Entre os pontos baixos, um distanciamento que pode surgir sorrateiro.

Há alguns anos, reformei meu apartamento. Como tudo o que faço, mergulhei de cabeça no projeto, passava os finais de semana vendo o sol se pôr detrás dos ladrilhos da Leroy Merlin. Pedro, que não estava com a cabeça nos sifões, às vezes acabava por fazer outros programas. Quando percebemos, estávamos nos falando pouco, nos vendo menos ainda, e a crise dos que se descuidam se instaurou. Nos separamos. Voltamos depois, com o aprendizado de que precisamos compensar a distância domiciliar com um interesse redobrado pelo outro.

Estamos assim há oito anos. Dei um Google em um daqueles sites de gosto duvidoso e descobri que estamos fazendo bodas de barro. Até que o nome caiu bem, acabamos de mudar de forma. Por alguns anseios pessoais e profissionais meus, agora vivemos a 400 quilômetros de distância. Contra todas as suposições, vem dando certo. Perceber que sempre serei livre e incentivada a viver onde e como quiser me faz amá-lo mais e, pela primeira vez, acreditar que uma relação pode ser para sempre. Talvez pelo fato de não ter que ser para sempre a mesma.